Síndrome da Gaiola

Por: Pollyanna Xavier

 Paulo* tinha 16 anos quando as aulas do colégio foram suspensas. Ele ainda não retornou à escola e mal sai de casa com medo de pegar a Covid-19. Quando sai, leva duas máscaras, álcool em gel, borrifador com álcool líquido e, em algumas situações, até luvas. Não anda de ônibus, não entra em lugares fechados, não gosta de receber visitas, não abraça os parentes e amigos, higieniza correspondências, compras e tudo o que entra em casa. O medo da pandemia e de uma contaminação limitaram a vida do rapaz. O comportamento de Paulo, porém, não é uma exceção à regra. Muitas crianças e adolescentes têm desenvolvido o que os especialistas chamam de síndrome da gaiola – uma alusão aos pássaros que não deixam o cativeiro.
A síndrome não é rara. Na pandemia tem sido frequente encontrar adolescentes e jovens que estão no extremo daqueles que desrespeitam o distanciamento social e não se importam com a aglomeração em praças, festas ou bailes. Na síndrome da gaiola, por exemplo, o adolescente apoia-se no mundo virtual e desconsidera os estímulos e contatos com o mundo exterior. Na maioria das vezes, não gosta de sair do quarto, seus amigos são virtuais e se adapta bem ao ensino remoto, inclusive mantendo um bom desempenho escolar. “As consequências são pessoas deprimidas, com crises de pânico, tristes”, avalia o médico Rafael Vieira Canedo.
Segundo ele, a síndrome pode atingir qualquer faixa etária, mas chama a atenção quando acomete crianças e adolescentes porque, em geral, esse grupo é mais ativo. “Pode acometer grupos saudáveis, uma vez que passamos por uma situação totalmente inusitada e desconhecida. A privação por um tempo prolongado da convivência com amigos (…) quase sem atividades físicas ao ar livre e em ambientes comunitários, sem exposição ao sol, ingerindo grandes quantidades de comida (…) pode levar uma pessoa ao desequilíbrio súbito do estado mental”, pontuou. “Somado às consequências financeiras e perdas pessoais (morte de um parente próximo), é possível até levar ao suicídio”, alertou Rafael.
          Para o médico, que é pediatra, os pais precisam observar o comportamento dos filhos e buscar ajuda de profissionais quando perceberem a resistência em sair de casa ou de interagirem com o mundo exterior. Evitar falar da pandemia, desligar um pouco o noticiário e ter momentos de descontração são medidas simples que, segundo Rafael, podem ajudar os filhos a atravessarem a pandemia sem as sequelas psicológicas. “A base de tudo é a forma como os pais lidam com a situação em casa e como passam as informações (da pandemia) aos filhos. É essencial elaborar atividades criativas dentro de casa, fortalecendo os vínculos afetivos e não deixando as crianças criarem medos excessivos e desnecessários”, ensina Rafael.
A receita também se estende aos pais. De acordo com o médico, se os pais não demonstrarem equilíbrio emocional, os filhos serão cada vez mais prejudicados. “As terapias individuais são extremamente necessárias. Tanto para os adultos quanto para as crianças”, recomendou. “O acesso indiscriminado a qualquer tipo de informação veiculada, seja pela TV, mídias sociais ou grupos de WhatsApp, deve ser evitado, principalmente quando os pais perceberem um comportamento introspectivo nos filhos”, orientou.
Ele tem razão. A síndrome da gaiola não escolhe classe social. Ela pode acometer qualquer pessoa em qualquer camada. O diagnóstico é clínico e, como não pode ser identificado em exames de sangue ou de imagem, o profissional terá que recorrer a uma investigação puramente clínica. “É preciso uma boa anamnese e a análise do marco temporal de início dos sintomas, comparando aos hábitos anteriores à pandemia. As perguntas direcionadas à mãe ou diretamente ao paciente ajudam a entender quais são os medos e anseios que fazem com que ele apresente determinado comportamento. Identificar o gatilho é importante”, ressaltou Rafael Vieira Canedo.
O tempo do tratamento varia de paciente para paciente. “Tudo depende da rapidez no diagnóstico e como as famílias vão lidar com isso”, comentou Rafael, que aposta no diagnóstico rápido e preciso e no acompanhamento médico e psicológico adequado para evitar o agravamento do quadro. “Se for devidamente diagnosticada e acompanhada por profissionais qualificados e a família se prontificar a compreender e auxiliar nos tratamentos, o desfecho tende a ser breve e acontecer de forma branda”, acredita.
            As dificuldades impostas pelos transtornos mentais que acometeram crianças e adolescentes nesta pandemia sustentam a síndrome da gaiola. Além de ter que lidar com essas questões, esse grupo etário precisa ainda se adaptar às mudanças ocorridas em casa, com os pais trabalhando remotamente, cortes no orçamento por redução de salários dos pais e em alguns casos até com a morte de parentes próximos. É exatamente o caso de Paulo. Ele perdeu o pai para a Covid há um ano e a vida da família precisou ser reorganizada para se adaptar à nova realidade.
Paulo se mudou de casa e sofreu uma transformação em sua rotina. “Uma criança, dependendo da idade e se for bem acolhida pela família, consegue superar bem essas mudanças. Mas o adolescente, nem sempre. As questões hormonais, somadas à ansiedade natural da idade, dificultam o processo. É preciso o acompanhamento médico e psicológico para que esse adolescente não perca qualidade de vida em função dos transtornos mentais que surgem a partir dessas experiências difíceis”, explicou o psicólogo Mário Castro.
Na última quarta, 1°, Paulo finalmente tomou a primeira dose da vacina contra a Covid. Aos 14 anos, o adolescente foi diagnosticado com asma e desde então é acompanhado por um pneumologista, faz uso de duas bombinhas e mesmo assim sente falta de ar diante de pequenos esforços. Ele tomou a Pfizer – vacina autorizada pela Anvisa para imunizar adolescentes de 12 a 17 anos com comorbidades. Com a vacina, a família espera que o rapaz tome também coragem para pelo menos alcançar a porta da gaiola. É um processo!

Nota da redação: O nome do adolescente foi mudado nessa reportagem para preservar sua identidade.

Deixe uma resposta