‘Morte morrida’

Biólogo contesta corte de árvore centenária no Laranjal

Vinicius de Oliveira

O poeta Carlos Drummond de Andrade certamente se reviraria no túmulo se pudesse ler essas linhas. Mas é que, segundo moradores do Laranjal, reduto chique da cidade do aço, havia uma árvore no meio do caminho de um próspero morador, novo no local. E não é uma árvore qualquer. É uma espécie centenária, que assiste à evolução do bairro há décadas e agora está ameaçada de extinção graças, supostamente, ao desejo de expansão de um feliz volta-redondense. Detalhe: com anuência do poder público.
Para quem não se lembra, o caso saiu na edição passada através de uma fotolegenda. A publicação repercutiu e a secretaria de Meio Ambiente garantiu que a poda foi autorizada pelo fato de a árvore estar condenada, tomada por cupins. Mas, indignados, os moradores desmentiram a informação do órgão ambiental. “Temos fotos que mostram que a árvore está saudável. A autorização partiu de uma pessoa da PMVR sem conhecimento técnico. Um biólogo comprova, e temos fotos e vídeos dos galhos e tronco em perfeita condição. Uma inverdade, crime ambiental contra uma árvore centenária. A PMVR está se servindo de uma falsa justificativa, alegando que tem cupins. Nosso órgão público que deveria preservar o meio ambiente contribui com a inverdade absurda”, rebateu uma moradora do Laranjal via e-mail.
Ainda de acordo com a senhora, um grupo de moradores saiu em defesa da árvore e tentou, de todas as maneiras, garantir que ela não fosse cortada. Mas, segundo ela, a prefeitura nem os atendeu. “Tentamos a semana inteira contato para a suspensão da autorização, e sem sucesso. Estranhamente, funcionários da PMVR vieram hoje para retirar os galhos neste terreno privado. Denota-se que estamos em feriado e contato em órgão público fora possível, mas este trabalho na propriedade privada fora autorizado pela PMVR. A autorização não foi para uso de motosserra, algo que eles usaram”, contou, afirmando ainda que chegara a acionar as autoridades competentes para impedir a derrubada da árvore. “A Polícia Ambiental veio aqui e apreendeu as motosserras na sexta-feira; e na terça-feira, ontem, arrumaram outra motosserra e derrubaram mais troncos da árvore porque era imensa. Desrespeitam e infringem lei ambiental, e a PMVR permite e autoriza tamanha crueldade com a árvore”, completou.
O biólogo Augusto Silva, que também mora próximo à casa onde a árvore está sendo cortada, confirmou a história da moradora. Foi ele, inclusive, quem denunciou que o pedido para cortar a árvore teria partido de um novo morador (não identificado) que pretende expandir a casa que comprou e, segundo o biólogo, a planta gigante e centenária atrapalharia suas pretensões. Tem mais. Uma outra árvore de porte parecido já foi derrubada. “A verdade é que o novo proprietário, segundo fui informado pelas pessoas contratadas para o corte das árvores, iria colocar a casa abaixo e construiria uma [outra casa] cuja área invadiria o local onde estavam estas árvores. Acredito que o proprietário conseguiu a licença através de amizades. Pois não havia por que derrubá-las, pois as mesmas estavam supersadias”, denunciou.
“Nasci no Laranjal e estas árvores já estavam ali. Era vizinho delas e acompanhava a floração todo ano. Ficavam de frente para minha casa. Sabiás, canários, bem-te-vis, saguis, tucanos, etc, frequentavam-nas diariamente. Era uma cantoria linda. As pessoas paravam para fotografá-las. Eu, como outros moradores, admiravam-nas e zelávamos por elas. Até que no apagar das luzes do governo Samuca foi conseguido de forma muito ‘estranha’ uma licença para derrubá-las sem justificativa alguma. Como biólogo, me dirigi imediatamente ao órgão que expediu a licença e procurei o biólogo responsável. Fui atendido por uma secretária, que levou o assunto ao seu chefe. Este recusou-se a me receber e escafedeu-se até terminar seu mandato. Qual a verdade nisto tudo?”, questionou Au-gusto, reafirmando que a árvore estava em perfeitas condições. “Tirei fotos e produzi laudo. Acredito que o proprietário tentou derrubar essa segunda árvore ainda no governo Samuca e o biólogo responsável recusou-se a emitir outra licença pois percebeu que cometeu um erro”, disse.
Na avaliação do biólogo, o proprietário em questão esperou a volta do prefeito Neto para garantir a expansão de sua propriedade. “Ele (o proprietário) deve ter apresentado a antiga licença e convencido o novo secretário de que havia uma árvore com ‘cupins’. Reafirmo que são conjecturas e não afirmações, pois nenhum biólogo vendo aquelas árvores jamais emitiria licença para derrubá-las, pois as mesmas encontravam-se com excelente saúde. A primeira não houve justificativa e, para a segunda, apresentaram a alegação que estaria infestada de cupins, uma inverdade. Elas eram sim um presente para os olhos, pois nos alegravam com sua beleza. Temo que a verdade possa ser bem pior, mas fico com estas conjecturas mais brandas”, reclamou Augusto.

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