Barbárie (II)

Avó de criança assassinada em Porto Real também foi presa

A Polícia Civil de Porto Real concluiu o inquérito que apurou a tortura que resultou na morte da menina Ketelen Vitória, de apenas 6 anos. O documento foi encaminhado ao Ministério Público, que ofereceu, na quarta, 28, denúncia à Justiça contra a mãe de Ketelen, Gilmara Oliveira Faria, a madrasta Brena Luane Barbosa Nunes e a avó, Rosangela Nunes. As três foram denunciadas por maus-tratos, mas tanto a mãe da criança quanto a madrasta responderão também por tortura e assassinato. As duas foram presas no dia 19 de abril, logo após Ketelen ter dado entrada no Hospital Municipal São Francisco de Assis em estado gravíssimo. Já Rosângela foi presa na quarta, 28.
Ketelen morreu na madrugada do dia 24 de abril, depois de sofrer uma parada cardiorrespiratória. O quadro da criança evoluiu para uma piora na quinta, 21, e os médicos disseram que, se ela sobrevivesse, certamente ficaria em um quadro vegetativo. Ketelen teve múltiplas lesões no corpo e foi admitida no hospital arreflexa (sem reflexos) e em coma, sendo entubada e transferida para a Unidade Pediátrica de Terapia Intensiva do Hospital Neovida, em Resende. A menina foi covardemente espancada por Brena Luane e Gilmara, que viviam juntas no Jardim das Acácias, em Porto Real.
A casa, de apenas cinco cômodos, pertence a Rosângela, mãe de Brena, e foi dada a ela pelo governo de Porto Real, em 2010, dentro do programa Casa Popular. Além das três mulheres, o imóvel abrigava a pequena Ketelen e uma idosa de 86 anos, mãe de Rosângela. É com a pensão desta senhora – de apenas um salário mínimo – que todas se mantinham. Segundo a Polícia Civil, Gilmara deixava a filha passar fome e só a alimentava duas vezes na semana. Ketelen ainda era obrigada a comer pão mofado e comida estragada. As agressões que resultaram na sua morte começaram no dia 17 de abril, porque Ketelen teria aberto duas caixas de leite, que caíram no chão, e bebido o leite que havia derramado. A criança estava com fome. A mãe a corrigiu, mas Brena achou que não era suficiente, e passou a agredir a menina de forma totalmente descontrolada.
Ketelen apanhou com um cabo de TV, teve a cabeça arremessada contra a parede várias vezes, foi agredida com pauladas, chutes e socos por Brena. Gilmara teria presenciado tudo e ajudado até nas agressões. Por fim, Brena jogou a criança em um barranco de sete metros e ela só não rolou morro abaixo porque Gilmara a teria segurado. Apesar de ter sido agredida desde o dia 16, Ketelen só foi levada ao hospital três dias depois, mesmo assim por insistência de Rosângela, que notou que a criança estava imóvel, com os olhos revirados e muito apática. Ao dar entrada no hospital, Gilmara teria mentido aos médicos, dizendo que um mourão tinha caído na cabeça da filha. Rosângela a desmentiu e a Polícia Militar foi chamada.
Brena e Gilmara foram presas em flagrante. Gilmara chegou a levar os policiais até a casa e lá teria confessado a participação nas agressões à filha. Brena tentou fugir pelos fundos, mas foi alcançada. Rosângela também chegou a ser levada para a Delegacia de Polícia, foi indiciada por omissão de socorro, mas foi liberada para responder em liberdade. Na quarta, 28, porém, assim que o inquérito foi entregue ao MP, os promotores entenderam que Rosângela também foi responsável pela morte de Ketelen, e poderia ter evitado as agressões se tivesse denunciado a violência contra a menina. Ela foi presa em casa.
Ketelen foi sepultada em Duque de Caxias, onde morava antes de ir com a mãe para Porto Real. Vizinhos da casa das agressoras relataram nunca ter visto a menina antes, nem ouvido barulho de criança brincando ou chorando. As investigações apontaram que Ketelen era mantida em cárcere privado, dentro de um quarto úmido e com as paredes mofadas, dormia no chão e não era alimentada. A criança também não frequentava a escola e nunca passou pelo pediatra do Posto de Saúde do bairro. Aliás, o único registro da menina nos prontuários eletrônicos de Saúde de Porto Real é o da sua admissão no Hospital, cinco dias antes da sua morte.
O caso chocou Porto Real e região, ganhou as manchetes dos jornais e foi exibido em programas de TV. A repercussão se deu não apenas pela covardia das agressoras com a criança, mas também pela semelhança com o caso do menino Henry Borel, morto no dia 8 de março, depois de ser agredido pelo padrasto, o vereador Dr. Jairinho, e sua companheira, mãe da criança, a professora Monique Medeiros. Ambas as crianças foram agredidas em casa, por quem deveria protegê-las.
Em entrevista a jornais do Rio e da baixada, o pai de Ketelen, o vendedor Roger Fabrizius da Rocha, 32, se disse chocado com as circunstâncias da morte da filha. Ele contou que foi casado com Gilmara por quatro anos, mas se separou quando Ketelen tinha apenas um ano. Ele saiu de casa, em Duque de Caxias, e deixou o imóvel para Gilmara e a menina. No período em que estava trabalhando, ele teria pagado a pensão alimentícia da filha, mas na pandemia, desempregado, parou de pagar. Desde que Gilmara foi embora com a criança, Roger nunca mais ouviu falar delas. “Gilmara era uma mãe carinhosa, protetora, jamais imaginaria que ela teria coragem de fazer isso com a Ketelen, mas as pessoas mudam, infelizmente. Eu só quero Justiça”, pediu.

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