‘Quase quebrando’

Empresas de ônibus já demitiram mais de 500 trabalhadores e temem sobreviver por apenas mais três meses

Pollyanna Xavier

A Covid-19 pegou carona no transporte coletivo de passageiros. E fez estragos, provocando demissões em massa. Segundo a Associação Nacional das Empresas de Transporte Urbano, cerca de 61 mil rodoviários perderam seus empregos em todo o país. Em Volta Redonda, os números são preocupantes. Mostram que o setor, que já estava em crise, piorou de vez, perdendo passageiros no meio da viagem. O Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Barra Mansa e Volta Redonda (Sindpass) confirma a dura realidade: Cerca de 70 ônibus foram tirados de circulação e mais de 65% dos passageiros deixaram de usar o transporte público. Resultado: prejuízo sem tamanho.
Em entrevista exclusiva ao aQui, o empresário e presidente do Sindpass, Paulo Afonso Paiva Arantes, disse que as empresas do setor nas cidades abrangidas pelo sindicato precisam de um respirador urgente. Sem fôlego, podem quebrar. “Estamos no limite. O sistema vai parar e nós vamos colapsar”, alertou, indo além. Disse que das três empresas que operam na cidade do aço – Sul Fluminense, Elite e Pinheiral – uma já entrou em recuperação judicial (a Sul Fluminense) e as demais só sobrevivem por mais 90 dias. “A pandemia agravou muito a nossa situação”, disse.
Segundo Paulo Afonso, o esgotamento financeiro das empresas provocou a demissão de cerca de 500 trabalhadores entre abril e dezembro do ano passado, a maioria motoristas e cobradores de ônibus. Equivale a quase 20% do quadro funcional das três empresas que operam na cidade do aço e que já chegaram a empregar mais de 3 mil trabalhadores. “A crise sempre existiu, é tradicional. A pandemia só agravou a situação e se não houver socorro do poder público, o sistema local vai falir”, desabafa Paulo Afonso.
A origem do problema está, segundo o empresário, na gratuidade prevista em lei e que beneficia estudantes e idosos. Cerca de 32% dos passageiros do transporte coletivo não pagam passagem. E não há, segundo Paulo Afonso, nenhuma compensação financeira por parte do poder público para cobrir o ônus. “Há estados brasileiros, como São Paulo, por exemplo, que a prefeitura compensa as empresas de transporte público com um subsídio, não apenas para manter a saúde financeira das empresas, mas principalmente para a manutenção dos empregos. Aqui infelizmente não temos isto. E também não podemos compensar essa perda no valor da tarifa. “Não podemos e não conseguimos fazer isto”, comentou.
O empresário destaca outro ponto negativo no setor de transporte de passageiros em Volta Redonda, que afeta o faturamento diário das empresas. A concorrência desleal dos aplicativos, tipo Uber. “Existem muitos motoristas de fora atuando em Volta Redonda. Fazem concorrência desleal aos táxis e aos ônibus”, avalia, cobrando uma maior fiscalização do Poder Público. “Existe uma lei em vigor, pena que não é respeitada e nem fiscalizada. Os motoristas de aplicativos usam até luminosos nos carros, o que é proibido. E não pagam impostos e taxas aos cofres públicos”, lamenta.

Pandemia
O Sindpass ainda não conseguiu calcular o prejuízo das empresas de transporte na pandemia. Mas todas estão no vermelho. Motivo: As medidas de isolamento social contra a Covid resultaram em uma queda de 80% no número de passageiros. Na prática, isto significa que, do dia 15 de março até o final de maio – os ônibus transportaram apenas 20% dos passageiros que costumavam transportar. De junho a agosto, o percentual subiu para 25 a 30%, e a partir de setembro chegou a 54%. “Até hoje não conseguimos recuperar o percentual de passageiros de antes da pandemia”, lamenta Paulo Afonso.
A queda brusca no número de passageiros obrigou as empresas a reduzir, também, a frota de ônibus circulando pela cidade. De 350 veículos, 130 foram para a garagem (40%) e o tempo médio para que um ônibus passasse por um determinado ponto passou de 15 minutos para 30 minutos. “Reduzimos o número de veículos e o passageiro ficou mais tempo no ponto aguardando o ônibus passar. É claro que isto desagradou ao usuário, mas não tínhamos outra escolha”, pondera Paulo Afonso.
Para o empresário, o setor de transporte público – apesar de vital para a economia – não é tratado com prioridade pelas autoridades. A prova disto é o veto do presidente Jair Bolsonaro, à liberação de recursos emergências, da ordem de R$ 4 bilhões, aprovados pelo Senado e pela Câmara de Deputados, para a socorrer o setor. “Esses recursos seriam um fôlego em meio à dificuldade de respirar nesta pandemia”, avaliou, acrescentando que a única ‘ajuda’ (entre aspas mesmo) que as empresas tiveram na crise sanitária foi a suspensão temporária das obrigações tributárias e a flexibilização dos direitos trabalhistas.
Em abril, o governo federal instituiu o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, que possibilitou as reduções de jornadas e salários e ainda a suspensão dos contratos de trabalho. Por esse dispositivo, muitos trabalhadores passaram a receber 30% dos seus salários pelas empresas e os restantes (70%) eram pagos pelo governo federal. Também fez parte desse programa a desobrigação temporária do pagamento do FGTS por parte das empresas e a diminuição da carga tributária.
Em dezembro, porém, o programa emergencial foi encerrado e as empresas tiveram que voltar a arcar com seus compromissos. “O governo federal deu um alívio às empresas no início da pandemia. O compromisso dos 70% nos salários, pagos pelo governo, foi uma solução. Mas em setembro, as empresas tiveram que voltar a pagar o FGTS e muitas não tinham receita por conta da crise criada pela pandemia. A solução foi demitir e mesmo assim, muitos trabalhadores ainda não conseguiram receber suas rescisões”, contou Paulo Afonso.
Segundo ele, o risco de as demais empresas que atuam em Volta Redonda pedirem recuperação judicial aumenta a cada dia, e a explicação para isto é simples: “Como eu disse, o sistema vai parar. Já renegociamos dívidas existentes, pedimos prorrogação muitas vezes, negociamos e renegociamos com fornecedores. Não vamos conseguir esticar as dívidas por muito tempo. Os insumos estão caros, o diesel aumentou e o Sindicato não está conseguindo um acordo com os trabalhadores. Ninguém quer abrir mão de nada”, comentou.
O acordo de que Paulo Afonso está falando é o oferecido aos trabalhadores do setor, em dezembro. Nele, as empresas pagariam apenas 70% dos salários de janeiro a maio, e a partir de junho passaria a pagar os outros 30% de forma parcelada. Outra opção foi a redução de 15%, com a compensação mais pra frente. “Essas propostas não passaram na assembleia. Os trabalhadores não estão aceitando, o governo não dá subsídios, a situação está crítica. Precisamos encontrar uma solução”, concluiu.

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