A CSN DEPOIS DE STEINBRUCH: O que Schvartsman terá de vender, preservar e mudar
Pollyanna Xavier
Conhecido pelo perfil conservador e pelo controle rigoroso nos negócios, Benjamin Steinbruch surpreendeu o mercado ao decidir algo pouco comum em sua trajetória: deixar a cadeira de CEO da CSN. Depois de mais de duas décadas no comando executivo da companhia, Steinbruch passou o cargo para Fábio Schvartsman, ex-presidente da Klabin e da Vale. A mudança, oficializada na quinta, 3, acredite, tem vários asteriscos no rodapé. Primeiro, porque ela pode ser muito maior do que a simples troca de cadeiras entre dois executivos de peso. Segundo, porque Steinbruch só mudou de posição no jogo: saiu da presidência da CSN, mas assumiu o Conselho de Administração – órgão máximo de deliberação da Companhia. E terceiro, porque o tabuleiro continua sendo dele.
O jogo apresenta ainda um quarto asterisco, talvez o mais intrigante: Schvartsman é um executivo muito diferente de Steinbruch, com uma trajetória marcada pela passagem por grandes grupos industriais e por momentos de transformação e reestruturação. Ele chega com um discurso de fortalecimento da governança, continuidade e preparação para um novo ciclo da CSN. A missão é melhorar a estrutura de capital, reduzir a dívida bilionária que a empresa acumula e aumentar a eficiência da ‘nova CSN’. O que ninguém ainda respondeu é: que empresa é a que Schvartsman está recebendo? A pergunta ganha peso porque a troca acontece justamente quando a siderúrgica atravessa um dos momentos financeiros mais delicados de sua história recente. A conta é pesada.
Para se ter uma ideia, a CSN fechou o segundo trimestre de 2026 com dívida líquida próxima de R$ 42 bilhões e alavancagem de cerca de 3,5 vezes o Ebitda. Para amenizar o problema, colocou em marcha um plano de desinvestimentos de ativos para reduzir o endividamento, com o objetivo de captar R$ 15 bilhões, podendo chegar, numa projeção bastante otimista, a R$ 18 bilhões. Se conseguir levantar esse montante e direcionar todo o dinheiro para a dívida, a alavancagem poderia cair para algo próximo de duas vezes o Ebitda. Ainda assim, para alcançar a meta saudável de uma única vez (1x Ebitda), a companhia teria outro caminho de R$ 12 bilhões pela frente.
No início de 2026, Steinbruch colocou à venda um dos ativos mais expressivos do conglomerado CSN: a cimenteira. A operação vem sendo negociada em um processo que pode movimentar bilhões de reais. Inicialmente, algo próximo de R$ 15 bilhões, mas as propostas conhecidas ficaram abaixo disso, na casa dos R$ 10 bilhões, forçando Steinbruch a trabalhar com uma expectativa de uns R$ 12 bilhões. As negociações permanecem abertas e entre os interessados estão a chinesa Huaxin e um consórcio formado pela Votorantim Cimentos e Cementir.

A verdade é que, por mais de duas décadas, a CSN deixou de ser apenas aço. A empresa, com Steinbruch no comando, multiplicou por cinco o seu ativo primário (siderurgia). O resultado foi impressionante: ele entrou com força na mineração, ampliou a logística, se tornou autossuficiente em energia e transformou o cimento em uma importante frente de negócios. A aquisição da operação brasileira da LafargeHolcim, em 2021, foi um dos movimentos mais expressivos desse tabuleiro de diversificação. Com a compra, a CSN ampliou sua presença no mercado de cimentos, incorporando uma capacidade de produção de 10,3 milhões de toneladas/ano. Pagou cerca de R$ 5,2 bilhões por essa fatia, e agora o ativo está à venda.
Neste jogo, também existe um processo para alienação da participação minoritária em operações de infraestrutura e logística. No caso da infraestrutura, vários imóveis da CSN, em Volta Redonda, já passam por reformas para serem vendidos. Quanto à logística, a estrutura também começou a ser fatiada. No pacote, está a venda de uma participação na MRS Logística; nos terminais Tecar e Tecon, ambos em Itaguaí-RJ, e ainda uma parte da Tora (empresa de transporte rodoviário recém-adquirida). A estimativa é que a CSN venda entre 20% e 40% da plataforma logística, mantendo o controle dos ativos, e consiga levantar algo entre R$ 5 bilhões e R$ 8 bilhões. No bom português, o grupo está liquidando justamente parte desta diversificação construída ao longo da era Steinbruch, e caberá a Fábio Schvartsman administrar essa reconfiguração. A nova CSN precisa de dinheiro.
Tem ainda outro movimento que Schvartsman terá de dar conta. Enquanto a CSN procura compradores para parte de seus ativos, a Usina Presidente Vargas continua precisando de investimentos pesados para se modernizar. Trocando em miúdos, a companhia projetou um Capex de R$ 7,9 bilhões para a siderurgia entre 2023 e 2028, dentro de um programa de modernização que inclui a UPV. Em dezembro de 2024, a empresa atualizou a projeção para R$ 8 bi até 2028, com geração média de R$ 2,8 bilhões de Ebitda incremental. Apesar do contexto técnico-financeiro, o ponto que se deve atentar aqui é quanto desse Capex já foi realizado e quanto ainda terá de ser desembolsado até 2028. Essa é uma das perguntas que ficam sobre a mesa do novo CEO.
Além de responder a esse questionamento, Schvartsman terá de decidir o que pode ser vendido e o que precisa permanecer nas mãos da CSN. E fará tudo isso com Steinbruch no Conselho. A palavra final será dele. Há ainda outro ponto: o ambiental. No fim de 2025, o BNDES aprovou R$ 1,13 bilhão em financiamento para projetos de modernização e sustentabilidade de três unidades de sinterização da UPV. Os recursos contemplam a aquisição de novos precipitadores, filtros de manga, melhorias na transferência de matérias-primas e outras intervenções para reduzir as emissões da usina. Parte do projeto está relacionada ao TAC firmado com o Inea. Ou seja, há compromissos ambientais e operacionais em andamento que precisam ser cumpridos.
Reação
O movimento de BS no tabuleiro foi recebido de forma positiva pelo mercado. As ações da CSN chegaram a subir quase 20% na quinta, 3, refletindo a boa avaliação dos investidores sobre a chegada de Schvartsman. O desafio, porém, está longe de ser uma valorização dos papéis da Companhia. Talvez a parte mais incômoda esteja por vir. É que Steinbruch conhece profundamente os ativos, os negócios, os investimentos e a história da CSN. Mais do que isso: ele próprio construiu o conglomerado que Schvartsman agora terá de administrar.

