Sonhando alto

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Mateus Gusmão

O prefeito eleito Samuca Silva (PV) deu uma pausa na sua agenda para visitar o aQui na manhã de terça, 13. Acompanhado de alguns dos seus principais assessores –, como o secretário de Comunicação, Adriano Lizarelli – Samuca ficou mais de uma hora na redação, onde confessou ser um leitor assíduo do jornal. “Todo mundo espera pelo aQui aos sábados”, revelou. A conversa foi franca e Samuca falou das dificuldades que enfrentou na campanha, e sobre as portas que se fecharam no primeiro turno e que se abriram no segundo, além de abordar os desafios que terá pela frente. Um deles será o de lidar com a Câmara de Volta Redonda, tanto que a visita aconteceu apenas algumas horas depois dos vereadores terem aprovado, em primeira discussão, a Lei Orçamentária Anual para 2017, que prevê uma receita da ordem de R$ 965 milhões.

 

O pior, para o prefeito eleito, é que os parlamentares ainda aprovaram uma emenda estipulando em apenas 7% o percentual que, como chefe do Executivo, poderá remanejar do orçamento sem ter que pedir aprovação do Legislativo –, o que corresponde a cerca de R$ 70 milhões. Em entrevista, Samuca afirmou que o Orçamento está superestimado e prometeu adotar medidas já a partir de 1º de janeiro para ‘contingenciar’ as verbas do orçamento.

 

Com exclusividade, Samuca criticou as previsões da LDO feita pela equipe do prefeito Neto e entende que o valor total para o ano que vem estaria superestimado. Que não deverá passar de R$ 800 milhões dos R$ 965 milhões previstos. “Nesse primeiro ano de mandato esperamos arrecadar cerca de R$ 200 milhões a menos do que o Orçamento prevê”, comentou Samuca. Ou seja, espera arrecadar R$ 765 milhões.  Ele foi além. Diz que sua expectativa é poder chegar aos R$ 900 milhões somente a partir do segundo ano de mandato. “Queremos terminar nosso governo arrecadando muito mais: R$ 1,4 bilhão”, disse, cheio de otimismo.

 

Samuca revelou também que vai promover um contingenciamento das receitas a partir de 1º de janeiro. Isso através de um decreto, diminuindo assim a expectativa da receita para o ano. “A base técnica usada para fazer o Orçamento é incoerente. Se a gente arrecada hoje R$ 760 milhões, colocar quase um R$ 1 bi para o próximo ano é inviável no atual cenário econômico”, destacou. “Um Orçamento superestimado vai gerar um déficit financeiro no final do exercício. Por isso, no dia 1º de janeiro vamos lançar um decreto e outras medidas para a gente contingenciar essas expectativas de receita”, destacou, ressaltando que espera arrecadar no ano que vem algo próximo ao que Neto conseguiu em 2016.

 

Na visita ao aQui, Samuca contou que esteve na Câmara na segunda, 12, para conversar com alguns parlamentares. Motivo: a questão do Orçamento. “Estive lá sim e conversei com alguns vereadores. Quando anunciamos que iríamos extinguir a secretaria de Governo, ficou claro que essa interlocução (do prefeito, grifo nosso) com os parlamentares quem iria fazer era eu. Claro que vou ter assessor Legislativo, mas quero participar dessas conversas com os parlamentares”, pontuou, comentando que, para sua surpresa, os vereadores aprovaram o percentual de 7% de remanejamento de verba e não os 5% que todos davam como certo. “É uma demonstração de boa vontade dos vereadores. Estamos num primeiro momento avançando na nossa relação”, acredita Samuca.

 

Questionado se com permissão de remanejar apenas algo em torno de R$ 65 milhões seu governo não ficaria engessado, Samuca garante que não. E jura que tem uma estratégia para isso. “Dá para governar com essa taxa (7%) de remanejamento. Eu trabalhei muito com essa questão técnica no meu dia a dia”, ponderou. “O que eu imagino é que, no início do governo, se tiver que fazer um remanejamento, vou procurar a Câmara para dialogar e tentar o apoio deles. Essa porcentagem que tenho (de 7%) deixaria para um momento de emergência”, declarou. “Ao invés de mexer no que já posso, vou priorizar o debate com os vereadores”, prometeu.

 

Samuca, que em campanha chegou a dizer que não precisava de políticos, agora diz que é importante manter o diálogo sempre aberto com a Câmara, respeitando a independência de cada Poder. “Sempre que puder, eu vou à Câmara conversar com os vereadores, uma prática que o atual prefeito não faz”, alfinetou. “Respeito a Câmara e sua independência, tanto que não vou interferir na votação da Mesa Diretora”, prometeu, ressaltando que é de suma importância que o Legislativo fiscalize o Orçamento público e o Poder Executivo. “O Executivo faz e o Legislativo aprova o Orçamento, então nada mais que justo que eles possam fiscalizar”, comentou.

 

Já sobre os polêmicos R$ 60 milhões de empréstimo que a prefeitura de Volta Redonda contraiu junto à Caixa Econômica Federal – conseguido por Neto para a construção de viadutos e pontes -, Samuca disse que ainda não decidiu se usará ou não a verba. “Temos até junho para decidir. Nossa dúvida é se Volta Redonda precisa mais de viadutos, por exemplo”, destacou, ressaltando que o empréstimo nada tem a ver com o Plano de Mobilidade Urbana. “Volta Redonda precisa de uma nova cultura de transporte. Eu disse isso na campanha. Se colocarmos bicicleta numa cidade como a nossa, vamos ter muitos acidentes. Precisamos primeiro mudar nossa cultura, fazer uma reestruturação na Suser e intervenções pontuais”, sublinhou.

 

Provocado a revelar quando vai implantar uma das suas principais promessas de campanha, a Tarifa Comercial Zero, Samuca desconversou. A proposta, alardeada na campanha eleitoral, passa pela criação de uma empresa pública de transporte de passageiros, com ônibus circulando pelos principais centros comerciais da cidade sem que os usuários gastem um tostão sequer. “A partir de 1º de janeiro vamos dar o pontapé inicial para implantar a Tarifa Comercial Zero. Mas a gente tem quatro anos para implantar, tá?!”, lembrou Samuca. É, faz sentido!

 

Câmara aprova Orçamento com 7% de remanejamento

Os vereadores de Volta Redonda aprovaram na quinta, 15, em segunda votação, a Lei Orçamentária Anual para 2017. Um dos temas mais polêmicos – o do percentual que Samuca poderá remanejar, de 7%, também foi aprovado. Neto, por exemplo, passou o ano todo podendo mexer em até 15%. O consenso, até então, era aprovar a emenda de Dinho (PEN), de apenas 5%. Mas, após a visita de Samuca à Câmara, os parlamentares resolveram aprovar a emenda de Granato (PTC), permitindo um remanejamento de 7%, algo em torno de R$ 70 milhões.

Segundo os vereadores, a taxa – entendida por alguns como uma retaliação ao prefeito eleito – não vai inviabilizar o governo dos verdes. Essa é pelo menos a opinião de Paulo Conrado (PRTB). “Eu votei a favor dos 7% porque entendo que isso não vai inviabilizar o governo. Mas nada impede que no próximo ano isso seja modificado. Pode até ser aumentado”, destacou Conrado. “Essa porcentagem é tranquila para um prefeito que quer discutir com a Câmara de Vereadores os anseios da população de Volta Redonda”, acrescentou Fernando Martins (PMDB).

O vereador Granato foi além. Jura que a taxa de 7% não é de retaliação a Samuca Silva. “Quem afirma isso é mentiroso”, bradou. “Com essa taxa de remanejamento, ele pode governar tranquilamente. Pode ser que com o passar de seu mandato, crie uma relação de confiança entre Legislativo e Executivo e a gente aumente essa porcentagem. Pode até parecer uma vingança, mas não é”, destacou.

Votaram a favor dos 7% todos os vereadores reeleitos, que integram o ‘Grupo dos 13’, que foi criado dias após a eleição de Samuca Silva. Os demais, não reeleitos, votaram contra.

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