Para poucos

Só dois hospitais da região oferecem ECMO; terapia (ainda) não tem cobertura pelo SUS, mas pode vir a ter

Pollyana Xavier

Dois em cada três pacientes infectados com Coronavírus internados em UTIs de hospitais públicos e privados em todo o Brasil morrem por complicações da Covid. Os dados são da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), que divulga diariamente a situação da ocupação dos leitos de UTIs por Covid no país. Equipamentos como respiradores, ventiladores pulmonares, oxímetros, desfibriladores, monitores multiparamétricos e eletrocardiógrafos ficam ligados 24 horas por dia aos pacientes. Exceto por um: o ECMO – uma espécie de pulmão artificial, a que só um pequeno grupo de pacientes abastados tem acesso.
O ECMO – sigla para Oxigenação por Membrana Extracorpórea ou extracorporal – é uma terapia de suporte de alto custo (tanto para montar quanto para manter), que funciona nos mesmos moldes de uma hemodiálise, com a diferença que o órgão beneficiado é o pulmão, e não o rim. O recurso é utilizado quando outras formas de recuperação dos pulmões já foram testadas, mas o paciente não apresenta melhora no quadro respiratório. Ele utiliza uma técnica de circulação com o auxílio de um motor, que faz circular o sangue fora do corpo, e depois regressa com ele para a corrente sanguínea. Enquanto o processo acontece, o pulmão do paciente fica em repouso, para se recuperar totalmente.
A técnica ficou bastante conhecida depois de ter sido utilizada no comediante Paulo Gustavo durante o período em que esteve internado num hospital particular no Rio. O artista chegou a apresentar melhoras significativas, mas acabou sofrendo complicações devido a uma fístula bronquíolovenosa, que resultou numa embolia pulmonar. Paulo Gustavo faleceu no dia 4 de maio, aos 42 anos. Antes dele, poucos pacientes no país – oito no SUS – receberam o tratamento da ECMO. Esses oito foram beneficiados por um experimento num hospital federal de Porto Alegre, em agosto do ano passado, por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS).
Em geral, a ECMO é uma tecnologia disponível apenas nos hospitais particulares. Por ser cara, muitos planos de saúde também não garantem a sua cobertura. Segundo o aQui apurou, um hospital precisa desembolsar cerca de R$ 50 mil para montar a técnica e outros R$ 30 mil diários para mantê-la funcionando. O preço inclui a operação do equipamento, que exige uma equipe multidisciplinar altamente capacitada e hospitais com capacidade de intervenção bem avançada. Além, claro, do uso de insumos, tubos, descartáveis, energia e vários medicamentos, especialmente anticoagulantes.
No caso do ator Paulo Gustavo, o histórico de internação divulgado em boletins médicos ajudou a divulgar o uso de uma técnica que já era praticada no Brasil há mais de 10 anos. A diferença é que, depois que o ator fez uso da tecnologia, médicos estão tendo um trabalho a mais, que é o de explicar às famílias que a ECMO não é um procedimento indicado para qualquer paciente. Os muito graves, com insufi-ciência respiratória aguda ou pacientes intubados, com uso de ventilação mecânica há muitos dias, não têm indicação para usar a ECMO. “A avaliação sobre o uso ou não da técnica é da equipe médica. A família pode até pedir, mas não é uma decisão dela”, defende a Organização Pan Americana de Suporte Extracorpóreo à Vida, em notas divulgadas à imprensa.
O caso do Sul Fluminense
A decisão pelo uso da ECMO em pacientes com Covid pode até não caber à família, mas isto não significa cruzar os braços diante da gravidade do quadro de um ente. E foi nessa máxima que a família do técnico de desenvolvimento da CSN, Raphael dos Santos Cândido, 33 anos, conseguiu uma decisão judicial para oferecer o suporte por ECMO enquanto ele esteve internado no Hospital Santa Cecília – a unidade de saúde que atende os trabalhadores da CSN.
Raphael sofria de bronquite asmática e, devido à evolução da Covid, precisou de internação no dia 25 de abril. Dois dias depois, ele foi para a UTI e em mais dois dias precisou ser entubado. A família conseguiu que o Juizado Especial Cível de Barra Mansa obrigasse o plano de Saúde oferecido pela CSN – o Liv Linhas Inteligentes de Atenção à Vida – a dispor da terapia da ECMO para Raphael. Mas, apesar da decisão, o paciente não recebeu o tratamento, porque o hospital não tinha – e, até prova em contrário, continua não tendo – a tecnologia. Raphael veio a óbito na madrugada de 9 de maio sem receber o suporte respiratório que a decisão judicial lhe favoreceu.
Um amigo de Raphael ouvido pelo aQui, mas que pediu para não ser identificado, contou que teria conseguido contatos de uma empresa que se dispôs montar o sistema ECMO no Santa Cecília, mas não obteve qualquer retorno do hospital. “O Raphael era meu amigo, precisava de um (sistema) específico. Conseguimos uma empresa que poderia montar para o Liv Saúde, mas eles sequer fizeram contato. A Santa Casa de Barra Mansa tinha condições de receber o Raphael, mas o Santa Cecília disse que ele não tinha condições de traslado. Estava muito grave”, lamentou.
Um segundo amigo de Raphael, também ouvido pela reportagem, foi além. Disse que teve acesso à decisão da juíza Denise Ferrari Maeda e viu que ela não só deferiu o pedido da família para que o plano de saúde providenciasse a cobertura da ECMO, como também estipulou uma multa diária no valor de R$ 10 mil no caso de não cumprimento da tutela. “É óbvio que eles não iriam cumprir a decisão. Eco-nomicamente falando, é mais barato pagar a multa diária do que desembolsar R$ 30 mil por dia para manter a ECMO em funcionamento. É revoltante tudo isto”, desabafou o amigo.
O caso de Raphael é parecido com o do voltarredondense Vinicius Tolentino Ferreira, também de 33 anos. Mas com um final feliz para Vinicius. Sua história é contada pela própria Unimed-VR, por ter vencido a Covid depois 42 dias internado, sendo 20 deles na UTI. Vinicius chegou a apresentar um quadro grave da doença, com uma gasometria em torno de 60 – o normal é acima de 95 –, indicando que o organismo não estava recebendo oxigênio como deveria. A família, então, foi procurada pela direção médica da Unimed-VR e informada sobre a terapia por ECMO. Vinicius foi submetido à técnica e conseguiu se recuperar.
Aliás, a Unimed-VR é o único hospital de Volta Redonda que oferece o sistema de Oxigenação por Membrana Extracorpórea. Além dele, a Santa Casa de Barra Mansa também tem a tecnologia. Em Resende, o Samer – adquirido pela Rede D’Or em 2019 – não oferece o tratamento; o Santa Cecília, em Volta Redonda, também não. Nenhum hospital público da região e do estado do Rio tem a ECMO. Na verdade, o SUS não dispõe mais da técnica para tratamento pulmonar. Já até ofereceu no passado, mas a oferta foi suspensa.
O pedido de suspensão partiu da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias do SUS (Conitec). Em relatórios apresentados ao Ministério da Saúde, a Comissão afirma que não se consegue fazer ECMO em alta escala pelo SUS devido à complexidade na montagem da técnica e os altos custos demandados. Para a Conitec, o uso da ECMO exige a implantação de centros especializados com alto grau de expertise; além disto, pacientes com complicações pulmonares agravadas pela Covid têm mais risco de desenvolver trombose e sangramento, pondo em xeque a eficácia do tratamento.
De acordo com a Conitec, é possível encontrar o sistema ECMO em hospitais do SUS apenas para tratamentos cardíacos de alta complexidade. Não pulmonares.

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