No grito

Dinho se descontrola na Câmara e faz ameaças contra vereadores da base do prefeito Samuca Silva

Por Vinicius de Oliveira

A Câmara de Volta Redonda rachou de vez. O que antes não passava de uma rivalidade política entre vereadores da base versus oposição ganhou contornos violentos depois que Sidney Dinho, na sessão de terça, 20, mostrou toda a sua fúria e revolta contra alguns colegas do atual Parlamento, com quem convive há quase quatro anos. Sobrou até para Samuca Silva. Motivo: a implantação do estacionamento rotativo no Retiro, um dos redutos eleitorais do ex-policial.

Quando Dinho se deu conta de que não tinha conseguido os votos suficientes para derrubar o veto do prefeito (mantido por 9 a 6) e, assim, barrar o rotativo nas ruas e avenidas do Retiro, ele se descontrolou. “Eu estou com vergonha de ser vereador diante dos senhores. Acabou a consideração. Vergonha de ser vereador junto com os senhores que votaram contra a população do grande Retiro. Pra mim, vocês são lixo da sociedade. Não há que ter consideração por pessoas que fazem isso. Capacho do prefeito”, desabafou. “Todas as vezes que os senhores precisaram, bateram no ombro desse vereador e pediram um voto, este vereador esteve com  vocês. Acabou o companheirismo”, avisou.

Dinho foi além. Deixou claro que vai passar a difamar os colegas (que votaram contra o projeto dele). “Todos capachos do prefeito. Votaram contra a população da margem esquerda do Retiro. Vocês são a vergonha da representação da população de Volta Redonda e vão ter que carregar isso pelas ruas, porque, por onde eu passar, eu vou falar”, ameaçou, citando os que o teriam decepcionado. “O nome dos senhores, liderados pelo vereador Maurício Pessoa, acompanhado pelo senhor, vereador Laydson. Uma vergonha pra tua igreja. Acompanhado por vereadores que aqui estão e que eu nem vou citar o nome. Fernando Martins, que vem passando a dificuldade que vem passando. Pode falar o meu. Falem o meu mesmo. Rodrigo Furtado, votei contigo pra acabar com isso no Santo Agostinho e vocês fizeram essa covardia com a margem esquerda”, lamentou.

Irado, Dinho não teve pudores e fez questão de gravar em vídeo cada palavra que gritava no microfone. Depois de avisar que iria difamar os que votaram contra ele, o parlamentar fez uma ameaça perturbadora. “Eu quero ver justificar como vocês estão fazendo as campanhas. Cuidado com o que vão abrir a boca pra falar de mim, hein? Cuidado, hein?!”, ameaçou, sem medir as palavras, ignorando o decoro e deixando transparecer o velho Dinho PM, que estivera até então adormecido.

Em setembro, Dinho chegou a obter apoio suficiente para derrubar a implantação do rotativo no Retiro através de um Projeto de Lei de sua autoria. Na época, os 15 vereadores presentes na sessão votaram com ele. Contudo, quando o PL seguiu para sanção do prefeito, foi vetado e acabou voltando para que o veto fosse apreciado no Parlamento. Dinho estava certo de que o veto seria derrubado, mas não foi o que aconteceu. Os vereadores da base seguiram a decisão de Samuca, frustrando o PM da reserva, fazendo seus olhos sangrarem de ódio.

O curioso é que Dinho votou a favor da cobrança do estacionamento nos outros bairros de Volta Redonda. Ele deve ter se esquecido, mas foi na sessão do dia 14 de dezembro de 2017, quando era, inclusive, o presidente da Casa. Na data, sob a sua batuta, os vereadores aprovaram o rotativo por unanimidade. Quem quiser conferir a votação, basta acessar o site da Câmara, na seção ‘Galeria de Vídeos’.

 

Gasolina na fogueira

O vereador Neném, atual presidente da Câmara, em vez de aplainar os ânimos, preferiu jogar combustível na fogueira. “Eu também me sinto envergonhado. Envergonhado com dois vereadores, porque os vereadores, a mando do mau caráter desse prefeito, vão lá e fazem um projeto igualzinho a de colegas nossos e dão entrada na secretaria aqui, achando que esse presidente, nosso jurídico não está acompanhando isso não. Tá votando contra você, Sidney, ele mesmo fez o projeto de ir pro Santo Agostinho e você votou com ele”, criticou Neném, referindo-se, principalmente, a Rodrigo Furtado, que se tornou o braço esquerdo de Samuca na Casa (o direito ainda é Maurício Pessoa, líder do governo).

A crítica de Neném tem a ver com o Projeto de Lei que Rodrigo Furtado apresentou para que o rotativo não fosse criado no Santo Agostinho, e que foi aprovado por unanimidade ainda em setembro, mesmo período do PL de Dinho sobre o Retiro. Para Furtado, são situações diferentes. “O Santo Agostinho, embora tenha um comércio fortalecido, ainda é um bairro predominantemente residencial. Na maioria dos casos, os moradores são os donos dos estabelecimentos e também os compradores. Lá também tem muitas escolas e os professores não contam com estacionamento. Bem diferente do que acontece no Retiro”, explicou.

Com relação ao descontrole de Dinho e às críticas veladas de Neném, Rodrigo afirmou que ambos estão equivocados. “O Retiro é um bairro comercial de grande porte. Se equipara a outros como Vila Santa Cecília e Aterrado. Todos têm fluxo muito grande de motoristas, justamente por conta do comércio forte que tem no Retiro. Ao contrário do que os dois estão tentando vender para a população, ninguém votou contra os moradores do Retiro. Muito pelo contrário. Manter o rotativo no bairro é um desejo de vários empresários”, garantiu o vereador.

Segundo um levantamento feito pelo próprio Rodrigo Furtado, a qual o aQui teve acesso, o empresariado defende que se implemente o sistema rotativo no Retiro para que o cliente sempre encontre uma vaga para estacionar seu carro. “A grande maioria dos carros estacionados na principal do Retiro são de lojistas ou de seus funcionários. E isso atrapalha, porque o pessoal quer comprar aqui e não acha vaga. Então, eu sou a favor do rotativo, tendo um preço justo”, afirmou um dos representantes de uma loja de tintas.

 

Versão de Marcelo Moreira

Novato no Parlamento, Marcelo Moreira fez questão de postar nas redes sociais a sua versão para a polêmica sobre a implantação do estacionamento rotativo no Retiro. Veja abaixo o que ele escreveu: 

“VERDADE SOBRE O ESTACIONAMENTO ROTATIVO DO RETIRO

  1. O estacionamento rotativo do Retiro foi criado em 2018, na lei 5.443 de 2018, aprovada na Câmara por ampla maioria dos vereadores, na mesma lei que criou o rotativo em toda a cidade. (Eu não era vereador a época, mas pelo que li, teria votado a favor da criação)
  2. O que foi votado no dia 20/10/2020 era o veto que se permitiria acabar com o estacionamento rotativo do Retiro. 

Meu voto como vereador foi de não permitir que  acabassem com uma futura implantação do rotativo no Retiro, por entender que o rotativo a preços justos é benéfico ao comércio.

Sou autor de um projeto de Lei n° 77/2020, que altera a lei 5.443 do estacionamento rotativo:

  1. a) Reduz o valor da tarifa verde(bairro Retiro) para 50% da Azul que hoje é 2,50.  Passando a tarifa do Retiro para 1,25 a hora. 
  2. b) Concede 15% de desconto para quem usa aplicativo:  

Azul = 2,15 a hora 

Verde = 1,06 a hora

  1. c) Permite 72h para regularizar os débitos antes de serem multados.
  2. d) Permite 15 minutos de tolerância no estacionamento rotativo sem a obrigatoriedade de estar no veículo”.

 

Mudanças anunciadas
O quebra-pau na Câmara levou a prefeitura de Volta Redonda a promover algumas mudanças para tentar melhorar o serviço oferecido pela empresa que opera o VR  Parking. A primeira foi a instalação de dois  pontos fixos (contêineres) de atendimento aos motoristas. Um deles foi colocado na Avenida Amaral Peixoto, no Centro, embaixo do Viaduto Heitor Leite Franco. O outro, na Rua 14, na Vila, em um péssimo local, é que bom que se frise: na praça da Biblioteca Municipal Raul de Leoni, o que enfeou ainda mais a tradicional pracinha. 

Nos novos locais, os  motoristas poderão fazer a compra e a ativação do serviço de estacionamento rotativo, além de tirar dúvidas, fazer sugestões e resolver outras questões relacionadas ao serviço. A previsão é que passem a operar já na semana que se inicia, de segunda a sexta, das 8 às 18 horas, e aos sábados, das 8 às 14 horas.
O diretor do VR Parking, César Mourão, explicou que está em estudo a instalação de pontos fixos também em outros locais, como na Rua 33 e na Praça Brasil.   
Retiro

A implantação do sistema de estacionamento rotativo VR Parking na chamada Zona Verde, que contempla os bairros Retiro, Santo Agostinho, 207 e Ponte Alta, será discutida e, se realizada, implantada somente após a pandemia da Covid-19. Atualmente o serviço funciona na Zona Azul, envolvendo as principais ruas e avenidas com maior rotatividade dos bairros Vila Santa Cecília, Centro e Aterrado.
“Devido à pandemia, todo o cronograma de implantação do VR Parking teve que ser alterado. Iniciamos as demarcações das vagas no Retiro para evitar o período chuvoso, mas a operação iniciará somente a partir de 2021”, explicou o presidente EPD-VR, Matheus Moreira.

Na fogueira

O empresário Marcelo Moreira (PSC) sempre esteve ligado à política e saiu dos bastidores para ocupar uma cadeira no Parlamento de Volta Redonda com a cassação do mandato de Paulinho do Raio-X. Foi jogado em uma fogueira e se assustou na sessão da noite de terça com o destempero de um ex-presidente da Casa de Leis, o vereador Sidney Dinho. 

Em entrevista exclusiva ao aQui, Marcelo revela como é ‘estar do outro lado’, ser vitrine e como mudar a opinião dos eleitores sobre os políticos. Candidato à reeleição, o empresário, ex-presidente da CDL Jovem, ex-presidente do Lar dos Velhinhos de Volta Redonda, não deixa por menos: “Vamos criar leis que sejam constitucionais para o bem da população”, disse, ao ser provocado a falar sobre o fato da Câmara de Vereadores ser campeã em leis inconstitucionais.            

aQui: Com apenas alguns meses na Câmara, como o senhor analisa o Poder Legislativo de hoje em Volta Redonda, principalmente depois do escândalo envolvendo um vereador, que chegou a ser preso em flagrante acusado de tentar extorquir o prefeito? 

Marcelo: Meu compromisso é com Volta Redonda. Desde que assumi minha cadeira no Legislativo, tenho procurado cumprir meu papel de trabalhar pela população. Respeito muito o dinheiro público, por isso abri mão de carro, cota de combustível, celulares e plano de saúde. Meu mandato está e estará sempre voltado para qualificação e capacitação do trabalhador, incentivos para os pequenos empresários, desburocratização dos processos de regularização, criação do programa Empreendedor do Futuro; melhoria das condições de trabalho dos profissionais da saúde, da educação e dos servidores públicos como um todo, ampliação permanente da rede de serviços públicos; 

aQui: O senhor sabe que a Câmara de Volta Redonda é campeã em leis inconstitucionais? Como mudar este quadro? 

Marcelo: Da minha parte, apresentei e apresentarei leis que obedeçam aos princípios constitucionais. O PL 60/2020, por exemplo, cria o “Programa de Recuperação Econômica de VR – Primeiro Volta Redonda”. Temos ainda o PL 62/2020 que vai permitir ao Executivo repassar verbas ao Lar dos Velhinhos de Volta Redonda. Outro é o PL 66/2020 que concede prioridade ao sistema de saúde aos portadores de deficiência física ou mental,  ainda o PL 77/2020 que acaba com a aplicação de multas abusivas no VR Parking, são alguns exemplos de que, criando leis constitucionais, podemos sim, trabalhar em prol da comunidade. 

aQui: Os vereadores têm ciência da existência do E-SUS? 

Marcelo: Não posso falar por toda a Câmara. Entendo que o processo de informatização dos serviços será de grande valia para a população, melhorando e qualificando o atendimento. Se houver necessidade, a princípio, entendo que o projeto não depende da atuação da Câmara para sua implementação, mas de qualquer jeito estarei pronto para fazer minha parte no interesse maior da população que utiliza o sistema. Vamos ajudar a expandir o E-SUS para cadastrar todas as famílias de Volta Redonda para que o repasse de verbas do SUS não sofram nenhuma queda no ano que vem.  

aQui: O senhor não acha que está na hora de mudar os critérios de concessão de medalhas e títulos para realmente homenagear aqueles que fazem algo pela população ou pelo município? Não estaria na hora de acabar com a farta distribuição de honrarias, medalhas e canudos?

Marcelo: Enquanto vereador, busco reconhecer e homenagear a dedicação das pessoas e entidades que prestam serviços às comunidades, benfeitorias ou que se destacam por alguma atividade realizada. Não me desviarei deste alinhamento.

 

aQui: Como o vereador tem convivido com o poder dado às associações de moradores? Deixou de ser um mero despachante e virou despachante de luxo?

Marcelo: O poder das associações de moradores é legítimo, já que são os líderes mais próximos da população. Como representante eleito, o diálogo com essas lideranças sempre estará aberto no meu mandato. É preciso ouvir, ponderar e encontrar as melhores soluções para que possamos oferecer ainda mais qualidade de vida para os cidadãos. 

 

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