‘Piorou o que era ruim’

Vinícius de Oliveira

O surto do coronavírus impôs ao país um debate que é inexistente – ou com menos importância – em outros lugares: isolamento ou não isolamento ou, pior, saúde versus economia. Empresários e comerciantes, preocupados com a queda das receitas, clamam pela reabertura de todas as lojas, o que ainda será discutido, segundo Samuca Silva, a partir de 27 de abril. A decisão do prefeito de Volta Redonda de não afrouxar as rédeas gerou um buzinaço ao lado do Palácio 17 de Julho, e muitos motoristas foram multados.

Provocou ainda a reação de políticos bolsonaristas, como o deputado federal Antônio Furtado (PSL), que promoveu uma enquete nas redes sociais para saber quantos na região são contra e quantos são a favor de que as lojas voltem a funcionar em plena pandemia. Por ele, como orientado pelo presidente Jair Bolsonaro, a vida tem que voltar ao normal, se é que isso será possível.

Enquanto os poderosos brigam ao volante de seus possantes carros e nas redes sociais, ninguém se levantou até agora para saber como estão se virando os idosos internados nos asilos.

Para que o leitor possa ter ideia, de acordo com Sales, responsável administrativo pelo Lar dos Velhinhos, uma das instituições de permanência de longa duração para idosos mais conhecidas de Volta Redonda, sem a ajuda do Poder Público, sua equipe tem se virado como pode para impedir a disseminação do vírus entre os internos que, vale lembrar, compõem o principal grupo de risco da Covid-19. “Não recebemos nenhuma ajuda do poder Público. Nem do governo Federal, nem do Estadual e, muito menos, do Municipal. Não fazem absolutamente nada, nada, nada”, enfatiza João Sales.

Sales, como é conhecido, é o presidente do Lar dos Velhinhos de Volta Redonda e conta que a população é a única responsável para que, até o momento, o asilo continue funcionando. “Quem tem respondido muito satisfatoriamente é a sociedade. A cada dia temos feito campanhas e temos sido muito bem atendidos. Inclusive, para depois que passar toda essa crise, determinei um ‘RDA’ (Reconhecimento dos Doadores Anônimos). Atualmente temos em torno de 14 pessoas e instituições que colaboram conosco. Inclusive, de forma voluntária, entram em contato com o asilo oferecendo ajuda”, contou.

Diante do cenário calamitoso causado pelo surto do novo corona-vírus, a situação do Lar dos Velhinhos nem é a pior, se considerar o que outros asilos do Rio de Janeiro estão enfrentando. De acordo com Sales, nenhum dos 70 idosos internados no Lar apresentou sintomas da doença, mas, nem por isso, a quarentena lá dentro foi desrespeitada. “Tomamos algumas medidas para evitar a proliferação aqui dentro. Basicamente sugerimos aos colaboradores com mais de 60 anos que ficassem em casa e o asilo continuará pagando normalmente seus salários. Temos duas pessoas que trabalham conosco que são do grupo de risco. Entendemos que por conta dessa condição é melhor que fiquem em casa”, ensinou Sales.

“Além disso, não há visitas. Elas foram suspensas assim como suspendemos os eventos coletivos, inclusive os religiosos”, continuou Sales, informando ainda que neste momento de pandemia novos ingressos estão proibidos. “Essa é uma determinação do Ministério Público justamente para evitar que pessoas já contaminadas com o vírus cheguem e transmitam para os outros”, informou.

O novo vírus conseguiu piorar o que já era precário para os idosos do Lar dos Velhinhos: a visitação da família. Sales contou que os ‘velhinhos’ sentem mais do que nunca a ausência de seus parentes, já que as poucas visitas que aconteciam em tempos normais foram totalmente suspensas para atender as exigências da quarentena. “Os idosos estão muito estressados por conta do afastamento, embora a visitação não seja uma constante mesmo. Mas eles sentem muito”, afirmou, explicando que a alternativa encontrada foi a video-conferência. “Geralmente o contato com as famílias é feito através de vídeo. Os parentes ligam e conversam”, revela.

O que também mudou dentro do asilo foram os hábitos de higiene dos colaboradores. “Medida extraordinária que posso citar é o uso de máscara. Não tínhamos esse hábito. Além disso, foi instalado um lavatório na entrada. Agora é obrigatório lavagem das mãos e também medição de temperatura com termômetro digital infravermelho. Qualquer um que apresente temperatura preocupante é obrigado a retornar para casa. Isso serve para visitantes, colaboradores e até para a administração”, revelou Sales.

As atividades lúdicas, tão importantes para a saúde mental dos idosos asilados, também foram comprometidas por conta do surto da Covid-19. “Infelizmente tivemos que suspender as atividades lúdicas, principalmente aquelas feitas coletivamente. Muitas foram canceladas. Como não temos nenhum caso (da Covid-19) entre os idosos, a gente procura fazer alguma coisa, embora de forma bastante reduzida para evitar os riscos”, explicou Sales.

Sem a colaboração do Poder Público, Sales teme pela manutenção do asilo. Diante do desespero, passou a defender o chamado isolamento vertical, uma medida proposta pelo presidente da República sem eficácia comprovada. “Tenho o temor de que talvez tenhamos que tomar medidas mais austeras. Que pode ser reduzir o nosso quadro de funcionários.

Porque está muito difícil. Eu acredito que, pelo menos com a informação que temos, o isolamento vertical poderia atender. Repito, se continuarmos assim, não sei como administrar uma casa com 55 empregos e 70 abrigados. Nossa folha de pagamento consome quase toda a nossa receita”, disse, temeroso.

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