Tragédia no Paraíso

Assassinato de criança de 2 anos expõe ainda mais a guerra entre facções rivais pelo domínio do tráfico de drogas

Vinicius de Oliveira

Em tempos de pandemia, poucas notícias são capazes de desviar o foco da população. Apenas grandes tragédias conseguem. Foi o caso do assassinato de Ycaro Miguel Sigilião dos Santos, de 2 anos. A história, que se desenrolou na Região Leste de Barra Mansa, uma das mais vulneráveis do município, ainda é um quebra-cabeças mal explicado. Sabe-se apenas que no sábado, 24, Ycaro e mais dois amigos brincavam na calçada, mexendo no celular. Em uma fração de minutos, como contam as testemunhas, apareceu um carro branco e vários disparos foram ouvidos. Um destes atravessou a cabeça de Ycaro, que morreu horas depois de ser socorrido por parentes e vizinhos. A Polícia desconfia que o assassino seja Guilherme Resende, suposto integrante do Terceiro Comando Puro (TCP).
Segundo relato de testemunhas e investigações da própria Polícia, a intenção do suspeito não seria atingir a criança, mas, sim, Anderson Leite Antero Miranda (21), que seria um desafeto de sua família, o que coloca em xeque a teoria de que o tiroteio foi motivado por questões do tráfico. O motivo do crime seria pessoal.
Conforme o jornal apurou, o pai de Guilherme teria sido agredido antes da tragédia e, a fim de se vingar, o suspeito teria pedido ajuda de traficantes. Para ele, o responsável pela agressão a seu pai teria sido um homem identificado como Anderson. “O pai do cara (Guilherme) levou uma surra e ele foi atrás para resolver, tirar satisfação”, contou uma vizinha que jura ter visto de longe o desenrolar dos fatos.
Ainda de acordo com a testemunha, Guilherme chegou a sair do carro, conversou com Anderson (que estaria acompanhado de um rapaz chamado Gabriel, grifo nosso) e cometeu o crime. “Ele (Guilherme) desceu e perguntou ao Anderson se ele tinha batido no seu pai. O Anderson falou que não, mas o assassino não acreditou e começou a atirar. Então o outro, o Gabriel, saiu correndo. Nisso, o cara atirou contra ele, mas acabou acertando a criança”, contou.
A ação do assassino deixou para trás, além dos corpos de Ycaro e Anderson, morto com um tiro no peito, imensos buracos de bala pelas paredes das casas próximas ao local do crime. Indignados, os moradores do Paraíso de Cima espalharam cartazes com o rosto de Guilherme onde se lê “procurado”. Nas redes sociais, o caso ganhou repercussão e os familiares levantaram a hashtag “Queremos Justiça”. “Ele veio aqui para pegar um cara e levou meu netinho embora, de dois aninhos, que só sabia sorrir, dançar e brincar”, desabafou a avó de Ycaro.
O assassinato de Ycaro e Anderson pode não ter ligação direta com o tráfico de drogas, mas funcionou como um jato de gasolina numa fogueira que já ardia há tempos e promete explodir cedo ou tarde. “Esse Guilherme é do Terceiro Comando e a região onde ele cometeu o crime é do Comando Vermelho, e esses não vão deixar barato essa invasão. O próprio CV está ajudando a espalhar a cara dele pelas redes sociais”, confidenciou uma fonte do aQui, que pede para não ser identificada. Segundo ela, há uma ordem expressa vinda, inclusive, de dentro dos presídios para ‘pegar Guilherme’. “Isso porque Guilherme é do Boreuzinho (Minerlândia), que atualmente conta com o apoio dos caras do Eucaliptal e estão em guerra com os traficantes dos Sem Terra (Paraíso de Cima)”, revelou.
Ciente dos boatos, o Comando do 28º Batalhão da Polícia Militar resolveu enviar os policiais para o meio do fogo cruzado e “ocupar” os bairros Paraíso de Cima e Mangueira, onde Guilherme mora. A justificativa foi “evitar uma guerra de facções”. O problema é que o conflito já foi criado e, para piorar, a iniciativa da PM ajudou a acirrar ainda mais os ânimos, principalmente dos integrantes do Comando Vermelho. “Existe uma espécie de tratado determinado pela chefia do tráfico dos Sem Terra. Ninguém pode avançar contra a Polícia para que, se acontecer alguma coisa num provável confronto, será menos um crime para responder: o de atentar contra a vida de um policial. Pois eles (os traficantes) sabem que se atirarem contra a Polícia estão mortos, mais cedo ou mais tarde. Além disso, a PM não entra nunca no miolo, só passa próximo. Mas agora, com esse caso do menininho, a chapa esquentou”, continuou a fonte.
Apesar dos pesares, a ocupação da Polícia gerou pelo menos uma prisão. Conforme Relatório da PM, “na madrugada no dia 25, por volta de 3 da manhã, guarnições abordaram um veículo Uber que saía do bairro Paraíso, com destino ao bairro Padre Josimo e que tinha como passageiro o nacional Lucas dos Santos, vulgo Playboy, gerente do tráfico do bairro Paraíso. Contra o mesmo constam três mandados de prisão, pelos crimes de homicídio e tráfico de drogas”.

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