Vai depender do ‘doutor’

Os prefeitos Neto, Rodrigo Drable e Ednardo Barbosa decidiram prorrogar as medidas restritivas em vigor contra a Covid-19 até o próximo domingo, 11. Em Volta Redonda, a novidade é que as já a partir de amanhã, segunda, 5, as escolas, que estavam funcionando antes do ‘feriadão da Páscoa’, poderão retornar com as aulas presenciais.

Por Roberto Marinho e Luiz Vieira

Enquanto o número de mortes pela Covid-19 vai batendo sucessivos recordes – nesta semana o país chegou a registrar 4 mil óbitos por dia –, o presidente Jair Bolsonaro, os governadores, prefeitos, Ministério Público, Defensoria Pública e a Justiça travam um embate sobre quais são as melhores medidas a tomar. Nos bastidores, brigam pelo poder. “Chegamos ao cúmulo do absurdo de ver o Ministério Público exigir que um prefeito assine um decreto para restringir as atividades do comércio. Ele (MP) não tem esse poder”, pontua uma fonte do aQui, que pede que seu nome não seja revelado.
Ela pode ter razão, afinal, o próprio Supremo Tribunal Federal no início da pandemia já tinha deliberado que os prefeitos teriam autonomia no combate à Covid-19. O que o MP não acata, tanto que pediu à Justiça que obrigue o prefeito Rodrigo Drable a assinar um novo decreto, determinando o fechamento total das atividades não essenciais em Barra Mansa. O mesmo foi feito em relação a Volta Redonda. Só que Neto e Drable, até quinta, 1, data do fechamento desta edição, ainda não tinham sido intimados a acatarem ou contestarem os pedidos do MP das duas cidades. O que só deve ocorrer após o ‘feriadão da Páscoa’.
Segundo fontes, tanto Neto quanto Drable não estariam dispostos a acatar os pedidos do MP. Muito pelo contrário. “Não resolve nada”, disparou o prefeito de Barra Mansa, que vai além. Entende que fechar o comércio, como quer o MP, vai piorar a situação em Barra Mansa. “Se tudo estiver fechado, nos bairros vai aumentar a aglomeração de pessoas que não terão o que fazer”, justifica.
Neto também deixou claro que não vai mandar fechar tudo. “Nós respeitamos aqueles que têm essa opinião de fechar tudo. É um direito de cada um. O conselho de Saúde nos fez esse pedido. Mas eu disse que eu não ia fazer, porque eu não achava justo. Eu tenho ido aos shoppings, tenho fiscalizado os supermercados, o comércio. E eles têm seguido (regras). A maioria dos restaurantes, dos bares, têm seguido rigorosamente nosso decreto”, explicou.
Tem mais. “Se você andar depois das 17 horas em Volta Redonda, você vai ver que as pessoas estão respeitando e muito, muito, nosso decreto. Nós não podemos (fechar tudo, grifo nosso)”.
Na manhã de quinta, 1, uma notícia foi comentada entre eles e, certamente, será usada. É que o Tribunal Regional Federal da 1a Região (TRF1) suspendeu uma liminar da 3a Vara Federal Cível do Distrito Federal que determinava o restabelecimento das medidas restritivas em Brasília a partir de quinta, 1. Na decisão, a desembargadora ngela Catão disse que o lockdown tem provocado danos à economia da capital. A magistrada sustenta, ainda, que não cabe aos tribunais elencar quais medidas serão adotadas no combate à Covid-19, mas ao Executivo (prefeitos).

Fracasso
Na briga pelo poder das autoridades constituídas, fica claro que a vacinação é a única medida considerada por elas eficaz contra o coronavírus. Só que, na maioria das cidades, as vacinas estão sendo aplicadas a passos de cágados. E a busca por um milagre passou a ser manter o povo em casa para tentar evitar o colapso das redes hospitalares. Para isso, vale tudo, até decretar um superferiado, o da Páscoa, que começou em 26 de março e termina amanhã, domingo, 4, como fez o governador do Estado do Rio, Cláudio Castro.
O feriadão da Páscoa – que não foi acatado nem pelo próprio governador fluminense, que promoveu uma festa pelo seu aniversário de 42 anos – afetou principalmente os bares e restaurantes de Volta Redonda e Barra Mansa, sem contar as escolas – solenemente ignoradas pelos políticos. Amanhã, domingo de Páscoa, os donos de restaurantes tentarão faturar o suficiente com o tradicional almoço de Páscoa para evitar uma quebradeira geral, em virtude de estarem proibidos de abrir depois das 17 horas. Se a regra for renovada ou piorada, como quer o MP, ninguém sabe o que acontecerá a partir de segunda. 5.
O feriadão pode até ter diminuído um pouco o número de pessoas circulando nas ruas, mas não trouxe o efeito desejado. Pior. Causou uma verdadeira guerra nas redes sociais e um jogo de gato e rato nas ruas, com frequentadores de igrejas e bares tentando burlar a fiscalização das prefeituras. Nas redes sociais, os prefeitos de Volta Redonda, Antônio Francisco Neto, e Barra Mansa, Rodrigo Drable, apanharam de todo mundo: de quem era contra o “feriado forçado” e qualquer restrição; de quem era a favor do feriado, mas contra as restrições, e ainda daqueles que achavam que tudo deveria ser fechado, com feriado ou não. Outros criticaram as prefeituras por pegarem ‘leve demais’ com alguns setores, como o das academias e igrejas.
Neto, Drable e ainda o prefeito de Pinheiral, Ednardo Barbosa, bem que tentaram falar a mesma língua. Combi-naram, por exemplo, que o comércio iria funcionar apenas das 10 às 17 horas, durante a semana, e das 9 às 13 horas, aos sábados e domingos. Os bares, restaurantes e similares funcionaram durante a semana das 10 às 17 horas; hoje, sábado, 3, e amanhã, domingo, 4, poderão abrir do meio-dia às 16 horas.
Ao mesmo tempo, academias e similares funcionaram de segunda a sábado, das 6 às 17 horas. Já as escolas ficaram fechadas e as igrejas funcionaram, com restrições, mas a todo vapor. Tanto é que uma delas, na Voldac, em Volta Redonda, foi fechada pela fiscalização, depois que os fiscais da prefeitura encontraram cerca de 300 pessoas participando de um evento jovem, sendo que a maioria estava sem máscara. O local foi interditado por 15 dias, e os responsáveis terão que pagar uma multa de mais de R$ 5,9 mil. Só que a igreja ganhou um aliado, o vereador Betinho Albertassi, evangélico, que soltou cobras e lagartos contra a prefeitura por ter interditado a IPV da Voldac. Irado, o parlamentar defendeu até a Assembleia de Deus do Laranjal, outra igreja evangélica, que chegou a ser interditada e multada.
Sem colaboração
O fato é que com as medidas restritivas, Drable e Neto apanharam a torto e a direito, com ganchos, diretos e cruzados. Mas não deixaram por menos. Tanto Neto quanto Drable foram às redes sociais e criticaram duramente a falta de colaboração da população, que lotou todo e qualquer lugar disponível onde poderia se divertir, fazer compras com a família a tiracolo, encontrar os amigos para tomar uma gelada ou fazer um churrascão com a galera. Enfim, viver como se a pandemia não existisse e não estivesse matando aos montes, inclusive aqui na região.
Mas eles estão enganados. Para se ter uma ideia, até o final de março, Volta Redonda teve 57.882 casos de Covid notificados, sendo que 22.644 foram confirmados. O número de mortes em março chegou a 98, quase 3 por dia. Desde o início da pandemia, 558 volta-redondenses já morreram devido à Covid.
Em Barra Mansa, onde a população é menor, os números também são significativos. Foram 47.762 casos registrados, sendo que 11.310 foram confirmados, com 316 óbitos até 31 de março.
A rede hospitalar, claro, sente o golpe. De acordo com dados disponíveis no site da secretaria estadual de Saúde, no sábado, 27, Volta Redonda registrava uma ocupação de 107% dos leitos de enfermaria para Covid-19. Ou seja, o município teve que contratar leitos na rede privada para suprir a demanda de pacientes: eram 86 vagas de enfermaria disponíveis para tratamento da Covid-19, mas havia 92 pacientes internados. Nas UTIs, a situação era menos crítica, mas também assustava: a lotação era de 79%, com 150 dos 191 leitos de UTI disponíveis ocupados. Em Barra Mansa, a ocupação de leitos para pacientes de Covid-19 chegou a 76% no caso das enfermarias e 92% nas UTIs. Depois, caiu para 66% e 81%, respectivamente
Para piorar a situação, o Hospital Regional, referência na região para atendimento dos casos de Covid-19, ficou completamente lotado. Teve que utilizar as camas dos médicos para atender pacientes. Pior. Alguns foram atendidos no chão mesmo. Por isso, os prefeitos dos 12 municípios que integram o Cismepa (Consórcio Intermunicipal de Saúde do Médio Paraíba) apelaram ao governador Cláudio Castro – com quem tiveram uma reunião virtual – para que este destinasse mais vagas para os pacientes da região no HR. E que abrisse 50 novos leitos.
A crítica situação e as doses homeopáticas de restrição, permitindo a abertura das lojas, não mudou muito o dia a dia de quem estava disposto a curtir o “feriadão”. Resultado: muita gente programou festas em família, churrasco com os amigos ou até arriscou um passeio a alguma cidade turística, mesmo correndo o risco de ser barrado ainda na entrada. Foi o que bastou para que os prefeitos fossem para as redes sociais descascar os abusados. Neto afirmou que estava “decepcionado” com as pessoas que não conseguiam cumprir o isolamento social.
“Igrejas e bares descumprindo as normas; praças lotadas de gente bebendo; festas e aglomerações. Isso são alguns dos casos que chegaram”, relatou Neto em uma postagem, afirmando ainda que estava fazendo “o possível e o impossível” para tentar amenizar a situação. Em uma transmissão ao vivo, na noite de domingo, 29, ao lado de Neto, Rodrigo Drable adotou a mesma tática. “Estamos vendo as praças fechadas e as pessoas se aglomerando em volta! Isso nos dá um recado de que não adianta fechar tudo, porque o resultado não vai ser efetivo. Também não adianta ficarmos de braços cruzados vendo os casos aumentando, a capacidade de atendimento hospitalar diminuindo sem falar nada”, disse ele, resumindo o drama.
Agora, tanto Neto quanto Drable correm contra o tempo para tentar abrir mais leitos de UTI e enfermaria – o que os dois já anunciaram que conseguirão fazer –, comprar kits de medicamentos para intubação, e tentar acelerar a vacinação. Tudo para evitar o caos total na rede pública de saúde. E, lógico, não serem obrigados a assinar um novo decreto mais duro, fechando tudo, como quer o MP.
Castrofolia
O pior exemplo até hoje de alguém flagrado não cumprindo as regras de isolamento social partiu, vejam só, do governador em exercício, Cláudio Castro. No sábado, já com o decreto do feriadão da Páscoa em vigor, ele reuniu vários amigos em uma casa alugada no distrito de Itaipava, em Petrópolis, para comemorar seu aniversário de 42 anos.
Segundo informações divulgadas pela imprensa da capital, pelo menos 12 carros foram fotografados na rua em frente à residência utilizada pelo governador. Depois que percebeu que a festa fora flagrada, Castro teria pedido aos convidados que parassem os carros dentro da casa. Mas não teve jeito, a aglomeração virou destaque do noticiário – ganhando até o apelido de Castrofolia – e o envergonhado Castro teve que ir a público pedir desculpas pelo ocorrido. “Foi um almoço com os meus familiares, pessoas que já convivem comigo diariamente. Realmente, alguns amigos acabaram aparecendo”, disse o governador em um vídeo divulgado nas redes sociais, onde reconheceu o erro. Tá bom!

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