Deu bode

Suspeita de deixar animal esquartejado no Laranjal já foi ouvida pela polícia

Roberto Marinho

A mulher suspeita de deixar um bode esquartejado em frente a uma casa no Laranjal, na madrugada de sábado, 8, já foi identificada e ouvida na 93a Delegacia de Polícia de Volta Redonda. Ela seria parente da família a quem estaria ameaçando. O detalhe é que ela chegou a alegar que desconhecia o ocorrido, divulgado com exclusividade pelo aQui na edição passada e que viralizou nas redes sociais a partir da publicação. Aos policiais, ele teria dito que estava dormindo em sua casa quando tudo aconteceu. Questionada se poderia provar que estava em casa na madrugada de sábado, por meio das câmeras de segurança da sua própria residência, a suspeita disse que os equipamentos estavam inoperantes.
Ela confirmou, entretanto, que tem um carro do mesmo modelo e cor – além de outras características idênticas, como adesivos na parte traseira e detalhes como maçaneta e calotas – filmado pelas câmeras do bairro Laranjal quando entrava na contramão na rua onde mora a mulher que seria a vítima do ‘despacho macabro’. As imagens, inclusive, foram analisadas pela polícia e a placa do carro já teria sido identificada. Segundo uma fonte do aQui, a suspeita afirmou que aluga o veículo para motoristas de aplicativos, e que, no sábado, o carro estaria com um desses profissionais. Ela teria alegado ainda que não tinha o número do telefone do motorista que dirigia o seu veículo e dito que não teria como acessá-lo porque havia deixado o celular em casa, para carregar a bateria.
Confrontada com as imagens gravadas pelas câmeras de segurança, a suspeita, que estava acompanhada por um advogado, negou ser a pessoa que aparece nas gravações carregando o animal morto. Aos policiais, teria declarado que não há qualquer disputa familiar – como herança, por exemplo – entre ela e a vítima, mas teria adiantado que as duas não se falam desde 2018, após um desentendimento, e que não vai à casa da vítima, no Laranjal, desde essa discussão.
A vítima do ‘despacho macabro’ também prestou depoimento, e afirmou que não teria desavenças com ninguém, a não ser com a suspeita. E disse que teria entendido o ocorrido como “uma grave ameaça” à sua pessoa, tanto que teria feito uma representação judicial contra a suspeita, por ameaça e maus-tratos a animais. “Ela está com medo de sair de casa”, disparou a fonte, explicando que a moradora do Laranjal pediu uma medida protetiva contra a suspeita, que está proibida de entrar em contato com a vítima, com os familiares dela, ou testemunhas do caso, por qualquer meio, além de ter que manter distância mínima de 500 metros deles. A suspeita também está proibida de frequentar a casa ou local de trabalho da vítima, e ainda o Clube do Laranjal, do qual toda a família é sócia.
Na porta de casa
O aQui ouviu um familiar das vítimas, que pediu para não ser identificado. Ele relatou que amigos do filho da mulher a quem o “recado” seria endereçado acharam o animal, na madrugada de sábado. Inicialmente, pensaram que se tratava de um cachorro, o que foi desmentido mais tarde, pois o animal era um bode – sem a cabeça e as patas. “O filho dela tinha recebido alguns amigos, e um deles foi embora por volta de 5 horas da madrugada de sábado. Quando saiu da casa, ele deu de cara com o animal morto, deixado em frente ao portão. Ele avisou o amigo, que foi acordar a mãe, que estava dormindo. Ela ficou chocada”, contou.
Segundo ele, nas filmagens é possível perceber que a suspeita chegou a fazer uma primeira tentativa de depositar o animal em frente à casa da família no Laranjal. “Nesse momento, ela viu que tinha uma pessoa na porta. Com medo, ela saiu correndo de volta para o carro, carregando o bicho morto. Deu mais uma volta no quarteirão e depois retornou para deixar o animal na porta da casa”, relatou.
Ele e a fonte garantem que as vítimas encaram o ocorrido como uma ameaça direta, e não como um episódio de magia negativa. “Ela (a suspeita) sempre teve um comportamento problemático. Não sabemos se ela tem algum envolvimento com esse tipo de coisa (magia negativa, grifo nosso), mas não estranharia se tivesse, pelo perfil que ela tem”, pontuou, salientando que a acusada pode ser indiciada por ameaça e por maus tratos a animais.
Nota da SPA
A Sociedade Protetora dos Animais de Volta Redonda (SPA-VR) chegou a fazer uma publicação nas redes sociais, onde afirma que o caso do animal mutilado no Laranjal não pode ser denunciado porque o STF (Supremo Tribunal Federal) “decidiu que sacrifício de animais em cultos religiosos é constitucional”. Voluntários da organização foram os responsáveis por recolher e enterrar o bode deixado morto nas ruas do Laranjal.
Na verdade, a permissão dada pelo STF salienta que não deve haver excessos ou crueldade no sacrifício de animais em cultos. Mais ainda: praticantes de religiões que fazem sacrifício ritual de animais ouvidos pelo aQui garantem que o que houve no Laranjal não tem nada a ver com um culto religioso.
“Desde o animal que vai ser abatido, até a pessoa que vai realizar o abate – e é minuciosamente preparada só para esta função – tudo segue um ritual. E nós abatemos o animal também com o intuito de alimentação. Só é oferecido às divindades o que nós não comemos: couro ou pele, sangue e vísceras. E isso sempre é feito em meio à natureza, nunca no meio da cidade. Procuramos um local isolado, com vegetação, cursos d’água, e pouca circulação de pessoas. Até para ter um ambiente tranquilo, porque é um ritual religioso”, explicou o babalorixá Fabrício de Xangô, sacerdote de candomblé há mais de 20 anos, em entrevista publicada pelo aQui na última edição. “As divindades não desejam mal a ninguém. Independente da religião, o mal, a inveja, a ganância, são sentimentos próprios de seres encarnados, dos seres humanos. A religião não tem nada a ver com isso”, completou o sacerdote.

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