“Ninguém será obrigado”

Pesquisador da UFRJ fala da eficácia de Anitta no tratamento da Covid-19

Por Pollyanna Xavier

Ex-presidente do Instituto Vital Brazil, o médico infectologista e professor da UFRJ, Edmilson Migowski, é o nome por trás do convênio que Samuca assinou na segunda, 29, para tratar pacientes da Covid-19 com o Nitazoxanida. Respeitado pela comunidade médica e científica, Edmilson esteve em Volta Redonda no início da semana para apresentar um ensaio clínico do medicamento antiparasitário popularmente conhecido como Anitta. O remédio promete uma redução na carga viral em pacientes infectados já no primeiro estágio da doença. 

Edmilson Migowski conversou com o aQui sobre o estudo e deixou claro que a medicação oferece uma nova metodologia no tratamento de pacientes infectados. Confira a entrevista com o médico na íntegra. 

aQui – O uso da Nitazoxanida seria profilático ou sua indicação é apenas para tratamento em curso?
Dr. Edmilson Migowski – A proposta em relação ao uso da Nitazoxanida é o tratamento precoce, nos primeiros sinais e sintomas da Covid-19. O uso profilático até pode ser feito, mas em situações muito, muito, mas muito específicas, como por exemplo, quando você tem dois casos em um asilo e aí o contactante direto, de alto risco, precisa. Mediante a situação é preciso avaliar o uso profilático, mas isto é algo muito restrito e, portanto, bastante criterioso. A princípio, a gente está estabelecendo o uso precoce frente os primeiros sinais e sintomas da Covid.19. 

aQui – Por que o Nitazoxanida é eficaz no tratamento de pacientes com a Covid-19? Como ele age?
Edmilson – Em relação à Nitazoxanida para o tratamento para a Covid-19, eu ressalto que tem quatro mecanismos de ação. Primeiro: esse produto diminui a produção da interleucina 6, que é uma substância que o organismo produz por conta da infecção por esse novo Coronavírus e provoca uma resposta inflamatória muito exuberante e é uma das responsáveis pelo agravamento do quadro clínico, pulmonar principalmente. Esse medicamento inibe, ou reduz, melhor dizendo, a produção de interleucina 6 no organismo, que aliás é o mesmo papel da Hidroxicloroquina. O segundo mecanismo de ação é que o medicamento estimula a produção de interferon, que atua como um antiviral inespecífico, aumentando a defesa natural. O terceiro mecanismo de ação é que o Nitazoxanida entra na célula humana e diminui o metabolismo mitocondrial e a mitocôndria é a estrutura celular que produz energia. Numa célula infectada pelo vírus, essa invasão que vai fazer com que essa célula produza as partículas virais, será uma célula que está com baixa energia, o que a torna uma baixa produtora das partículas virais. Esse processo atrasa a formação do vírus. Então, baixar a imunidade e o metabolismo mitocondrial ajuda na redução da replicação viral. Já o quarto mecanismo conhecido é que esse produto inibe a enzima do vírus que é responsável pela produção de uma proteína chamada proteína S, S de Sol, e essa proteína é uma proteína estrutural do vírus. Então, se o vírus entrar na célula, vai se replicar de forma mais lenta e, se replicando e saindo dessa célula, pode ser que ele saia defeituoso, incapaz, ou impotente, ou menos potente para invadir novas células e infectar outras pessoas. A ação antiviral da Nitazoxanida não é específica ou exclusiva para a Covid. Ela acaba tendo uma ação antiviral para vários outros vírus respiratórios. Dessa forma, se você avaliou o paciente e disse que era Covid-19 e você errou no diagnóstico, é um outro vírus qualquer como o da Zika, Chikungunya, Febre Amarela, ou um vírus que causa a gripe ou resfriado, você ainda assim vai ter uma ação antiviral, já que Nitazoxanida é um antiviral de amplo aspecto. 

aQui – Pacientes com condições crônicas de saúde (diabetes e hipertensão) podem fazer uso da medicação? Ele é eficaz mesmo em organismos debilitados?
Edmilson – Pacientes com condições crônicas, como diabetes e hipertensão, podem fazer o uso do medicamento, sim. É importante nessas pessoas de alto risco que se mediquem o mais precocemente possível.

aQui – O prefeito de Volta Redonda, Samuca Silva, disse que os pacientes que fizerem o uso do Nitazoxanida serão acompanhados pela UFRJ. Esse acompanhamento é parte do estudo? Com perdão da palavra, os pacientes seriam cobaias?
Edmilson – Pacientes vão ser acompanhados por profissionais da UFRJ, médicos, enfermeiros e professores. Na verdade, não é um estudo, é uma nova conduta adotada por esses estudiosos no assunto. Em relação à medicação, eu já fiz em mais de 300 pacientes na fase inicial, tem vários lugares que esse produto vem sendo utilizado com redução da morbidade e de mortes. As pessoas serão convidadas a assinar um termo para participar do tratamento, já que é um tratamento off label e, se porventura, o paciente não quiser tomar o medicamento, não toma. Ninguém vai ser obrigado a fazer o uso de uma medicação off label. É um medicamento seguro, que já que foi utilizado em mais de 250 milhões de pessoas no mundo inteiro e tem uma experiência muito boa em pacientes com a Covid-19. Inclusive, esse medicamento faz parte de pesquisas conduzidas por mim na UFRJ, uma delas é que está sendo feita em Mesquita. Ou seja, é o mesmo produto que o Ministério da Ciência e Tecnologia vem testando em pacientes com a Covid-19. Em relação a ser cobaia, o paciente pode não querer tomar o medicamento e é um direito dele porque é uma medicação off label. Se ele não tomar o medicamento, vai continuar tomando outros remédios para evitar a dor, a febre, mas que não interferem diretamente na Covid-19. Eu destaco que qualquer medicamento tipo Ivermectina, Nitazoxanida, Azitromicina, Hidroxicloroquina, que vem sendo hoje indicada em pacientes com a Covid-19, são indicações off label, ou seja, não tem nada na bula desses medicamentos que nos dê tranquilidade quanto à segurança e eficácia em pacientes com a Covid-19.

aQui – Em entrevista ao programa do Galvão Bueno, no dia 30 de junho, o senhor falou do convênio com a prefeitura de Volta Redonda. Sua declaração foi a seguinte: “Vamos ver explodir o número de casos porque vai ser mais notificado, mas vai reduzir o número de casos graves e até as mortes, porque vai ser medicado com eficiência”. O senhor admite a subnotificação?
Edmilson – A subnotificação é um fato real em todo e qualquer lugar do mundo e, principalmente, no Brasil. Quando você estimulou que as pessoas ficassem em casa e só procurassem o serviço médico quando agravasse, muitas pessoas ficaram em casa e você teve a subnotificação. Se ficou doente em casa e não foi para o hospital, não houve notificação. A partir do momento que a população é orientada a procurar o serviço médico, porque existe agora uma possibilidade de tratar precocemente, minimizando risco de agravamento e morte, as pessoas vão procurar mais e os casos serão mais notificados. Isso é óbvio.

aQui – Não encontrei nenhuma menção do Convênio no site da UFRJ. Sabe o motivo?
Edmilson – Em relação ao convênio no site da UFRJ, ele ainda está sendo assinado. Acabou de ser assinado por mim hoje (quinta, 2), e será encaminhado para a reitoria e em seguida para a Procuradoria PR6, que é uma tramitação interna normal. Depois vai ter a assinatura da reitora. Por isso, você ainda não viu nada no site da UFRJ.

 

A evolução da Covid-19 em Volta Redonda

Covidímetro 

           Um estudo apresentado na quinta, 2, feito pelo Ministério da Saúde em parceria com a Universidade Federal de Pelotas (RS), revelou um dado preocupante sobre a evolução da Covid no país: de cada 100 pessoas infectadas, uma vai a óbito, indicando uma taxa de letalidade de 1,15%. No estado do Rio, pesquisadores da UFRJ elaboraram uma ferramenta para medir a transmissibilidade do coronavírus. Chamada de covidímetro, o dispositivo apontou ontem, sexta, 3, que a taxa de contágio no estado está em 1,38. Os pesquisadores (a maioria epidemiologistas) recomendam que as atividades econômicas e de lazer sejam retomadas somente quando a taxa ficar abaixo de 1. O problema é que em muitas cidades fluminenses, a abertura ocorreu antes que se chegasse a isso.
       

     Volta Redonda abriu e fechou o comércio duas vezes. Agora ele está fechado, e ainda não se sabe se será reaberto na segunda, 7. O covidímetro não consolida os dados por municípios de forma isolada. Se consolidasse, seria possível ver que a taxa de letalidade de Volta Redonda está em 4%. O cálculo é exato a partir do momento que se baseia nos dados divulgados diariamente pela própria prefeitura. Por falar nestes dados, o aQui traz, no quadro abaixo, a evolução da Covid-19 na cidade do aço por semana epidemiológica. O gráfico inicia no dia 24 de março, data do primeiro registro oficial da doença no município, e termina no dia 29 de junho, quando teve início a 27ª semana epidemiológica (de 29 de junho a 4 de julho). De lá para cá, se passaram 15 semanas e o aumento no número de casos confirmados foi assustador – mesmo com todas as medidas de segurança adotadas pela prefeitura.        


            Vale registrar ainda que a taxa de ocupação dos leitos de clínica médica do Hospital de Campanha até a noite de quinta, 2, era de 11,4%, e a taxa de ocupação dos leitos de UTI da rede municipal (exceto o Hospital Regional) era de 48%. Confira abaixo o quadro da evolução da Covid-19 em Volta Redonda.

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