Nunca é drama

Roberto Marinho

As pessoas que convivem com algum sofrimento ou transtorno mental, além de lutar contra as dificuldades que isso provoca no dia a dia, ainda têm que lidar com o preconceito da sociedade. Muitas vezes, da própria família. Falar de qualquer distúrbio mental ainda é um tabu, embora tenha havido alguns avanços. Por isso, campanhas como a do Setembro Amarelo – mês de prevenção ao suicídio – são importantes. Ainda mais agora, quando as preocupações com a Covid-19 e o distanciamento social geram uma imensa pressão sobre todos. E provocam um aumento na procura pelos serviços de saúde mental. Pior. Aumento do número de suicídios.
Embora os responsáveis pelo serviço de Saúde Mental da prefeitura de Volta Redonda prefiram não divulgar os números exatos – até porque, segundo eles, não há registros precisos -, existem sinais de que os casos de suicídio vêm aumentando ao longo dos meses. “O sofrimento da pandemia, do isolamento, traz às pessoas muitas inseguranças, muitas dores. E isso realmente aumenta as possibilidades de tentativas de suicídio”, afirmou Suely Pinto, coordenadora do setor da secretaria de Saúde.
Ela confirmou ao aQui que houve sim um aumento da procura pelo serviço desde janeiro, quando assumiu o cargo. “Aconteceu uma coisa interessante: não se falava muito sobre o sofrimento mental, nem mesmo na própria família. Com a pandemia, parece que as pessoas compreenderam isso melhor, então estamos tendo uma procura muito grande”, disse Suely.
Tem mais. Ela ressaltou que a rede municipal de saúde tem psiquiatras de plantão 24 horas no Hospital Dr. Nelson Gonçalves (antigo Cais Aterrado), que centraliza o atendimento desses casos no município, e ainda os Caps (Centros de Assistência Psicossocial), que são as unidades básicas da saúde mental e que funcionam durante a semana. Mas, segundo ela, o sistema de atendimento estava completamente desmobilizado, desde a gestão do ex-prefeito Samuca Silva. “O que estamos fazendo é reconstruir o serviço de Saúde Mental de Volta Redonda”, afirmou.
Prestar atenção um no outro
O enfermeiro William Aquino, coordenador do acolhimento – serviço que faz o primeiro atendimento da Saúde Mental no antigo Cais do Aterrado -, disse que não há dados dos anos anteriores para comparação, mas um levantamento feito na unidade mostrou que o número de casos de suicídios e tentativas é bem expressivo. “Não há dados da gestão passada, mas fizemos um levantamento desses primeiros seis meses aqui no Hospital Dr. Nelson Gonçalves e está sendo feito em outras unidades, com as tentativas de suicídio, ideação suicida, e autolesão também. Vimos que tem um cenário bem representativo”, afirmou.
Segundo ele, as vítimas de suicídio têm um perfil parecido. “O suicídio atinge predominantemente um público jovem adulto, de 15 a 29 anos, economicamente ativo. Isso é um cenário mundial, e nosso município não diverge disso”, pontuou, destacando que o que vem acendendo um alerta é que a idade das vítimas é cada vez menor. “Aqui em Volta Redonda temos observado, mas ainda não computamos dados sobre isso, que pessoas cada vez mais jovens estão entrando nessas estatísticas. Os adolescentes, principalmente, podem estar sendo influenciados pela pandemia. Então é um novo cenário que está se montando e nos leva a pensar em estratégias para lidar com isso”, apontou.
Para William, é necessária uma mudança de mentalidade ao acolher as pessoas em sofrimento mental, para que o caso não se torne cada vez mais grave a ponto de a pessoa querer tirar a própria vida. “O que a população precisa entender é que suicídio não é drama, não é ninguém querendo chamar a atenção. Essa pessoa precisa de atendimento. Não podemos julgar, temos que oferecer a escuta. Porque não sabemos o cenário em que essa pessoa vive. Estamos lidando agora com pandemia, desemprego, isolamento. Então tem vários fatores que podem levar à depressão, evoluindo para uma ideação suicida”, salientou.
Ele vai além. Disse que é importante estar atento aos sinais, como os de mudança de humor e comportamento, além de escutar com sensibilidade as queixas de sofrimento. “A maioria dos casos se consegue identificar pelo comportamento da pessoa, que dá sinais das intenções dela, seja pelo comportamento, pelo humor, pelas falas. E até mesmo o relato do sofrimento, que muitas vezes é menosprezado por parentes e amigos. O que podemos fazer é oferecer escuta, ficar atento a essa pessoa. O que precisamos é valorizar mais a vida, o ser humano. E se doar mais porque nesse momento que estamos vivendo, as fragilidades do mundo atual, é isto que a gente precisa, ser acolhido. Ser acolhido pelo serviço de Saúde, pela família, amigos”, disse ele, que completou: “A gente precisa prestar atenção um no outro”.
William faz outro alerta: “Uma coisa importante é que quem já tentou o suicídio tem mais probabilidade de vir a tentar novamente, então essas pessoas merecem atenção redobrada”, avaliou, salientando que somente escutar a pessoa em sofrimento mental não é a única providência a ser tomada. “Se por acaso a gente desconfiar, notar alguma mudança no comportamento, devemos oferecer a escuta, apoio, mas não só isso: devemos acompanhar essa pessoa até um centro de Saúde mais próximo, que no caso de Volta Redonda são os Caps”.
O coordenador do acolhimento explicou que a rede pública de atendimento em Saúde Mental de Volta Redonda tem um Caps para atendimento infantil e outros três para adultos, além de um para álcool e drogas (Caps-AD). “Temos também uma unidade ambulatorial (Hospital Dr. Nelson Gonçalves) e as unidades de emergência, que atendem quando há a tentativa de suicídio”, informou.
Confira onde procurar ajuda em Volta Redonda:
Hospital Dr. Nelson Gonçalves (antigo Cais Aterrado) – Rua Paulo Leopoldo Marçal, 298 – Aterrado
Caps (Centros de Atenção Psicossocial):
Vila Esperança – Rua 93C Nº 193 – Vila Santa Cecília
Usina Dos Sonhos – Av Mariana Do Carmo Reis, 283 – Vila Mury
Viva Vida – Av. Amazonas,175 – Vila Mury
Belvedere – Av. Álimo Antônio Francisco, 243 – Conforto
Caps AD (Álcool e Drogas) – Rua 02,101/102 – Conforto

 

CVV oferece apoio 24 horas
Outro serviço onde as pessoas com algum tipo de sofrimento mental ou angústia podem procurar ajuda é o CVV (Centro de Valorização da Vida), que oferece atendimento gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio. O CVV atende pelo número 188, mas também por chat ou e-mail, por meio do endereço eletrônico www.cvv.org.br.
A instituição é associada ao Befrienders Worldwide, que congrega entidades parecidas de todo o mundo, e participou da força tarefa que elaborou a Política Nacional de Prevenção do Suicídio, do Ministério da Saúde. Desde 2015, o CVV mantém um termo de cooperação com o Ministério para o funcionamento da linha gratuita nacional de prevenção do suicídio.
O CVV foi fundado em São Paulo, em 1962, e é uma associação civil sem fins lucrativos, filantrópica, reconhecida como de Utilidade Pública Federal desde 1973. Além dos atendimentos, o CVV desenvolve em todo o país outras atividades relacionadas a apoio emocional, com ações abertas à comunidade. A instituição realiza cerca de 3 milhões de atendimentos por ano, contando com aproximadamente 4 mil voluntários, distribuídos em 24 estados, além do Distrito Federal.

 

Após polêmica com transmissão ao vivo de suicídio TikTok, anuncia mudanças
O aplicativo de vídeos instantâneos TikTok, lançado em 2016, virou uma febre mundial. Recentemente, de acordo com levantamento feito por uma consultoria especializada (App Anne), a plataforma ultrapassou o Youtube nos EUA e no Reino Unido, em relação ao tempo médio de vídeos assistidos pelos usuários. Todo esse poder não livrou o aplicativo de uma enorme polêmica, quando em 2020 permitiu que um usuário transmitisse o próprio suicídio ao vivo.
Agora, o TikTok anuncia uma série de recursos para ajudar os usuários com problemas de saúde mental e pensamentos suicidas, e também expandiu o conteúdo de prevenção a transtornos alimentares. Entre as medidas estão guias desenvolvidos em conjunto com entidades especializadas, e uma ferramenta que vai direcionar a serviços de suporte os usuários que pesquisarem a palavra suicídio. No Brasil, o guia indica o Centro de Valorização da Vida (CVV), no telefone 188.
“Embora não permitamos conteúdo que promova, glorifique ou normalize o suicídio, a automutilação ou os transtornos alimentares, apoiamos as pessoas que optam por compartilhar suas experiências para aumentar a conscientização, ajudar outras pessoas que possam estar lutando e encontrar apoio em nossa comunidade. É por isso que estamos tomando medidas adicionais para tornar mais fácil para as pessoas encontrarem recursos quando precisam deles no TikTok”, afirmou a diretora de políticas do TikTok para os Estados Unidos, Tara Wadhwa, no comunicado onde anunciou as mudanças.

 

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