‘Tô pagando’

Vinícius de Oliveira

Qualquer volta-redondense com mais de 30 anos conhece o tradicional Aero Clube. Pelo menos de nome. Não o bairro, mas o clube e todas as suas curiosidades. Já foi um dos mais importantes do município por sediar um aeródromo, que hoje não existe mais. Deu lugar a cinco campos de peladas e a um kart particular. Nos últimos anos, face a uma ação judicial de reintegração de posse, movida pela CSN, o clube vive capengando, sem recursos e com poucos sócios – a maioria bateu em retirada. Resultado: a principal fonte de renda passou a ser eventos terceirizados, principalmente bailes funks, que ajudaram a queimar o nome do Aero. Para piorar, em março do ano passado, um deles provocou a interdição da entidade.
No dia 16 daquele mês, o Aero Clube foi palco de um baile funk que reuniu mais de mil pessoas. Integrantes do Terceiro Comando e do Comando Vermelho, facções criminosas rivais, se estranharam por causa da letra de um batidão, e, descontrolada, a multidão guerreou entre si. Até mesmo o DJ que tocava resolveu entrar na briga. A confusão chamou a atenção da fiscalização e do Corpo de Bombeiros, que identificou uma série de problemas estruturais que tornavam o espaço um campo minado, pronto para uma tragédia. Desde então, o Aero está interditado e, enquanto não houver reforma, não será reaberto.
A situação, que não estava nada fácil, piorou. “Foi interditado por adequações pendentes de segurança da estrutura predial. Isso vem de gestões passadas. Que veio a ser cobrado agora. Mas estamos providenciando a regularização, como saída de emergência, sistema de incêndio…”, justificou Juliano de Sá, presidente do Aero sobre a interdição. A saída foi recorrer aos ‘salvadores da pátria’, grupo formado por empresários e professores de Educação Física, liderado por João Carlos Baptista, conhecido como João do Brinquedo, que está investindo pesado para cumprir as exigências dos Bombeiros e revitalizar a área de esportes do clube.
O grupo queria manter tudo em segredo. Segundo João, para não atrair pessoas mal-intencionadas. “Tem gente que não ajuda quando o boi está magro, mas depois quer participar do churrasco do boi gordo”, ironizou, negando que esteja tentando esconder a reforma da direção da CSN. “A CSN não quer saber daquele espaço. Ela quer áreas centrais, como o Umuarama e a Cúria. Também está interessada no Náutico para fazer um estacionamento de carretas. Mas as terras do Aero não interessam para ela”, crê João do Brinquedo.
Ao ser indagado se o grupo que comanda passaria a ser ‘dono’ do Aero Clube, João jurou que a intenção é ajudar, de forma despretensiosa. “Não estou visando lucro com isso. Poderia estar trabalhando fora do país com esportes, ganharia muito mais dinheiro. Minha intenção mesmo é colaborar para que aquilo volte a respirar. Lógico que teremos o direito de explorar a parte de esportes do clube para recuperar o dinheiro investido. Vamos administrar juntos (com Juliano de Sá, grifo nosso). Não seremos donos”, esclareceu, salientando que também não sumirá do clube após reaver o que gastou. “Nós vamos dar aulas de algumas modalidades esportivas. Uma porcentagem vai ser do professor e outra parte fica com o clube. Algo perfeitamente normal, que acontece em outros lugares”, pondera.
Outro membro do grupo é o irmão do vereador Buchecha, Wagner da Silva Carvalho, que, segundo João, não tem nada a ver com o investimento. “O Wagner é apenas um colaborador. Ele não tem dinheiro para investir. É professor de Educação Física e vai colaborar com os cursos”, resumiu, garantindo que não tem dinheiro público na recuperação do Aero. Tem mais. Garante que não vai permitir a participação de políticos. “Geraldinho do Gelo quis se aproximar também. Mas logo esclareci que esse projeto não tem política. Então só tomou conhecimento da situação e se afastou”, jurou.
João do Brinquedo não revela a origem dos cerca de R$ 120 mil que o grupo investiu na revitalização de uma das quadras do Aero. “Vai ficar em muito mais do que isso. Além dessa quadra, vamos revitalizar uma outra de futsal, duas de tênis, duas de futevôlei e mais uma de futebol society. Só este último custará R$ 270 mil”, calculou, o que pode confirmar os boatos de que o clube em si ficaria apenas com a administração da sede social e das piscinas.

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