EXCLUSIVO: Mãe de Wesley contesta versão de que seu filho seria traficante; corpo ainda não foi encontrado
Por Mateus Gusmão
“Dói muito, só nos resta ter esperança. Eu acredito na justiça divina. Eu luto pelo meu filho. Ele pode ter todos os defeitos do mundo, ninguém é perfeito. Eu não sou, ninguém é. Mas essa falha de ser traficante, de vender droga, isso ele nunca teve. Meu filho trabalhava muito…”. Foi assim, com essas palavras, que Rosilene dos Santos Silva, de 51 anos, definiu o que sentiu quando soube do encerramento do inquérito policial que investiga o desaparecimento de seu filho, Wesley dos Santos Silva Henrique, de 30 anos. Em entrevista exclusiva ao aQui, Rosilene contestou o fim do do inquérito e rebateu, com veemência, a informação de que seu filho – desaparecido desde outubro do ano passado – fosse traficante de drogas.
O desaparecimento de Wesley, em 21 de outubro de 2025, gerou comoção nas redes sociais desde então. Em vídeos que circulam nas redes sociais, a mãe do rapaz sempre pedia ajuda para encontrar o filho – ou o corpo dele. Aproveitava para falar das investigações e criticar a postura dos policiais, entre outras coisas. Wesley, que era motoboy, teria desaparecido após sair do trabalho.
Em nota aos jornais divulgada na segunda, 23, a Secretaria de Estado de Polícia Civil informou que os policiais civis da 93ª DP (Volta Redonda) concluíram o inquérito sobre o desaparecimento de Wesley e o encaminharam ao Ministério Público, que ofereceu denúncia já recebida pela Justiça. A Polícia concluiu que Wesley foi morto por estar envolvido com o tráfico de drogas. A família contesta.
Em entrevista exclusiva ao aQui, Rosilene dos Santos Silva relatou a angústia de viver sem ter notícias do filho. Questionou novamente a conclusão do inquérito, garantiu que o filho não vendia drogas e cobrou a localização do corpo de Wesley. Agora, com o fim do inquérito, ela diz que vai recorrer. “A gente está no Ministério Público, né?! E vai recorrer dentro dos meios legais, reunir todas as provas”, destacou.
Segundo ela, uma das coisas que mais clama às autoridades é a descoberta do paradeiro do corpo do filho. “Por que essas pessoas que fizeram essa brutalidade com meu filho não vão dizer onde está o corpo? A gente quer os restos mortais dele, para ter paz, para que a criança (filho de Wesley) tenha direito ao INSS (pensão). A gente tem uma criança precisando do mínimo. Até agora, não tem um atestado de óbito”, destacou, ressaltando que sequer recebeu o seguro da motocicleta, que teria sido roubada.
Para Rosilene, houve negligência da Polícia Civil na apuração do caso, além de afirmar ter sido muitas vezes desrespeitada na DP de Volta Redonda. “Chegaram a dizer que meu filho estava vivo e traficando, porque viram a moto dele no Siderlândia, após o seu desaparecimento. Eu peguei as imagens no Ciosp e claramente não era meu filho na moto”, comentou. “Eu corri atrás, estive em muitos locais, e todos com quem eu conversava diziam que meu filho nunca teve envolvimento com drogas”, garantiu.
Rosilene relatou que, em busca de paradeiro do filho, chegou a ir ao bairro Santa Inês, em Barra Mansa, atrás de informações. “Chegaram notícias para a gente que meu filho poderia ter sido morto lá. A gente foi, meu marido, minha filha, e conversou com as pessoas do tráfico. Me garantiram que meu filho nunca participou do tráfico, que o conheciam por prestar serviços de mototaxista, mas não no tráfico”, destacou.
Rosilene diz que sua luta não vai parar. “Eu só quero um fim. Eu quero sepultar meu filho, ter a dignidade de um atestado de óbito. Do dia para a noite nossa vida mudou de cabeça para baixo. Nenhuma mãe, mesmo que o filho erre, merece viver tanto descaso, um luto sem luto. Tudo é saudade nesse momento, é perda. É muito doloroso”, comentou. “Dói muito, só nos resta ter esperança. Eu acredito na justiça divina. Eu luto pelo meu filho. Ele pode ter todos os defeitos do mundo, ninguém é perfeito. Eu não sou, ninguém é. Mas essa falha de ser traficante, de vender droga, isso ele nunca teve. Meu filho trabalhava muito…”, completou.
Emocionada, Rosilene concluiu a entrevista ao aQui deixando um recado para todas as mães que sofrem. “Até aqui, eu pude lutar por ele. Agora, está no Ministério Público. Eu lutei muito, busquei muito, por mim e por muitas mães. A gente passou por muita coisa na delegacia, ouviu muitos gritos. Mas conseguiu chegar ao Ministério Público. E a gente vai conseguir mudar esse desfecho do inquérito com as provas que tem. Tenho certeza que a gente vai conseguir mudar isso”, completou.
Inquérito concluído
Mais de quatro meses após o desaparecimento de Wesley, a Polícia Civil divulgou que concluiu o inquérito. A investigação resultou no indiciamento de quatro envolvidos por extorsão mediante cárcere privado com resultado morte; ocultação de cadáver; associação para o tráfico; e posse ilegal de arma de fogo. Segundo a Polícia, as investigações teriam revelado que Wesley foi alvo de represália de traficantes ligados ao Comando Vermelho, que atuam no Siderlândia e no Açude, em Volta Redonda. Segundo a nota, integrantes do tráfico local descobriram que Wesley estaria vendendo entorpecentes de forma autônoma, o que teria motivado o ataque.
Na noite em que desapareceu, Wesley teria sido abordado justamente ao fazer uma entrega de drogas. Ele foi capturado, preso em praça pública e, posteriormente, levado para uma área de mata, onde permaneceu sob vigilância armada por cerca de três horas. No período, ele foi coagido a realizar transferências bancárias, de R$ 9.400, para os narcotraficantes. Apesar de ter feito o pagamento, ele não foi liberado.
Os agentes da 93ª DP identificaram os quatro criminosos supostamente envolvidos no desaparecimento de Wesley. Dois são apontados como executores diretos e estão foragidos, com mandados de prisão expedidos. Os outros dois encontram-se presos preventivamente, um por fornecer a conta bancária utilizada para receber e pulverizar os valores extorquidos, e o outro por conduzir a motocicleta de Wesley até o Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, onde o veículo e o celular foram revertidos em prol da organização criminosa.

