Se essa obra fosse minha…

Vereadores de primeiro mandato atuam mais como presidentes de associação de moradores

Por Mateus Gusmão

O leitor provavelmente sabe: a função de um vereador, eleito pelo povo, é – principalmente – criar leis e fiscalizar o Poder Executivo (leia-se prefeitura). São os parlamentares que têm a função de elaborar, propor e discutir leis que poderão ser implantadas na cidade. Sempre pensando na coletividade. Entretanto, pelo menos nos primeiros 100 dias de mandato, a maioria dos vereadores de primeira viagem ainda está aprendendo isso.
Pior. Com menos sessões legislativas por conta da Covid-19 (a Câmara não realiza sessões online, grifo nosso), os vereadores estão assumindo funções que deveriam ser de presidentes de Associações de Moradores. Pedem, por exemplo, capinas e roçadas ou um desentupimento de bueiros. Quando conseguem um simples tapa-buraco com asfalto a frio (de pouca resistência), saem a celebrar. Nas redes sociais, é claro.
Projetos de lei sobre aumento de receitas, nem pensar. Mostram que não estão nem aí para a crise financeira que assola o Palácio 17 de Julho. Pressionar o prefeito Neto a pagar o 13o salário do governo anterior também não faz parte da cartilha da maioria dos novos parlamentares. O vereador, ainda pouco conhecido, Cacau da Padaria, eleito com votos da Vila Brasília, por exemplo, dia sim e outro também, posta em suas redes sociais os serviços de melhorias executadas pela prefeitura, que faz questão de acompanhar como querendo tomar para si a paternidade.
Na quarta, 14, Cacau comemorou a limpeza de uma canaleta de água pluvial, executada pela secretaria de Infraestrutura, na Viela 11, da Vila Brasília. “Recebemos esse pedido através dos moradores e repassamos para a SMI, onde fomos prontamente atendidos”, justificou, dizendo-se feliz da vida pelo fato de a SMI “mais uma vez atender nosso (seu) pedido”.
Não satisfeito, Cacau da Padaria decidiu mostrar serviço com as próprias mãos. Ou, melhor, com um grupo de “voluntários”. Cacau e os amigos estiveram na Viela 10, ainda na Vila Brasília, para cortar o mato da localidade. “Atendendo aos pedidos de moradores locais, que utilizam deste caminho diariamente, estava bem precário perante ao grande avanço do mato na escadaria. Agora se encontra bem mais agradável o acesso dos moradores pelo caminho”, escreveu em um linguajar meio confuso.
Outro novato, o vereador Rodrigo Nós do Povo segue a mesma linha de Cacau da Padaria. Liderança comunitária da região do Mariana Torres, o parlamentar usa as redes para agradecer os serviços prestados pela prefeitura em seu reduto eleitoral. Segundo ele, pedidos feitos pelo seu gabinete. “Agradecemos a secretaria de Obras pela atenção dada na limpeza do bairro Mariana Torres, onde existia grande necessidade do mesmo. Agradeço mais uma vez ao nosso amigo e secretário Jerônimo Telles por atender mais um pedido de nosso gabinete”, postou recentemente.
Já o vereador Lela Dias não é tão assíduo das redes sociais. Por exemplo, não postou nadica de nada sobre qualquer projeto de lei que tenha apresentado na Câmara de Volta Redonda. Mas já agradeceu aos amigos do Palácio 17 de Julho. “O meu muito obrigado ao prefeito Neto, ao Sebastião Leite, diretor do DEIP (departamento de iluminação pública) e aos funcionários pelo restabelecimento da iluminação da passarela da Av. Argentina e da Radial Leste. Agradeço também aos moradores da Vila Americana por acreditar no nosso trabalho”, comentou Lela, eleito pelo partido do ex-prefeito Samuca.
Hoje um dos parlamentares mais próximos ao prefeito Neto, o vereador Vander Temponi (PTB), por sua vez, gosta de ser assíduo das redes sociais. Só que a tônica das suas postagens é a mesma: agradecer os serviços prestados que, segundo ele, foram feitos por conta de seus pedidos. “Começamos mais um dia com muito trabalho. Obrigado ao Saae por atender mais um pedido do nosso gabinete, desentupindo os esgotos da rua Assis Crispim Pereira, no bairro São Geraldo”, postou Temponi, na quarta, 14, junto com selfies que mostravam seu rosto e o desentupimento sendo feito logo atrás.
Outro vereador de primeiro mandato, Halison Vitorino, é, digamos, mais experiente em redes sociais, mesclando suas postagens de cunho pessoal com sua nova vida política. Ele foi um que se posicionou contra o fechamento das igrejas durante a pandemia. Mas, ao mesmo tempo, postou fotos das visitas que recebeu, de deputado ou secretário municipal. E comemorou a aprovação do seu primeiro projeto de lei, que determina que todo valor arrecadado com multas em estabelecimentos por descumprir regras de combate à Covid-19 seja destinado à área de Saúde.
Mas, como não poderia deixar de ser, Vitorino não deixa de comemorar os serviços prestados pela prefeitura em bairros da cidade. Recentemente, foi ‘conferir’ como ficou o trabalho de revitalização de uma praça da Rua Campos, no Retiro. “Quero agradecer a equipe da secretaria de Infraestrutura, que atendeu a nossa solicitação. Nós temos trabalhado em prol de todas as demandas que recebemos. Obviamente algumas não são possíveis, outras levam mais tempo para termos o retorno, mas procuramos sempre dar uma resposta”, completou.
Mas nem tudo está perdido. Paulinho AP, eleito com apoio do ex-deputado Deley de Oliveira, que não tem reduto eleitoral, busca atuar de forma diferente. É dele, por exemplo, o projeto de lei que incluía no grupo prioritário de vacinação contra a Covid-19 as pessoas com síndrome de down, autismo e deficiência intelectual. Tem mais. Arrancou muitas curtidas ao abrir mão de alguns benefícios comuns a vereadores, entre eles, o carro cedido pela Câmara, o celular, o plano de saúde e o auxílio-gasolina.
‘Vereadores radialistas’
Dois marinheiros de primeira viagem são por demais conhecidos: os radialistas Betinho Albertassi e Renan Cury, que continuam usando as redes sociais para cobrar melhorias junto à prefeitura de Volta Redonda para atender seus ‘ouvintes-eleitores’. Renan é o que mais posta. São centenas de notícias diárias, mas poucas sobre sua atuação parlamentar.
Em uma delas, Renan defendeu as academias de educação física e os profissionais da área diante das ameaças de um lockdown. Segundo ele, o setor de academias ficou fechado durante cinco meses em 2020 e um novo fechamento provocaria um “suicídio” entre os empresários e causaria a demissão em massa dos profissionais que trabalham na área. “Apenas algumas academias resistiram durante a paralisação do ano passado. Para a grande maioria, um novo fechamento seria um desastre total”, pontuou.
Betinho Albertassi, por sua vez, divulga mais o que faz no Parlamento. Mas não deixa passar em branco alguma atividade fora do legislativo. Quando uma lanchonete foi assaltada essa semana no Aterrado, Betinho logo se posicionou. “Ontem uma lanchonete teve sua porta arrombada na Rua Jaime Pantaleão de Moraes no Aterrado. Solicitei, através de ofício na Câmara, ao 28º Batalhão da Polícia Militar, reforço no policiamento, pois os moradores e comerciantes estão sofrendo com os assaltos constantes. Estamos reforçando o pedido e precisamos de uma atenção urgente para estes centros comerciais do Aterrado e Retiro”, postou Betinho.
Evangélico, como a maioria do clã Albertassi, Betinho comprou briga com o Palácio 17 de Julho na defesa das igrejas que foram interditadas e multadas por descumprirem as medidas de isolamento social diante da Covid-19. Foi um tiro certeiro para 2022.

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