Dá pra entender?

Médicos prometem deixar Hospital São João Batista na véspera de finados; prefeitura diz que está tudo bem

Por Roberto Marinho

O maior hospital de emergência do Sul Fluminense está na UTI do Palácio 17 de Julho e só sobrevive se um remédio de tarja preta for liberado pelo prefeito Samuca Silva até o próximo dia 31, sábado. O remédio em questão é o real. E o chefe do Executivo vai precisar de doses maciças de dinheiro para quitar os salários dos médicos da unidade, novamente atrasados. A crise é tão feia que a equipe médica do hospital anunciou que vai deixar de cumprir os plantões a partir de 1o de novembro, véspera do feriado de Finados, alegando falta de condições de trabalho.

Na carta, enviada a todos os jornais, os médicos voltaram a denunciar a falta constante de materiais básicos, como luvas e gases, medicamentos, analgésicos, antihipertensivos, antibióticos, anestésicos, fios de sutura, lençóis e até copos descartáveis. Pior. Segundo eles, a crise se arrasta há meses, sem qualquer ação efetiva da secretaria de Saúde de Volta Redonda no sentido de obrigar a direção da OS AFNE (Associação Filantrópica Nova Esperança) a cumprir as promessas que vêm sendo feitas e não cumpridas desde o fim do ano passado.

O comunicado da equipe médica do HSJB cita, por exemplo, o pedido de demissão dos terceiros clínicos (parte da equipe médica de plantões da unidade, grifo nosso) em julho, por causa da falta de condições de trabalho e a sobrecarga de atendimento para os casos da Covid-19. Na época, depois de uma tensa reunião entre os médicos, a secretária de Saúde e a direção da OS, foram feitas promessas de pagamento em dia, compra de insumos para o hospital, e melhores condições de trabalho. Só que, segundo a equipe médica do São João Batista, nada foi feito. “A situação piorou. Até cirurgias estão sendo feitas no improviso diante da falta de materiais”, contou um deles, pedindo anonimato.
Outro médico deu mais detalhes: “Hoje, três meses após essa reunião, as condições pioraram. E as constantes e instáveis mudanças na administração do hospital entre a OS e a prefeitura deixam toda a equipe de funcionários sem rumo e direção”, afirma, lembrando que o centro cirúrgico do HSJB – referência em urgências e emergências no Sul fluminense – está trabalhando com metade da capacidade, pois faltariam materiais básicos como anestésicos, analgésicos e antibióticos, além de carrinhos de anestesia e focos cirúrgicos (iluminação para as cirurgias, grifo nosso) estarem em péssimo estado.

Os profissionais denunciaram ainda que na terça, 20, não havia luvas, gesso para imobilizações e anestésicos no Pronto Socorro. Por conta disso, eles afirmaram que o atendimento foi suspenso neste dia pelos cirurgiões de plantão – em comum acordo com as equipes de anestesia e ortopedia, frisa a nota -, quando estes indicaram uma cirurgia de urgência e descobriram que não havia anestésico para realizar o procedimento. “Existem hoje colegas que trabalham há 30 anos na casa e afirmam que nunca passaram por tamanha falta de material”, pontuam os médicos, que fazem uma cobrança direta ao prefeito Samuca Silva: “Como pode um prefeito que se diz gestor terceirizar a gestão e, ao ser constantemente cobrado pela equipe médica, nada faz?”.

Além disso, segundo os profissionais, a OS AFNE estaria condicionando o pagamento de setembro – atrasado há mais de um mês – à assinatura de um contrato, de acordo com os médicos, com data de fevereiro, “com inúmeras cláusulas questionáveis”. Eles também afirmam que ficaram sabendo da mudança na direção do hospital – o médico Rodrigo Valério assumiu o lugar de Caio Larcher – por meio da imprensa. “Não houve comunicação disso para a equipe de médicos e para a coordenação”, pontua a nota.
Os médicos também relatam que procuraram manter o diálogo com a direção do hospital, “porém sem resolução dos problemas”, e acrescentaram que o ex-diretor Caio Larcher, quando questionado sobre a falta de condições de trabalho e de resolução dos problemas, respondia que “os insatisfeitos saíssem do serviço”. “Visto tudo isso, nós, médicos clínicos e terceiros clínicos do Pronto Socorro Adulto do HSJB, viemos entristecidos comunicar a nossa saída dos plantões do HSJB a partir do dia 01/11/2020. Deixamos nossos plantões a disposição da coordenação”, finaliza o comunicado dos médicos. Ontem, sexta, 23, no fechamento da edição, a informação que correu nas redes sociais é que os médicos do Hospital do Retiro iriam fazer o mesmo.

Procurado, o prefeito Samuca Silva enviou uma nota sobre a situação. “A secretaria de Saúde de Volta Redonda está atuando junto a transição de gestão dos hospitais do Retiro e São João Batista. Tendo em vista o fim dos contratos com as Organizações Sociais. O prazo para que total transição seja concluída é de novembro. Duas comissões de transições foram criadas para atender as unidades, visando garantir as unidades não fiquem desabastecidas e desassistidas durante a transição e que a rotina do setor seja reorganizada para voltar a realizar as cirurgias eletivas”, disse para completar:
“Na terça-feira, dia 20, foi realizada uma reunião com a Defensoria Pública para pactuar as tratativas desses contratos com a Associação Filantrópica Nova Esperança (Anfe) que atende a HSJB e a Associação Mahatma Gandhi, responsável pela administração do Hospital do Retiro. Ficou estabelecido como seria a manutenção dessa transição para garantir o acesso a saúde da população e para que ela não seja prejudicada em função dessa mudança. No momento não há prejuízo de assistência à saúde da população”.

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