quinta-feira, novembro 25, 2021
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Situação de emergência

Roberto Marinho

No meio da confusão provocada pela Covid-19 com a polêmica participação do presidente Jair Bolsonaro – sem contar dos ministros, governadores, prefeitos e vereadores – acusações brotam do nada. Muitas não passam de fake news. Mas existem aquelas que não são fabricadas nas redes sociais. Foi mais ou menos isso o que aconteceu em Pinheiral, onde a denúncia de um vereador sobre um suposto descaso da prefeitura – mais especificamente da secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos – na distribuição de cestas básicas rendeu uma enorme discussão na pequena cidade do Sul Fluminense, onde até o fechamento desta edição apenas cinco casos da Covid-19 tinham sido confirmados. Sem nenhum óbito. 

Foi no último dia 7 de abril que tudo começou. O vereador Magno Ferreira (foto), conhecido como Doutor Magno, fez uma postagem denunciando que cestas básicas estariam sendo estocadas nos Cras (Centro de Referência em Assistência Social) da cidade, enquanto várias famílias estariam passando por necessidades por conta do isolamento social e a impossibilidade de sair de casa para trabalhar e garantir seu sustento. O vereador também criticou o horário de atendimento reduzido dos Cras e a falta de funcionários.    

“Para minha surpresa, os Cras estavam atendendo em meio período (das 8 às 12 horas), e mesmo assim, com funcionamento escasso; verifiquei que a pasta mantinha diversos alimentos estocados. Alimentos que poderiam ser distribuídos aos mais vulneráveis”, disse o parlamentar ao aQui. “Por acaso a fome tem hora? Estamos falando de famílias em estado de vulnerabilidade, autônomos e outras situações de trabalhadores que não podem sair de casa para buscar seu sustento! Não estamos falando de caridade! Estamos falando de direitos”, acrescentou Magno, apresentando à reportagem fotos e vídeos da visita que ele fez a diversos Cras de Pinheiral.

E, realmente, nas imagens é possível ver várias pilhas de cestas básicas, já ensacadas, prontas para serem distribuídas. Não satisfeito, Magno questiona por que a secretaria de Assistência Social não foi incluída como atividade essencial no decreto municipal 2.799/20 – de 19 de março -, que determinou mudanças no horário de atendimento de todo o serviço público de Pinheiral por causa da Covid-19. 

A postagem do vereador “bombou” na internet e tinha mais de 7,8 mil visualizações, 122 com-partilhamentos, 155 reações e 185 comentários quando da entrevista que concedeu ao aQui. A maior parte, a favor de Magno. Mas algumas pessoas ques-tionavam o possível uso político da fiscalização feita – que é atribuição e direito de qualquer vereador, diga-se de passagem – salientando a proximidade das eleições. Muitos também questionaram o modo como é feita a distribuição das cestas básicas. 

A repercussão foi tamanha que no dia seguinte a prefeitura de Pinheiral utilizou o seu canal nas redes sociais para divulgar uma nota oficial explicando como é feita a distribuição das cestas básicas e justificando a redução no horário de atendimento. No comuni-cado, a prefeitura informa que o material encontrado pelo vereador estava à espera de complementação de alguns itens, e que estavam destinadas às famílias já cadastradas nos Cras. “As mesmas (cestas básicas, grifo nosso) atendem a fluxo pré-determinado de entrega, conforme o que consta na lei 1.112/19, sendo direcionadas aos Cras do município e alcançando as famílias cadastradas nos equipamentos e se estendendo àquelas que porventura se enquadrem na condição de vulnerabilidade”, informou.

O comunicado da prefeitura garantia ainda que os Cras estariam trabalhando internamente em horário estendido até às 17 horas, “para desenvolver os atos necessários ao desenvolvimento das demais ações inerentes a esta secretaria, tais como análise do perfil de vulnerabilidade dos núcleos familiares”.

A postagem da prefeitura, no entanto, não teve o mesmo alcance e repercussão da mensagem publicada pelo vereador, ficando com 56 reações, 30 compartilhamentos e apenas cinco comentários.     

Em nota exclusiva ao aQui, a prefeitura informou ainda que “a redução do horário de atendimento ao público, que tem sido adotada por todas as cidades do país, é no intuito de preservação da saúde dos servidores e munícipes”. A administração municipal também afirmou que está adquirindo, em caráter emergencial, mais 3,5 mil cestas básicas para atender os afetados pela quarentena causada pelo coronavírus. Questionada sobre o suposto uso político da denúncia pelo vereador – que seria pré-candidato a prefeito, segundo fontes ouvidas pelo jornal -, a assessoria da prefeitura não se pronunciou até o fechamento desta edição. 

O vereador Magno deu o troco. Reiterou as denúncias e afirmou que a secretaria de Assistência Social teria R$ 600 mil depositados em uma conta bancária desde o início do ano. “Mas ela (a pasta) não consegue apresentar projetos para utilizar esse dinheiro”, disparou, garantindo que não faz uso político da denúncia, pois nunca anunciou oficialmente que seria pré-candidato a prefeito. “Nunca fiz essa declaração em lugar nenhum, não me lancei como pré-candidato”, reiterou, sem, no entanto, negar que possa vir a disputar uma vaga no Executivo de Pinheiral.

Batendo chapa

Juliene da Silva Ramos é jovem, negra e bela. Parece ser modelo. Mas engana-se quem a vê. Ela é atuante nos movimentos sociais de Pinheiral e está determinada a fazer história e ser a primeira prefeita de Pinheiral. Sua referência é sua mãe, Juliete, que há 10 anos trabalha na secretaria de Assistência Social de Pinheiral e que desde cedo a leva a todos os eventos, debates e conferências desenvolvidos pela pasta.

Essas participações despertaram em Juliene a vontade de fazer mais pela sua comunidade. O primeiro passo foi se candidatar à presidência da Associação de Moradores do seu bairro. Venceu facilmente e comandou a entidade por dois anos, podendo participar da discussão do Orçamento Participativo e organizar a primeira Conferência da Juventude de Pinheiral.

Nesse seu primeiro período de militância, Juliene se aproximou do ex-vereador Felipe Rivello, que presidia o PSB em Pinheiral e era da executiva estadual do partido. Acabou se filiando à legenda – em 2014. Nos anos seguintes, Juliene voltou a vencer duas eleições para a Associação de Moradores e foi escolhida para ocupar o cargo de secretária geral da Ubes (União Brasileira de Estudantes Secundaristas). Foi um pulo para ser convidada a trabalhar em Brasília, onde assumiu um cargo na secretaria estadual de Segurança Pública, durante o mandato de Rodrigo Rollemberg, então governador do Distrito Federal e dirigente do PSB Nacional.

Jovem de 24 anos, Juliene, que é graduada em Direito pelo UniFOA, voltou a morar em Pinheiral. “Fiquei muito feliz pelo convite. Essa pré-candidatura será uma grande oportunidade para nós debatermos com vários setores da sociedade de Pinheiral. Ouvir os movimentos organizados, dar voz e ouvido às minorias, defender bandeiras muitas vezes ignoradas por muitos”, ponderou Juliene, que não se esquivou ao analisar o nome do vereador Dr. Magno, que também sonha em ser pré-candidato a prefeito pelo PSB. “Quero fazer um trabalho propositivo. Ouvir e discutir a cidade. Meu perfil é outro. E caso o PSB tenha outras pré-candidaturas além da minha, vamos bater chapa na convenção e ver quem tem mais correlação de força dentro do partido. Mas acredito que não será necessário chegarmos a esse ponto”, concluiu a jovem pré-candidata.

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