Onde há fumaça…

PMs do Batalhão do Aço podem estar sendo obrigados a escoltar carros com cargas da Souza Cruz

Os policiais militares sediados em Volta Redonda sabem que fumar faz mal à saúde. Tanto que muitos fazem palestras em escolas para influenciar os alunos a não usarem a droga. É por essas e outras que os PMs (a maioria) não teriam ficado muito felizes com uma nova missão que teriam recebido do comando do Batalhão do Aço: escoltar as cargas de cigarros da empresa Souza Cruz, na área de jurisdição da unidade, que abrange Volta Redonda, Barra Mansa, Pinheiral e Rio Claro. A denúncia foi revelada ao aQui por integrantes da tropa do 28o, mas foi negado pelo alto comando da PM ao ser procurado para falar sobre o caso.
O que a PM do Rio de Janeiro não sabe é que o aQui teve acesso a cópias de diversas mensagens entre os policiais militares. Em uma delas, um PM consulta seu superior sobre a ordem de escoltar as cargas de cigarros até que as entregas sejam feitas em seus destinos. Detalhe: as mensagens foram editadas, somente com a correção da escrita, para facilitar a compreensão do leitor: “Em off? Aqui meu chefe, só na curiosidade do praça: Souza Cruz a gente escolta também? Só por curiosidade”, pergunta o policial, ao que o oficial responde: “Claro que não. Se mandar escoltar tira cópia da ordem, que estão vendendo policiamento”. O oficial ainda questiona: “Mandaram vocês escoltarem?”. E o policial responde que iria confirmar a história e repassá-la ao oficial.
A denúncia prossegue, com o policial encaminhando outras mensagens que mostram o desenrolar da situação. Primeiro, é anunciada a criação de um grupo específico de WhatsApp – com a suposta participação da comandante do 28o Batalhão da PM, Andreia Ferreira da Silva Santos – para compartilhar a rota dos veículos usados nas entregas. A mensagem explica ainda como seria feita a escolta.
“Senhores, vai ser criado um grupo com a Coronel para escolta dos carros da Souza Cruz. De manhã será postado a rota do veículo e uma guarnição deverá escoltar o carro. Como será essa escolta: deu entrada na companhia, uma viatura vai acompanhar enquanto estiver fazendo entrega na área da companhia. Saiu da área, avisa o Ciosp e está encerrado”, diz a mensagem, instruindo os agentes.
Em outra troca de mensagens a que o aQui teve acesso, em um grupo de WhatsApp que seria de policiais do 28o Batalhão, um número de celular – onde se pode identificar como sendo de uma ‘Andrea’ – postou a seguinte mensagem: “Atenção no grupo da Souza Cruz operadores da 1 e 2 Cia. Caso entendam necessário podem fazer contato diretamente com os motoristas”, provavelmente se referindo aos motoristas dos carros da Souza Cruz.
A reportagem também teve acesso à imagem da criação de um novo grupo no WhatsApp, denominado “DSC/28 BPM”, que serviria para a comunicação direta entre os policiais e os motoristas dos carros da Souza Cruz. O grupo teria sido criado por volta do dia 10 de março. A primeira postagem é de uma pessoa identificada pelo primeiro nome, Luiz Fernando, desejando “bom dia” e “um excelente trabalho a todos”. A mensagem seguinte traz todas as informações sobre uma entrega, com a placa do veículo, o itinerário a ser percorrido, o nome do motorista e um telefone celular para contato. O número de celular que postou a mensagem teria como nome de contato a empresa de entregas, localizada no Aterrado.
Várias mensagens semelhantes – com os dados completos das entregas a serem escoltadas – são postadas no grupo, seguidas de uma série de contatos entre números identificados com patentes militares (os nomes serão preservados, grifo nosso) e nomes de motoristas. Estes motoristas estão em uma listagem da empresa de entregas, a que o jornal também teve acesso. Os dados desta listagem – do dia 10 de março – coincidem totalmente com as mensagens postadas no grupo “DSC/28 BPM”.
“Aguardo ou desloco e me acompanharão até Califórnia, pois vou para Valença, fora da jurisdição?”, diz a mensagem de uma motorista que seria ligada à Souza Cruz. “Aguarda vtr (viatura) aí no Aterrado”, responde um policial. “Safo”, responde a motorista. Em outra troca de mensagens, um motorista pergunta: “Aguardando vtr (viatura) até a saída de Barra Mansa, que vou para Resende”. “Ok”, um policial responde.
A listagem da empresa tem um total de dez entregas, muitas delas partindo de Volta Redonda para outros municípios da região. Na troca de mensagens a que o aQui teve acesso, foram identificadas pelo menos sete entregas escoltadas por viaturas da Polícia Militar. Supostamente, todas ocorreram no dia 10 de março. A primeira entrega postada no grupo feita pelo veículo de placa com as iniciais QPM e final 75, fez o seguinte roteiro: 9 de Abril, Cajueiro, Boa Vista, Metalúrgico, Jardim Guanabara, Morada da Granja, São Sebastião, Mangueira, Paraíso, Ponte Alta. O motorista seria Leonardo, e o celular tinha código DDD 21, da região metropolitana do Rio de Janeiro. Os dados completos de todas as outras entregas estão disponíveis nas mensagens.
Resposta da PM
O aQui procurou o setor de Relações Públicas do 28o Batalhão da PM, que respondeu por meio de nota da assessoria de imprensa da secretaria de Estado da Polícia Militar. “A Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar informa que o 28º BPM (Volta Redonda) não atua fazendo escolta de cargas. O batalhão está aplicando baseamentos estratégicos em locais apontados pela mancha criminal para prevenir e coibir roubos de todo e qualquer tipo de carga nos municípios de sua área de policiamento. Além desta ação específica, o patrulhamento ostensivo segue atento nas ruas para reprimir tais crimes. Cabe mencionar ainda que a área do 28º BPM não registrou roubo de carga no mês de janeiro de 2021 segundo os dados compilados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP)”, diz a nota.
Vale lembrar que, por ordem superior, os comandantes dos diversos batalhões da Polícia Militar não podem dar entrevistas aos veículos de comunicação, como o aQui. Ou seja, não podem esclarecer o envolvimento ou não deles em qualquer denúncia levantada contra eles.

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