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Maioria dos médicos nomeados pelo governador do estado defende tratamento precoce

Pollyanna Xavier

O governador em exercício, Cláudio Castro, surpreendeu meio mundo ao anunciar a criação de um comitê científico estadual, formado por 10 médicos, para atuar como uma espécie de fiscais do SUS, cabendo a eles monitorar e avaliar o desempenho dos serviços de saúde enquanto durar a pandemia, ou enquanto existir o comitê. O grupo é liderado por uma figura polêmica em Volta Redonda: Edmilson Migowski – o mesmo que convenceu o à época prefeito Samuca Silva que a nitazoxanida – um remédio para verme – seria eficaz contra a Covid e vendeu, em nome da UFRJ, um convênio duvidoso para o Palácio 17 de Julho.
A nomeação de Migowski como presidente do comitê deu o que falar. O professor e outros seis médicos, que integram o grupo, defendem o trata-mento precoce contra a Covid e a prescrição de remédios que muitos entendem não ter comprovação científica no tratamento da doença. O próprio secretário estadual de Saúde, Carlos Alberto Chaves, declarou que não teria sido consultado sobre a criação do comitê. O que foi desmentido por Claudio Castro.
“É importante esclarecer que o secretário estadual de Saúde, Carlos Alberto Chaves, sempre teve conhecimento da criação do comitê, o qual está dentro da estratégica de enfrentamento à Covid-19”, disse, deixando claro que o comitê não estaria subordinado à pasta. Ou ao secretário.
Relembrando
No ano passado, o presidente do hoje comitê estadual de enfrentamento à Covid-19 vendeu a ideia ao ex-prefeito Samuca Silva, através de um convênio pra lá de duvidoso. Na época, Samuca comprou grande quantidade do Annita e passou a distribuir aos pacientes infectados. Para ter acesso ao vermífugo, o paciente era obrigado a assinar um Termo de Responsabilidade pelo Uso do fármaco e aceitava ser monitorado pela equipe de Migowski. Uma espécie de ensaio de cobaias.
O aQui chegou a entrevistar Edmilson Migowski em julho de 2020, quando o médico assinou o ‘convênio’ com Samuca. “Não é um estudo, é uma nova conduta adotada por estudiosos no assunto. Em relação à medicação, eu já fiz em mais de 300 pacientes na fase inicial, tem vários lugares que esse produto vem sendo utilizado com redução da morbidade e de mortes. As pessoas serão convidadas a assinar um termo para participar do tratamento, já que é um tratamento off-label e, se porventura, os pacientes não quiserem tomar o medicamento, não toma. Ninguém vai ser obrigado”, disse com exclusividade ao jornal.
Embora tenha tentado explicar o inexplicável, Migowski fugiu de muitas perguntas, e detalhes do convênio ficaram em sigilo até a posse do prefeito Neto. O silêncio levou o aQui a contatar a própria UFRJ, já que o médico usava o nome da instituição em suas apresentações. Para surpresa do jornal, a universidade negou qualquer parceria com Migowski. “Temos assistido a posicionamentos pessoais de profissionais ligados à UFRJ ou mesmo indicando o uso de medicamentos sem comprovação científica, o que não deve ser considerado, em hipótese nenhuma, um posicionamento oficial da Universidade”, avisou.
Em nota oficial enviada ao aQui em julho de 2020 e publicada em seu site, a UFRJ esclareceu que “posicionamentos da universidade sobre a Covid-19 são emitidos somente pelos grupos de trabalho nomeados pela reitoria”, e o nome do professor Edimilson Migowski não constava nestes grupos. Mais tarde, descobriu-se que os estudos do médico eram, na verdade, financiados pela Coppe – um centro de pós-graduação e pesquisa de engenharia da própria UFRJ, que vende consultoria em cima das pesquisas realizadas. E que a prefeitura de Volta Redonda comprou uma dessas consultorias ao aceitar o uso da nitazoxanida em pacientes com Covid.
Em janeiro, a nova secretária de Saúde de Volta Redonda, Conceição Souza, mandou suspender o pagamento do convênio e anunciou o seu cancelamento. “O convênio foi considerado fora dos padrões exigidos pela medicina, por não ter comprovação científica de que o uso do remédio é eficaz contra a Covid-19”, justificou. Descobriu-se, a partir daí, que o valor contratado chegava a quase R$ 500 mil e o serviço não previa a distribuição e o uso do Annita. E sim serviços como a Telemedicina – para suprir a deficiência de assistência médica e pediátrica e de clínica médica nas unidades de saúde.
Com as irregularidades expostas, a Procuradoria Geral do Município chegou a instaurar um processo administrativo para suspender oficialmente o pagamento do convênio. A PGM também teria entregado cópias do contrato ao Ministério Público para abertura de um inquérito para investigar o uso irregular das verbas públicas durante a pandemia, no governo Samuca. Curiosamente, essa também é a atribuição do Comitê Técnico criado pelo governador Claudio Castro no início da semana: investigar as ações de saúde no âmbito do SUS em todo o estado. Que interessante, não?
Nota da redação
O aQui tentou falar com o médico Edmilson Migowski, enviando um pedido de entrevista ao seu whatsapp. Mas, até o fechamento desta edição, não houve resposta.

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