‘P1, não’

Especialista alerta para a chegada da nova variante do vírus; secretária de Saúde diz que Volta Redonda ainda está livre dela

Vinícius de Oliveira

Nos últimos meses, o Brasil tem chamado a atenção por conta das variantes da SARS-CoV-2 (em especial a linhagem P1) descobertas em Manaus, em pleno caos sanitário que se abateu sobre o município. O caso é tão sério que a cidade ganhou o apelido de capital mundial da Covid. Para o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, a P1 promete provocar uma megaepidemia no país em 60 dias. Para se ter uma ideia, já somam, de acordo com a secretaria estadual de Saúde de São Paulo, 25 casos provocados pela variante do coronavírus. Desses, diz a pasta, 16 são pessoas que não estiveram no Amazonas nem em contato com quem tenha viajado pela região. Ou seja, a nova linhagem está produzindo um número significativo de infecções autóctones, que ocorrem sem ‘importação’.
Como Volta Redonda se encontra, segundo o governo do Estado do Rio, ainda em bandeira laranja, ou seja, em situação moderada com relação à infecção, o jornal decidiu investigar se a nova variante do coronavírus estaria circulando pelo município, levando em consideração o fato de que a cidade do aço é um grande polo de convergência de pessoas vindas não só da capital, mas, também, de outras regiões do Brasil. Além disso, vale lembrar, a situação dos hospitais públicos daqui não é das melhores. O próprio aQui vem noticiando ao longo das semanas, com exclusividade, a dificuldade do governo local de disponibilizar oxigênio para a população por falta de “estrutura”.
Em nota, a secretária de Saúde, Conceição de Souza, garante que a linhagem P1 ainda não se fez presente em Volta Redonda. “Até o momento não foi identificada a circulação da nova variante do coronavírus em Volta Redonda. Os casos de Covid-19 estão sendo monitorados pelas unidades sentinelas do Estado do Rio que funcionam no Instituto Federal de Infectologia da Fiocruz e no Laboratório Central Noel Nutels (Lacen)”, disse Conceição, salientando que a SMS se mantém vigilante com relação ao comportamento do vírus. “A Secretaria Municipal de Saúde segue acompanhando o número de casos ocorridos no município, na rede hospitalar pública e privada, para avaliar o aumento ou decréscimo de internações”.
Conceição fez questão, inclusive, de avisar que o número de internações entre os casos caiu. A queda, segundo ela, pode estar relacionada à vacinação. “Dados estaduais dizem que o número de pessoas maiores de 90 anos infectadas começou a cair nas últimas semanas (0,7%); o que pode ter sido provocado pela vacinação deste público. Antes, a taxa de infecção desses idosos correspondia a 1% dos casos e preocupava pela gravidade, já que a evolução do quadro da doença muitas vezes levava a óbito”, pontuou.
Ela vai além. Diz que em Volta Redonda os jovens continuam menos propensos a desenvolver a forma grave da doença, o que seria, segundo a secretária, uma evidência de que a nova variante do vírus que, conforme apontam os especialistas, também se mostra perigosa para os mais novos, ainda não está circulando na região . “Outros dados estaduais, que também refletem o cenário de Volta Redonda, mostram que a taxa de infecção da Covid-19 nos menores de 19 anos é de 7% do total do número de casos notificados; taxa que tem se mantido desde o início da pandemia”, disse salientando, porém, que 12,5% das internações em 2021 são de pessoas entre 30 e 59 anos de idade.
Mesmo com números animadores, funcionários da linha de frente encaram com desconfiança a declaração de Conceição e fazem um alerta preocupado com as mudanças na forma como os pacientes vêm apresentando os sintomas. “Realmente, não podemos dizer com certeza que há uma nova variante por aqui, mas já percebemos um novo padrão. No início da pandemia, os casos graves que chegavam estavam no início da manifestação do vírus. Quem tinha manifestações leves ou assintomáticas permanecia assim até o final da virulência. Depois, houve uma leve queda da infecção no final do ano passado. Entretanto, o mais interessante de se observar é que atualmente os casos têm se mantido estáveis no início (leves, quase assintomáticos), fazendo com que o paciente não procure atendimento algumas vezes e depois de 10 dias aproximadamente, se desenvolve o quadro de comprometimento grave”, afirmou um médico que atende no CTI de um dos hospitais públicos de Volta Redonda que pediu para não ser identificado.
“Colegas da atenção básica relatam que no início da pandemia os pacientes procuravam com frequência as UBSF com sintomas de gripe leves ou moderadas (sinusite, tosse, cansaço, febre, etc). Cada caso apresentava um sintoma ou mais desse tipo e nem sempre evoluía com gravidade. Dependia muito dos fatores de risco (Diabetes, obesidade, entre outros). Hoje, a procura pela atenção básica diminuiu; como os casos estão se agravando depois de um período da contaminação com o vírus, o paciente só procura o atendimento quando já está com grande comprometimento”, continuou o médico, reforçando que a população precisa continuar procurando auxílio especializado nos primeiros sintomas. “O problema é que muitos até procuram ajuda no início, mas estão sendo liberados por estarem com sintomas leves e são obrigados a retornar quando já estão com indicação de CTI”, lamentou o profissional.
O médico pneumologista Gilmar Alves Zonzin, ex-presidente da Sopterj (Sociedade de Pneumologia e Tisiologia do Estado do Rio de Janeiro) concorda com a secretária de Saúde, mas prega muita cautela justamente para manter a variante bem distante de Volta Redonda. “É difícil afirmar [a existência da variante], porque a gente não tem controle microbiológico. Não tem esse dado do ponto de vista técnico. O que podemos inferir é com base no comportamento da pandemia e de forma comparativa. A sensação é de que aqui na região testemunhamos um platô. Ainda não percebemos casos parecidos com os encontrados em cidades onde essas variantes chegaram de forma robusta e aceleraram, de forma dramática, muito, muito explícita, a infecção. Caso a cepa P1 esteja por aqui, se desenrolou de forma pontual, através de casos isolados. Mas, como sabemos que tem muitas coisas envolvidas na apresentação da doença e na velocidade da infecção, é natural que haja uma sensação de angústia e insegurança. Ficamos com receio de passar por esse movimento catastrófico igual está acontecendo em outras regiões”, analisou o especialista.
Para Zonzin, não é hora de flexibilizar indiscriminadamente as medidas de segurança como, por exemplo, a reabertura de escolas, justamente para manter a infecção sob controle e, desta forma, não facilitar a transmissão da nova variante. “A vacina está chegando a conta-gotas. Por conta disso, eu teria uma postura mais contida, mais prudente, e aguardaria o desenrolar desses próximos meses ou, pelo menos, semanas, para determinar a reabertura das escolas. Sei que ficar sem aulas é uma situação horrível, mas já estamos assim há um ano. E agora já identificamos a presença da doença na sua forma grave em faixas etárias mais baixas, inclusive em crianças. Portanto, é preciso ter essa sensibilidade para vermos se o cenário vai mudar, se a pandemia vai acelerar, se vai ter aumento pediátrico ou não, e se vamos conseguir aumentar a cobertura vacinal. Me parece prudente procrastinar esse retorno. Estamos em momento de muitas dúvidas, justamente por isso a prudência sempre é o melhor caminho”, avaliou.
Com relação à diminuição de internação dos idosos, Zonzin alega que o fato nada tem a ver com a vacinação, pois a quantidade de idosos vacinados é mínima para representar um cinturão de imunização. “Não me parece pertinente, por uma questão matemática. O número de pessoas vacinadas é irrisório para que a gente possa dizer que refletiu nos casos de internação. O que pode explicar a diminuição da infecção grave em idosos é o fato de que a maioria deles realmente está ficando em casa. Em países como Israel, já se pode identificar reflexos positivos porque um número gigantesco de pessoas já foi vacinado”, observou o pneumologista.

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