Partidos de esquerda defendem reestatização da CSN
Para o programa Dário de Paula, o protesto contra o ‘pó preto’ da CSN no último domingo, 23, atraiu apenas 300 pessoas, como noticiou na manhã de segunda, 24. Para a TV Rio Sul, o número foi um pouco maior: 500, igual ao o que o aQui calculou. Outros, como os jornais diários, nem quiseram arriscar. Limitaram-se a falar em centenas. Houve, obviamente, quem discordasse de todas as estimativas. Alguns falaram em 800, outros em 1.200, 1.500 e até 2.000, como calculou Zezinho do MEP (Movimento Ética na Política).
O número, aliás, não importa. Não importa mesmo. O que vale é que a mobilização levou a CSN – antes do ato, é bom que se frise – a antecipar medidas que poderiam ter sido postergadas, de acordo com o TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) firmado em 2018 com as autoridades estaduais (leia- se Inea) até o final de 2024. Por conta das postagens dos internautas e diante da pressão do prefeito Neto, a direção da siderúrgica antecipou várias providências (ver box).
Deve-se registrar, acerca do ato contra o ‘pó preto’, o uso da manifestação popular por políticos, com e sem mandatos, por partidos políticos, por sindicalistas e ambientalistas, até de fora. Alguns chegaram a pregar a reestatização da CSN. Ou a interdição da Usina Presidente Vargas, que, se um dia ocorrer, poderá decretar o fim de Volta Redonda. Aí, todos ficarão sem o ‘pó preto’, mas perderão milhares de empregos e renda.
Os organizadores do movimento, que até prova em contrário eram desconhecidos do grande público, negam que o ato tenha sido político (ver manifesto na página 9). Garantem que foi apartidário. Não tanto. O senador petista Lindbergh Farias serve de exemplo. “Eu estou gravando esse vídeo para convidar você, que é de Volta Redonda, para reforçar essa mobilização, neste domingo, dia 23, às 10 horas na Vila Santa Cecília, contra a poluição, em defesa da saúde e da vida”, postou ‘Lindinho’.
O deputado federal Luiz Lima, bolsonarista, reagiu. “Pessoal, está acontecendo agora em Volta Redonda um protesto em relação à CSN, que está poluindo o município”, disse. “Tá caindo um pó magnético na casa das pessoas, mas a convocação parte do próprio PT”, completou, referindo-se ao vídeo de Lindbergh Farias. “Parece brincadeira”, disparou.

Edimar: vocês não sabem o que o peão enfrenta
“O PT sempre esteve ao lado do Benjamin Steinbruch, que é o dono da CSN”, ponderou.
Não satisfeito, Luiz Lima disse que, desde os tempos da privatização, ‘o dono da CSN’ teria uma amizade muito estreita com Aloizio Mercadante, atual presidente do BNDES, e completou (na íntegra): “O Pedro Barros Mercadante Oliva, filho do Aluísio Mercadante, além dele ser assessor da presidência da CSN desde 2019, é diretor financeiro de relações com investidores da CSN Mineração desde janeiro de 2021. Além de tudo é sócio da Vitória Steinbruch (filha de Steinbruch) na CBSI (empreiteira do grupo CSN, grifo nosso)”, afirmou.
Bolsonarista assumido, Luiz Lima deixou um recado. “Você da direita em Volta Redonda que está indo para essa manifestação talvez você esteja sendo manipulado pelo próprio PT, que na minha opinião, quer reestatizar uma empresa que foi privatizada no período do PT”, afirmou. “Essa relação do PT com as empresas que eles mesmo privatizaram, tem interesse por trás disso… E você, de direita em Volta Redonda, pode estar sendo usado como massa de manobra do partido mais nefasto que o nosso país já teve. Eles são estratégicos, são maquiavélicos e a sociedade fica sempre em segundo, em terceiro na lista das prioridades. Fiquem atentos”, disse.

Sobrou até para o prefeito Neto
O alerta do deputado federal não foi seguido nem pelo líder do bolsonarismo local, Hermiton Moura, pré- candidato a vereador em 2024, que esteve na Praça Brasil e aproveitou para ‘entrevistar’ várias pessoas, como o vereador Betinho Albertassi, para a página que mantém nas redes sociais. Só faltou fazer o vídeo com as bandeiras do PT, PSTU e do Psol ao fundo. Betinho, que estava indo almoçar com a família por conta do seu aniversário, deu seu recado. “Sou contra a poluição do pó preto”, resumiu.
Quem aproveitou os três minutos de fama – a que cada um tinha direito para falar na Praça Brasil contra o ‘pó preto’ da CSN ou atacar a empresa ou o prefeito Neto,
também xingado em vários pronunciamentos – foi o ex-prefeito de Pinheiral, Arimatheia. Ele foi apresentado como representante do Instituto Federal de Educação, e cobrou respostas da CSN a respeito da poluição em Volta Redonda. Nos bastidores, sabe-se que ele deve sair como candidato a vereador nas eleições de 2024.

João Thomaz, Jari e Paiva
Arimatheia, para quem não sabe, está aliado ao deputado estadual Jari de Oliveira (PSB), que também estava na manifestação contra o ‘pó preto’. Apesar de ter um mandato na Alerj, Jari não foi chamado a discursar. Pôde usar o tempo para conversar com eleitores e posar para fotos ao lado do ex- vereador Paiva, e de João Thomaz, ex-presidente do Sindicato dos Engenheiros, que estava vestindo uma fantasia de palhaço, ironizando a poluição do ‘pó preto’.
Aposentado da CSN e especialista em poluição, João, curiosamente, não teria sido chamado a discursar. Dois outros sindicalistas usaram da palavra: o ex-presidente do Sindicato da Construção Civil, Sebastião Paulo, e o atual líder dos Metalúrgicos, Edimar Miguel. Como funcionário da CSN, Edimar disse aos presentes que a maioria não sabe o que os peões da UPV sofrem com a poluição no interior da usina. Pena que o que ele disse não deve ter sido muito ouvido, pois um pastor (ver foto) ocupou a pracinha ao lado, em frente ao posto da PM, e, usando um microfone, pregou em alto e bom som. Impedia que os discursos do pó fossem ouvidos na redondeza.
O ato político de protesto contra a CSN fez renascer até a eterna professora Dodora, ativista sindical que sempre se destacou na luta contra o Palácio 17 de Julho. E ela aproveitou para bater no governo Neto por conta das últimas ações envolvendo os professores da rede municipal de ensino. Ah, Dodora chegou a afirmar que estava doente por conta do ‘pó preto’.

Julio Ferreira e sua tecnologia verde
Quem aproveitou para faturar uns trocados no evento foi o pessoal da Causa Operária, ligado à CUT. Distribuiu centenas de folhetos (500 ou 1.500, não se sabe quantos) e aproveitou para pedir R$ 1, oferecendo em troca um exemplar do jornal do PCO. Não deve ter vendido muito. Ao lado, com bandeiras e também distribuindo folhetos, estavam os sindicalistas do PSTU. Defendiam a reestatização da CSN. Querem a empresa sob controle dos trabalhadores e “a encampação do seu patrimônio social ao Município”. “Queremos uma sociedade socialista sem opressão e exploração”, cantavam.
Mas que o PSTU, PT, Psol e outros coloquem as barbas de molho. Pode ser que não tenham, dentro em breve, contra o que ou quem lutar. É que o deputado estadual Jari de Oliveira, que circula entre todas as alas dessas agremiações, apresentou um projeto de lei para controlar a emissão do ‘pó preto’ na atmosfera. Até aí, tudo bem. Excelente. O problema é que Jari embutiu no texto do PL, feito em parceria com o também deputado estadual e ambientalista Carlos Minc, um artigo que prevê a interdição da Usina Presidente Vargas, caso o problema ambiental não seja solucionado. E isso nenhum dos 300, 500, 1.500 ou 2.000 presentes no ato contra a CSN ficou sabendo enquanto caminhava pela Vila.
“Junto com o deputado estadual Carlos Minc, fiz Projeto de Lei que determina a inclusão do parâmetro de Poeira Sedimentável (PS) nos serviços de monitoramento da qualidade do ar, possibilitando a retomada do monitoramento do pó emitido pela CSN”, informa Jari, que também pediu ao Inea (Instituto Estadual do Meio Ambiente) informações sobre o cumprimento dos Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) assinados pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).
VERDE
Outro ambientalista, Júlio Ferreira, nascido em Volta Redonda e residente nos EUA, parceiro de Maurinho, pré-candidato a prefeito, aproveitou para vender o seu peixe. “A CSN é uma empresa importante e estratégica para nossa cidade. Volta Redonda a respeita e quer ver a empresa modernizada. Que aumente a sua produção, ganhe mais
mercado e mais dinheiro, pague mais impostos. Mas queremos – exigimos – que a CSN invista em tecnologia verde para melhorar a qualidade do ar de Volta Redonda, e preser ve as águas do Rio Paraíba”, dizia a todos que encontrava pela frente (ver foto).
Julinho, como é conhecido, é ex-vereador. “Volta Redonda não aceita esse ‘pó preto’. Merecemos respeito. Uma grande solução ESG seria a CSN usar o antigo Escritório Central como sede do Primeiro International Green Technology Center das 3 Américas”, acrescentou em e-mail ao aQui. “Volta Redonda se reinventaria como a capital internacional da tecnologia verde. O barão do aço viraria o barão da tecnologia verde, essa seria a melhor direção do Desenvolvimento. Uma solução internacional moderna usando a ciência e ‘green tecnologia’. É nisso que eu acredito”, sentenciou. Se terá sucesso na empreitada verde, só o tempo dirá.
Nota da redação: Tanto o prefeito Neto quanto a direção da CSN foram procurados pelo aQui para falar do protesto de domingo e ainda sobre os pedidos de reestatização da CSN, defendidos por partidos políticos, a desapropriação das terras do Aero Clube, defendida pelos organizadores do ato, e ainda sobre o Projeto de Lei de autoria de Jari de Oliveira que prevê até a interdição da Usina Presidente Vargas. Infelizmente, eles não se pronunciaram.
“Parágrafo único: Em caso de reincidência na violação do disposto no art. 5o, caput, desta Lei, o órgão e a entidade ambiental competente do Estado do Rio de Janeiro poderão aplicar a sanção administrativa ambiental de interdição do estabelecimento do infrator nos termos do art. 2o, IX, Lei Estadual n.o 3.467, de 14 de setembro de 2000”.
Veja abaixo o que o aQui já publicou sobre as ações ambientais que a CSN já começou a desenvolver na Usina Presidente Vargas:
Além da construção dos novos filtros precipitadores para as sinterizações, previstos no TAC da CSN com o Inea, a empresa passou a adotar medidas ambientais imediatas, conforme relatórios entregues ao prefeito Neto e ao vice-governador, Thiago Pampolha, que cobraram as medidas mais urgentes. Veja algumas destas medidas:
Aplicação de polímero: Um polímero especial está sendo aplicado sobre as pilhas de matérias-primas e resíduos particulados existentes na Usina Presidente Vargas. Biodegradável, sua função é reduzir a dispersão das partículas em pilhas de carvão, coque e minério de ferro. A aplicação forma uma crosta do polímero com mais de 3 mm, sendo altamente resistente a chuvas e ventos acima da normalidade, protegendo e evitando a dispersão das partículas em até 90%. Feito com materiais reciclados, não é tóxico e não polui as águas subterrâneas.
Canhões de Névoa: Instalação de 12 canhões de aspersão de névoa nas áreas de sinterização e pátios para reduzir a poeira e partículas em suspensão, melhorando a qualidade do ar. Os equipamentos utilizados para dispersar partículas finas de água no ar acabam criando uma névoa ou neblina. Esses canhões são geralmente compostos por um sistema de bombeamento de água que pressuriza o líquido e
o pulveriza através de bicos especiais, transformando- o em pequenas gotículas que formam uma névoa suspensa no ar, ligando-se ao pó e removendo-o do ambiente. Cada canhão de névoa atinge até 60 metros.
Limpeza de pó na Usina: Utilização de varredeiras novas e modernas, além de mais caminhões-pipa para lavagem das vias internas, limpeza e lavagem nas áreas de saída dos caminhões de escória de alto-forno em todos os turnos e até o uso de equipes de rapel. A mobilização de uma equipe de Rapel Industrial será usada para a limpeza das partes mais altas das estruturas metálicas dos equipamentos, retirando as camadas de pó.
Reparos imediatos de equipamentos:
Reparação de 12 fornos críticos na Coqueria a fim de garantir o controle adequado do combustível e preservar a qualidade do ar. Manutenção preventiva no Precipitador Eletrostático Primário da Sínter 3, através da restauração das placas e correntes arrastadoras, para garantir maior eficiência e redução dos impactos ambientais.
Reparo geral no Precipitador Eletrostático Primário da Sínter 3, incluindo a troca de 640 placas, ainda em setembro, com impacto direto na redução da emissão de particulados.

