Velha (nova) luta

Enquanto boa parte dos políticos de Volta Redonda se digladiam dentro e fora de seus partidos para saber quem será o candidato (tem até casos de deslealdade e rasteiras), o Psol já bateu o martelo. Pretende lançar um furacão na figura de uma professora cheia de charme.

Por Vinicius de Oliveira

Enquanto boa parte dos políticos de Volta Redonda se digladiam dentro e fora de seus partidos para saber quem será o candidato (tem até casos de deslealdade e rasteiras), o Psol já bateu o martelo. Pretende lançar um furacão na figura de uma professora cheia de charme. Não! Não é a Maria das Dores Motta, a lendária Dodora, cuja imagem normalmente é evocada pelos eleitores sempre que o solzinho do partido é mencionado. Desta vez a eterna dirigente do Sepe trabalhará apenas nos bastidores. Quem vem pela sigla é Juliana Carvalho, professora estadual de História.

 

Os que a encontram pela primeira vez podem até se confundir, considerando-a frágil demais para o cargo mais alto do Executivo, ou se perder diante de sua beleza, do tom de voz praticamente inalterável e sua gentileza incomum. Mas quem se deixar levar pelas aparências pode se arrepender amargamente. Juliana é uma potência intelectual e não abaixa a cabeça para nenhum marmanjo. Mas levar o nome de um partido que representa um dos símbolos da atual polarização política que se encontra o Brasil, sem uma nominata forte de vereadores, não será tarefa fácil.

 

Em Volta Redonda, historicamente, o Psol, desde que foi criado na cidade do aço, nunca figurou entre os mais votados nas eleições municipais. Nunca elegeu um único vereador. Mas, desta vez, a história pode ser diferente. O partido socialista comemora uma franca ascensão de popularidade, principalmente no Rio de Janeiro, pois, além de suas pautas debatidas ao longo dos anos que ganharam fama por incluir as minorias outrora inviabilizadas, os psolistas representam o inimigo encarnado do bolsonarismo (só perdem para o Lula nesse quesito, grifo nosso).

 

Mas com essa vantagem, Juliana não poderá contar cegamente. Embora Volta Redonda seja uma cidade operária, o destino guiou os voltarredondenses para veredas mais conservadoras e menos progressistas. Nas eleições presidenciais, por exemplo, o município presenteou Jair Bolsonaro com nada menos do que 100.256 votos contra 56.080 de Fernando Haddad, apoiado no segundo turno pelo Psol. Além disso, não há atualmente qualquer representante da esquerda na Câmara para dar sustentação à pré-candidatura de Juliana.

 

Cida Diogo, pré-candidata do PT, bem que tentou costurar uma parceria com Juliana, mas exigiu que o Psol fosse, no máximo, vice em sua chapa. Os psolistas descartaram a ideia, já que a sumida Cida não tem muito a oferecer. Entretanto, Juliana garante que nem por isso estão sozinhos. “Desde 2019 há um esforço para formular mecanismos de debate e construção conjuntos, a realidade pandêmica de 2020 interrompeu a retomada dessa iniciativa e cada partido fez seu debate interno, que culminou na apresentação de cada quadro. Assim como aqui, no Rio o Psol lançou a pré-candidatura própria da Renata Souza. O Psol atua efetivamente em conjunto, não só com outros partidos, mas com movimentos, coletivos, sindicatos e uma gama de atores sociais em iniciativas que intervenham na realidade das pessoas; vamos continuar agindo assim”, explicou.

 

Juliana fez questão de frisar que é política interna do partido lançar candidatura própria a fim de garantir para os progressistas e os radicais da esquerda uma opção além do que está posto pelo establishment. “É imperioso que o Psol apresente outro prisma programático para disputar e capaz de ampliar ainda mais o debate nesse momento eleitoral. Vale registrar que, mesmo com a retirada (da candidatura) de Freixo, o Psol lançará Renata Souza no Rio de Janeiro”, disse.

 

Sobre a dificuldade de eleger vereadores pelo Psol, Juliana afirmou que os outros partidos saem vencedores por serem adeptos do famoso ‘toma lá, dá cá’. “Se trata de um enraizamento na sociedade voltarredondense. O Psol, pouco a pouco, se constrói na cidade com sangue novo, buscando fazer política de forma coletiva. Em uma cidade em que o desemprego cresce, os candidatos tradicionais aproveitam para fazer promessas e trocar favores para angariar votos. Defendemos que, no período de pré-campanha e de campanha eleitoral, é preciso deixar claro o projeto de uma cidade de direitos prioritariamente para os setores mais explorados e mais vulneráveis, ou seja, mulheres, negros/as e LGBTs, levando em conta as crianças, os jovens, os idosos e os desempregados”, pontua.

 

Durante a campanha, Juliana não pretende dar refresco para o prefeito Samuca Silva, pré-candidato à reeleição, a quem se coloca frontalmente como oposição. “O governo Samuca, como todos os outros, prometeu e não cumpriu, com o agravante que teve o slogan de campanha ‘Dinheiro tem, falta gestão!’. Não falta dinheiro para seus apoiadores e falta gestão para os serviços públicos, especialmente para moradia, com o desmantelamento do Furban; para a educação, com o assédio moral no uso de uma plataforma disfuncional e cara para o ensino remoto; falta gestão para a saúde, com a entrega do Hospital São João Batista e do Hospital do Retiro para uma Organização Social. Isso só para citar 3 setores básicos no serviço público”, criticou a pré-candidata do Psol.

 

Para Juliana, a ideia vendida por candidatos que condenavam os políticos de carreira afirmando que o futuro do país estava na gestão eficiente, assim como se faz em empresas, caiu por terra e não convence mais ninguém. “A onda outsider pega pelo atual prefeito e a ideia do político técnico/profissional é finalmente desmascarada. É importante que a população voltarredondense compreenda que não há como eleger representantes neutros. Nossos prefeitos sempre representam os interesses dos grupos dos quais que são oriundos. Por esses e por outros motivos, nós do Psol não realizamos campanha com o rabo preso. Colocamos as cartas na mesa e mostramos para a população como nós entendemos a realidade e como pretendemos modificá-la para o alcance de um mundo melhor”, filosofou.

 

E como não poderia deixar de ser, a professora de História, de cachos impecáveis e que assume orgulhosamente sua religiosidade de matriz africana, também lembra das minorias. “Volta Redonda foi uma cidade, embora machista, em que a luta de classe esteve na ordem do dia. Queremos recuperar essa história, lembrando o protagonismo da maioria negra, a construção da CSN, e a participação das mulheres nas lutas da cidade se organizando em associações de moradores, clubes de mães, etc, de forma autônoma. A partir dessa história, queremos debater machismo, racismo religioso e ambiental, defender a liberdade religiosa, propor medidas contra o feminicídio, contra o genocídio da juventude negra e contra a LGBTfobia. Enfim, construir com o povo uma cidade de direito”, finalizou.

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