Rede de Vizinhos

Por Roberto Marinho

Na semana passada, baseado em números oficiais do ISP-RJ (Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro) o aQui mostrou, com exclusividade, que o roubo a residências em Volta Redonda registrou um aumento de 233%, na comparação entre janeiro e novembro de 2017 e  mesmo período de 2018. Foram três roubos a residências em 2017, contra 10 no ano seguinte. E, infelizmente, o quadro pode piorar em 2019.

 

Só na primeira quinzena deste ano já foram registrados pelo menos três roubos a residências na cidade do aço (há quem garanta que seriam seis), o que equivale às ocorrências relativas a 11 meses de 2017. E, vejam só, em dois deles, ocorridos em bairros de classe média alta (Jardim Normândia e Laranjal), as famílias ficaram trancadas sem poder se comunicar com ninguém. No Normândia, os proprietários da casa, e dois filhos ficaram presos das 22 horas, de segunda, 14, às 6h30min de terça, 15, quando vizinhos foram alertados pelos gritos do morador.

 

O crime foi cometido por cinco bandidos, encapuzados e armados, sendo que um deles ficou na direção de uma Amarok CD 4×4 S, ano 2014, provavelmente roubada, de placa LSX-6699. 

O curioso é que o morador, um empresário, é um dos integrantes de um projeto experimental que está sendo implantado em alguns bairros de Volta Redonda, e que pretende usar a solidariedade entre os moradores para tentar diminuir os roubos a residências. Azar do assaltado é que a ‘Rede de Vizinhos’ (ver foto) ainda não saiu do papel. A ideia é semelhante a projetos aplicados em Belo Horizonte, onde é conhecida por ‘Rede de Vizinhos Protegidos’; em São Paulo, por ‘Segurança Solidária’; e no Rio de Janeiro (década de 90), ao ‘Vizinha Fofoqueira’.

 

Em Volta Redonda, a Rede de Vizinhos teoricamente vai funcionar usando grupos de WhatsApp, a ser formado por quatro moradores que serão selecionados em cada bairro participante, além do presidente da Associação de Moradores, de representantes da Polícia Militar, Guarda Municipal, Ciosp e Conselho Comunitário de Segurança Pública (órgão ligado atualmente à secretaria de Estado de Governo). Pelo grupo, os moradores, batizados de agentes, como serão conhecidos os escolhidos, vão poder manter contato diretamente com as autoridades policiais para comunicar qualquer problema de segurança no bairro, seja uma emergência ou não. O projeto pretende criar grupos de WhatsApp da Associação de Moradores, incluindo quem mora no bairro. Neste caso, as denúncias e solicitações serão selecionadas e encaminhadas ao grupo menor, o que manterá contato com as autoridades. 

 

A ideia de implantar o projeto onde os ‘agentes’ serão capacitados para tomar conta da vida alheia (por um bom motivo) foi da presidente do Conselho Comunitário de Segurança Pública de Volta Redonda, Rosane Soares. “Em novembro de 2018 resolvemos adaptar esse projeto para Volta Redonda, por causa de uma amiga que morava em Belo Horizonte, em uma rua onde funcionava a Rede de Vizinhos. Eles conseguiram diminuir muito os números de assaltos a residências, e o roubo de carros foi praticamente zerado”, justificou Rosane.

 

Ela afirma que, diferentemente dos projetos já existentes em outras cidades, o de Volta Redonda vai contar com apoio do Ciosp (Centro Integrado de Segurança Pública), da Polícia Militar e da Guarda Municipal. “Na maioria das cidades o projeto é só da Polícia Militar e do Conselho de Segurança. Mas aqui em Volta Redonda, conversando com os outros órgãos de segurança, eles resolveram nos apoiar”, explica Rosane, garantindo que os quatro moradores selecionados para participar do grupo deverão passar por uma seleção e receberão orientações mais específicas da PM, além de ter antecedentes criminais checados, por exemplo.

 

Rosane frisa que para a ‘Rede de Vizinhos’ funcionar será preciso que todos os moradores se conheçam, tenham seus contatos (telefones) e saibam o mínimo dos hábitos dos vizinhos. “A intenção é perceber a presença de pessoas ou veículos estranhos ou em atitudes suspeitas. A observação acontece em tempo real e se há sinal de perigo ou suspeição é dado um aviso ao grupo de mensagens. Também se poderá acionar uma sirene que servirá de alerta e assim um vizinho aciona o outro e o grupo ligado às forças de segurança aciona as mesmas”, explicou, esclarecendo que as sirenes – que devem ser compradas (R$ 10 a unidade) pelos moradores participantes – ainda não foram instaladas. 

 

Talvez seja por esse pequeno detalhe – o das sirenes – que o morador do Jardim Normândia não tenha sido socorrido pelos vizinhos quando estava sendo roubado ou logo após os bandidos terem fugido com o produto do roubo, mais o carro do empresário (que foi recuperado em Barra do Piraí, em péssimo estado, por sinal). Como mostramos no início da matéria, o empresário seria um dos agentes da ‘Rede de Vizinhos’. Tem mais. A Silva Ramos, onde ocorreu o roubo, faz esquina com a Rua Alfredo Elis, onde mora o ex-deputado federal Deley de Oliveira. Rua essa que conta com 19 moradores ligados à Rede de Vizinhos, que nada viram ou ouviram e que não puderam ligar as suas sirenes, por um simples motivo: elas ainda não chegaram, não foram instaladas e, óbvio, não, funcionam. 

 

Rosane explica: “Isso (falta das sirenes) pode ter atrapalhado, por exemplo, no caso que ocorreu recentemente no Jardim Normândia, mas o projeto está em fase experimental, estamos testando e fazendo as correções. Neste caso (do Normândia) também pode ter havido falha na comunicação. Os vizinhos não prestaram atenção na movimentação atípica e não acionaram o grupo. Isso precisa ser corrigido”, avalia.

 

Apesar das falhas, o projeto mostra que pode funcionar. Segundo Rosane, um exemplo é o que ocorreu na Morada da Colina, quando uma moradora entrou por engano na garagem – que estava aberta – de outra casa. A dona do imóvel não reconheceu o veículo da vizinha e acionou o grupo. “A própria pessoa que estacionou na garagem errada recebeu a mensagem e disse no grupo: “Me desculpem, eu que estacionei na garagem errada”. Isso foi antes das forças de segurança serem acionadas, em questão de minutos, e mostra que o projeto pode funcionar bem”, afirmou, dizendo que o ‘Rede de Vizinhos’ faz também com que os moradores se conheçam melhor. “Isso é fundamental para que tudo funcione bem. E estamos começando, muita coisa ainda precisa melhorar”, salientou.    

 

Rosane explicou que a Polícia Militar e a GM, que participam do projeto, teoricamente, vão estar presentes nas reuniões das Associações de Moradores dos bairros onde a ‘Rede de Vizinhos’ está sendo implantada, como no Jardim Normândia, Morada da Colina, Mirante da Colina, Jardim Provence e Santa Helena – dando dicas de segurança e orientando os moradores a, por exemplo, não abordar carros ou elementos suspeitos, e sempre comunicar qualquer situação suspeita.    

 

A ideia é boa, mas resta saber se as autoridades policiais darão conta. Na semana passada, após notar um carro suspeito, parado e com o motor ligado, moradores de uma rua do Jardim Belvedere acionaram a Polícia Militar por meio do Ciosp – que atendeu prontamente a ligação, segundo o relato de um deles. Observaram o carro mudar de lugar e estacionar em uma rua abaixo. Só que, instantes depois, o veículo voltou ao local anterior, e assustados, os moradores voltaram a ligar para o Ciosp. A atenciosa atendente disse que estava ciente da urgência e prometeu localizar a viatura mais próxima. O que não ocorreu até o fechamento desta edição. 

 

Sorte dos moradores é que, no dia seguinte, o mal entendido foi desfeito. O carro era do namorado da filha de uma nova moradora do bairro e ele estava acompanhando a jovem de volta para casa após assistir aulas na faculdade.

Suspeitas

Há ainda quem fique alarmado com os roubos a residências em Volta Redonda. Entre eles estão aqueles que desconfiam de ações arquitetadas por fimas de segurança (piratas), que querem vender serviço. “É preciso muito cuidado. Quando uma empresa aparece vendendo segurança, os roubos (no bairro) aumentam”, dispara um morador, pedindo para não ser identificado. “Os moradores acabam ficando assustados e aceitam fechar contrato com a empresa, sem se preocuparem em ver se a firma existe, se é idônea, etc. Tem muito picareta na praça”, sentencia o morador, sem apresentar dados que comprovem suas denúncias.

 

Só que o alerta deixado por ele faz sentido. No La-ranjal, roubo bem parecido ao do Jardim Normândia também ocorreu na pri-meira quinzena de 2019, mais precisamente no dia 3 de janeiro. Há quem ligue um ao outro como se fosse uma ação orquestrada por uma quadrilha ligada a algum grupo miliciano vendendo proteção em Volta Redonda. O roubo foi na Rua 106, e, na ação, quatro assaltantes renderam o dono da casa quando este guardava o carro, um Hyundai Tucson, na garagem, trancando quatro vítimas no banheiro da residência. Igualzinho ao crime do Jardim Normândia. 

 

Para piorar, uma fonte do aQui com trânsito na área de segurança, diz que outros roubos ocorreram. Todos idênticos. “NO Jardim Normândia foram  dois casos; no Laranjal, outros dois. Teve até um no Jardim Belvedere. A diferença  entre eles é que só houve violência fisica no Belvedere. A dona de casa não quis entregar as jóias e apanhou de um dos bandidos”, relatou. 

 

A fonte conta ainda que  os bandidos devem ser ligados a algum grupo miliciano que esteja querendo invadir a cidade. “Nos casos, os bandidos não levaram cartões de crédito, nem cheques. Devolviam aos moradores. Só queriam dinheiro, jóias, aparelhos eletrônicos e celulares”, compara

Paranoia

 Com a explosão das redes sociais e a formação indiscriminada de grupos de WatsApp, uma situação inusitada está sendo detectada na questão da segurança, ou falta dela, nos bairros de Volta Redonda. “Tá todo mundo ficando paranoico”, diz um administrador de empresas, que mora em um prédio que passou a fazer parte de uma ‘Rede de Vizinhos’. “A maioria das pessoas não está preparada para ‘sentir’ o perigo. Desconfiam de tudo e de todos. Se passa um pedreiro, acham que é bandido. Se passa uma mulher, também. É paranoia. Não se deve e não se pode sair acusando ninguém”, avalia, contando a seguir um caso que ele mesmo presenciou.

 

“Com as fortes chuvas dos últimos dias, o portão do prédio onde moro enguiçou. Um morador, que deve ser o sindico, desceu e ficou tentando consertar o portão. Foi o suficiente para outros moradores postarem no grupo que o prédio estava sendo invadido. Não estava. Imagina se alguém resolve agir e sair armado para ver o que estava acontecendo. Parece piada, mas é sério. Alguém podia se machucar”, pontua. Ele está certo.             

 

Outros usuários do WattsApp lembram que os grupos, com o passar do tempo, acabam perdendo sentido. “No meu bairro fizeram um grupo de segurança, mas as pessoas ficam postando bobeiras, correntes, fotos, piadas. Isso quando não usam o grupo para fazer política. Com o assalto no Jardim Normândia apareceu um gaiato dizendo que aquilo (o roubo) era culpa do prefeito Samuca que não cuida da segurança de Volta Redonda. Ele deve saber que segurança é problema do Estado, mas aproveitou para criticar o prefeito”, comparou.

 

Para encerrar a matéria fica o registro da postura dos bandidos diante da criação dos grupos de WattsApp e das redes de vizinhos. Um deles, segundo uma fonte, chegou a ironizar o uso das placas. “Nós entramos onde e quando der na telha. Uma plaquinha dessa não adianta nada”, avaliou.

 

Ele que se cuide. Segundo outra fonte do aQui, a Policia Civil de Volta Redonda já teria identificado um dos integrantes do bando que praticou o roubo no Laranjal. “A prisão do suspeito deve ocorrer em breve”, disparou.

 

Indagado se seria um dos suspeitos, cujas fotos estão sendo divulgadas pelos grupos de WattsApp, a fonte  ironiza. “Isso é paranoia sua”. É. Pode ser. Quanto a presença da milicia, ela foi curta e grossa: “Com certeza”.  

 

Tropa na rua

Na quarta, 16, o prefeito Samuca Silva recebeu o novo delegado titular da 93ª Delegacia de Polícia de Volta Redonda, Franquis Dias Nepomuceno, para tratar de unir as forças de segurança da cidade e debater os casos recentes de violência que atingiram dois bairros de classe média alta. “Faço questão de colocar toda a estrutura municipal à disposição da Polícia Civil para o que for preciso. Estive na Polícia Militar e fiz o mesmo. Vamos unir as forças de segurança. Mesmo sabendo que a competência sobre a segurança pública cabe ao governo do Estado, a prefeitura está à disposição para ajudar”, destacou.

 

Samuca aproveitou para ressaltar que determinou que todos os guardas municipais que fazem serviços administrativos passem a trabalhar no patrulhamento ostensivo no município. E garantiu que a prefeitura irá pagar RAS (Regime Adicional de Serviço) aos GMs para que a população conte com mais agentes nas ruas. A prefeitura também está realizando, segundo ele, a manutenção nas câmeras de segurança OSR.

 

O delegado Franquis Dias Nepomuceno, que nem bem chegou, disse a Samuca que está analisando os acontecimentos recentes em Volta Redonda. “As investigações estão em estágio avançado. Estamos identificando os criminosos e, em breve, poderemos dar um retorno positivo com a prisão desses”, crê o delegado.

 

Durante o encontro, o novo delegado também apresentou ao prefeito as  necessidades da Polícia Civil em Volta Redonda, agradeceu os funcionários administrativos que a prefeitura disponibiliza para a delegacia, onde atuam na área administrativa, e apontou a necessidade de apoio no serviço de  limpeza, assim como ajuda para organizar o pátio de veículos apreendidos.

 

“O apoio da prefeitura é fundamental para o bom funcionamento da delegacia. O local de trabalho confortável, limpo e organizado gera melhor atendimento ao usuário. Além disso, é nesse ambiente que as primeiras informações, fundamentais nas investigações, são colhidas”, pontuou Franquis.

 

O delegado confirmou a Samuca a implantação de uma Delegacia de Homicídios em Volta Redonda. A unidade deve se instalar no prédio da 5ª Risp (Região Integrada de Segurança Pública), na Vila Mury. “Essa conquista, se concretizada, deve desafogar o trabalho da 93ª DP e permitir mais dedicação às investigações”, disse Franquis.

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