Triste realidade

Dossiê Mulher 2020 detalha perfil das vítimas da violência em Volta Redonda

Roberto Marinho

Quem acompanha o aQui ainda deve se lembrar que na edição passada – no 1240 – o jornal mostrou que os índices de praticamente todos os crimes na cidade do aço tiveram uma queda acentuada no início de 2021. Os números oficiais, fornecidos pelo ISP-RJ (Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro), só foram ruins em um quesito: os casos de estupro, que dobraram na comparação entre janeiro de 2020 e igual período de 2021. No ano passado, em janeiro, Volta Redonda registrou três vítimas de violência sexual. Já neste ano, foram seis vítimas.
A triste realidade, às vésperas de mais um Dia das Mulheres, a ser comemorado na segunda, 8 de março, mostra que combater a violência contra a mulher deve ser uma tarefa constante da sociedade, e não em apenas uma data. Deve envolver autoridades públicas de segurança e assistência social, escolas e comunidades. Uma das medidas é justamente divulgar o número de crimes cometidos contra as mulheres para mostrar à sociedade o tamanho do problema. Este é um dos objetivos do Dossiê Mulher 2020, publicado pelo ISP-RJ, no final do mês passado e que traça um panorama da violência contra o público feminino no estado do Rio, utilizando os dados de 2019.
O levantamento permite obter informações específicas sobre a violência contra a mulher em Volta Redonda. Embora os números sejam de 2019 – antes da famigerada Covid-19 e sem a influência do isolamento social –, eles mostram com bastante precisão detalhes que não mudam muito, como o local onde os crimes mais ocorrem e a idade das vítimas. O dossiê aponta, por exemplo, que pelo menos 1.702 mulheres foram vítimas de violência em Volta Redonda no ano de 2019. Corresponde a mais de quatro agressões por dia. A maioria foi vítima de violência psicológica (32,5%), com ameaças. Foram, vejam só, 547 casos, ou seja, quase 1,5 casos por dia.
Mas a violência física também tem um percentual muito grande de vítimas, representando 30,8% do total de registros, com 497 mulheres sofrendo espancamento (lesão corporal dolosa). A maioria por socos, tapas e pontapés (38,6%), e algumas por pedradas ou pauladas (1,8%) ou arma de fogo (1,4%). Mas houve também 15 tentativas de homicídio, nove homicídios dolosos, além de duas tentativas e dois feminicídios consumados. As mulheres de Volta Redonda passam ainda por casos de violência moral – um total de 479 vítimas (28,1% do total) –, com crimes que incluem calúnia, difamação, injúria e divulgação de cenas de sexo, estupro ou pornografia, envolvendo ou não vulneráveis.
O Dossiê Mulher 2020 mostra também que o lugar mais perigoso para uma mulher em Volta Redonda no ano de 2019 foi o seu próprio lar. Nada de “lar, doce lar”. Tanto que mais da metade (56,8%) dos episódios de violência foram dentro das residências das vítimas. Tem mais. As mulheres continuam não tendo paz nem nas ruas – onde acontecem cerca de 20% das agressões – e nem mesmo no ambiente virtual, que responde por 4,5% das ocorrências. E os agressores, na sua maioria (44,3%) foram os companheiros ou ex-companheiros das vítimas, seguidos por parentes (6,6%), conhecidos (5,6%), pais ou padrastos (1,5%). Ou seja, na maioria dos casos, o agressor é alguém próximo, ou convive parte do tempo com a vítima. Em 21,4% dos casos, não havia relação alguma entre agressor e vítimas.
E qual o perfil da maioria das vítimas? As mulheres brancas predominam, com 54,9%, tendo de 30 a 59 anos (56%), com ensino médio completo (36,5%), e solteiras (47,6%). Mas as mulheres casadas ou que moram com alguém também representam uma parcela importante das vítimas, com 35,5% do total de casos.
Estupros
O Dossiê Mulher 2020 mostrou ainda o perfil das vítimas de estupro em Volta Redonda no ano passado, quando foram registrados 43 casos. E, mais uma vez, os números mostram que culpar as vítimas nunca é o caminho certo. Basta olhar a idade delas: a maioria (72,1%) tinha entre um ano incompleto e 17 anos. Desse total, 46,5% tinham entre 12 e 17 anos – maior percentual de vítimas – e 25,6% tinham entre 0 e 11 anos. Ou seja, crianças. Crianças estupradas. Outros 14% das vítimas tinham entre 18 e 29 anos, e 11,6% tinham entre 30 e 59 anos. E apenas 2,3% das vítimas tinham mais de 60 anos.
O Dossiê Mulher 2020 também mostra que em 2019 as mulheres correram maior risco de ser estupradas justamente no lugar onde deveriam se sentir mais protegidas: a própria casa. Os dados mostram que, no caso específico do estupro, a esmagadora maioria das ocorrências (72,1%) foi dentro de casa, seguida de vias públicas (11,6%), outros locais não especificados (9,3%), e estabelecimentos comerciais (4,7%). A maior parte dos estupros ocorreu na parte da manhã (42,4%) e à tarde (24,2%). Nada de balada, nada de bebidas. E mesmo que houvesse, seria injustificável culpar qualquer mulher por ser agredida sexualmente ao tentar se divertir.
‘Falsa’ queda
Além do Dossiê Mulher – publicação anual do ISP-RJ -, no início da Covid-19, em março do ano passado, o instituto lançou o projeto ‘Monitor da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher no Período de Isolamento Social’, que contém várias informações monitoradas – entre março e dezembro de 2020 – para comparar possíveis efeitos do isolamento no quadro da violência contra a mulher. O que os indicadores mostraram é que houve uma queda nos casos na comparação entre 2019 e 2020, com uma redução média de 10% em todos os crimes cometidos contra as mulheres. Outro dado é que o número de ligações para o Disque Denúncia sobre “Violência contra Mulher” caiu 19,1%.
Mas o que poderia ser uma boa notícia mascara uma realidade inquietante: o próprio ISP-RJ aponta que provavelmente houve uma subnotificação dos crimes contra a mulher. Um dos motivos seria o medo das denunciantes irem até a uma delegacia de polícia e se expor a uma situação de contágio pelo novo coronavírus. Outro motivo seria a impossibilidade de as vítimas saírem de suas residências após fazerem a denúncia, por causa da presença e do controle do agressor. Outro dado do ISP-RJ que reforça essa hipótese é o aumento de 12,2% no número de ligações para o serviço 190 da Polícia Militar, sobre crimes contra a mulher. Como a PM atua com os casos de flagrante, quando a violência já ocorreu, os dados mostram um panorama mais real do dia a dia, com o aumento efetivo dos crimes contra as mulheres.
Ainda de acordo com as informações divulgadas pelo ISP, já no final de 2020, entre novembro e dezembro, houve um aumento de 5,3% no registro de crimes sob a Lei Maria da Penha, criada especificamente para combater a violência contra a mulher. O órgão mostra que o crime de estupro vem mantendo o mesmo patamar desde agosto de 2020, na comparação com o mesmo período de 2019, quando não havia isolamento social. Ou seja, a pandemia e o distanciamento de outras pessoas não tornaram a vida das mulheres mais segura. E durma com um barulho desse.

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