Andando de ré

Neto, confirmado no cargo, fala com exclusividade sobre a pandemia e diz que Samuca está sendo investigado até pela forma como divulgava números da Covid-19

Ontem, sexta, 12, logo cedo, depois de passar uma noite tranquila sem ter o fantasma de ter que deixar o Palácio 17 de Julho a assombrá-lo, o prefeito Antônio Francisco Neto deu uma entrevista exclusiva ao aQui sobre um assunto dos mais espinhosos. O de Volta Redonda ter contabilizado nos dois primeiros meses de 2021, proporcionalmente, mais mortes pela Covid do que no ano de 2020. Foram 288, contra 460. “O Brasil vive o seu pior momento”, desabafa, alegando que não se pode analisar isoladamente os números da Covid-19 na cidade do aço.
Na entrevista, Neto surpreendeu. Ao ser indagado sobre os motivos que levaram seu governo a não notificar os óbitos motivados pela pandemia, como Samuca fazia quase que diariamente, o prefeito contou que até isso estaria sendo investigado, dando a entender que os números não seriam reais. “Tivemos que atualizar os dados das mortes (pela Covid) que estavam represadas no sistema”, explicou, como que justificando a alta de óbitos durante os primeiros meses do seu governo.

aQui: Em janeiro e fevereiro, a cidade de Volta Redonda contabilizou 460 mortes pela Covid-19. Durante a gestão passada, foram 288 óbitos, o que corresponde a uma diferença de 172 casos fatais. Proporcionalmente, morreram mais pessoas com o senhor no governo desde o início da Covid. Como explicar isso à população?
Neto: Em primeiro lugar, toda nossa solidariedade, todo nosso respeito, toda nossa dedicação a todos que estão diante desta pandemia. Sobre a pergunta, as mortes confirmadas dentro de um mês não ocorreram por contaminação naquele mesmo mês. Isso é claro e já falamos muito disso em outras oportunidades. As pessoas ficam meses internadas.
Infelizmente, vemos uma explosão de casos em todo o país, que podem ser fruto ainda das festas de fim de ano e descuidos do Carnaval. No mais, não se isola Volta Redonda do restante do país e nem do estado do Rio. Não seria razoável analisar a situação de Volta Redonda isoladamente, pois não é um fenômeno local. O Brasil vive seu pior momento e estamos todos em busca do melhor.
Estamos apenas no meio do terceiro mês do governo, pegamos leitos sendo fechados (Hospital de Campanha, Hospital do Idoso, Santa Margarida nunca abrigou um leito desde que foi comprado). Assistimos a um recesso que entrou no meio de dezembro e a cidade ficou à deriva até quando assumimos. Sem transição. Encontramos salários sem serem pagos, fornecedores sem receber. Como se combate a pandemia nessa situação? A máquina não estava parada, conseguiram fazê-la andar de ré. Nem mesmo os dados da pandemia estavam sendo atualizados quando assumimos. Essa comparação entre governos não deve existir, ainda mais sem todas as variáveis serem analisadas. O que foi feito foi feito e já foi julgado pela população. Falamos de períodos, momentos diferentes da pandemia.

aQui: O senhor impôs o toque de recolher das 23 às 5 horas. Só que pelo Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde), o ideal seria das 20 às 6 horas. Por que adotou um horário alternativo?
Neto: Estamos fazendo tudo de acordo com orientações técnicas. A depender dos resultados, vamos poder tomar novas decisões. Tomaremos todas as medidas necessárias.

aQui: Muitos internautas dizem que o senhor teria feito acordo com os empresários para não impor medidas mais duras de controle da Covid-19. Isso é verdade? O que o senhor teria a dizer à população?
Neto: Tivemos protestos na prefeitura esta semana justamente pelas medidas mais duras. A fiscalização já fechou bares, igrejas, boates, centros espíritas, festas clandestinas e tudo que vemos de irregular. Na Internet tem de tudo. Somos gratos a todos que nos ajudam, mas o compromisso é com a população.

aQui: Por que a prefeitura parou de anunciar, como fazia Samuca, os números da Covid, limitando-se a atualizar os dados no site, no portal, que pouca gente acessa?
Neto: O modelo de divulgação do ex-prefeito está sob investigação da Justiça. Ele que se explique por ser acusado de usar a pandemia para se promover.
As pessoas devem se acostumar a pegar informações em fontes permanentes, que vão continuar depois que os prefeitos passarem. Como a pergunta mesmo atesta, as informações estão nas páginas da prefeitura, nas redes sociais, no site… Passamos tudo a todos os jornais, rádios e TVs todos os dias. O que não falta agora é transparência, lisura e correção.
Só para constar: nós estamos há apenas dois meses e meio no governo. Tivemos de atualizar os dados das mortes que estavam represadas no sistema e não foram atualizadas durante o absurdo recesso dado pelo governo passado. Recesso que foi dado assim que souberam da derrota eleitoral e do caos financeiro que deixariam.
Desde então, tivemos de correr para buscar abrir leitos (iniciamos isso antes de assumir), quitar salários dos profissionais, colocar a casa em ordem. Estamos recolocando tudo no lugar e na hora certa vamos poder falar mais diretamente com a população, com propriedade e sem oba-oba.

aQui: O senhor não acha que, ao parar de falar da Covid e bater na tecla de que a vacina pode ser a solução, o senhor acaba, indiretamente, levando as pessoas a pensar que está tudo bem, quando não está?
Neto: Ao falar da vacina estamos falando de Covid. Estamos com a Guarda Municipal nas ruas entregando máscaras, as redes sociais da prefeitura incentivam distanciamento social, álcool gel, uso de máscaras. Estamos em busca de mais leitos e equipamentos. A vacina é uma vertente da luta contra a Covid-19, mas estamos atuando em todas as áreas. Deixamos claro que a vacina pode ajudar, mas que as pessoas devem se cuidar. A fiscalização está nas ruas e toda estrutura do governo a serviço do combate à pandemia.

aQui: O senhor continua enviando voltarredondenses para o Hospital Regional mesmo tendo leitos vazios na cidade do aço? Por que isso?
Neto: A regulação é feita de forma técnica.

aQui: O Munir, seu irmão, já pegou a Covid, a Marcia Cury também, o Rafael, o Porreca; e o senhor é do grupo de risco. Mesmo assim, está mantendo reuniões diárias de trabalho, ou seja, não teme pegar a doença, não?
Neto: Todos temem, mas fomos eleitos para governar Volta Redonda. Sabíamos que, além de todo desastre financeiro deixado pelo governo passado, ainda teríamos a pandemia. Estamos fazendo o que a população espera.

aQui: De acordo com a Lei nº 5.769, o senhor vai poder aderir ao Consórcio Público de Municípios para aquisição de vacinas contra a Covid- 19 usando recursos federais ou recursos próprios. Quan-tas vacinas o senhor espera receber? E quanto o senhor espera investir dos cofres municipais para comprá-las?
Neto: Tudo isso está em análise e será anunciado quando for concreto.

aQui: E os novos leitos do Hospital do Retiro? O que falta para que eles sejam colocados em uso?
Neto: Estamos em busca de equipamentos. As obras estão praticamente prontas. Em breve, vamos conseguir inaugurar.

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