D. Waldyr, o bispo vermelho
Ainda comemorando o centenário da Diocese de Volta Redonda/Barra do Piraí, completado em dezembro de 2022, a Cúria lançou na terça, 25, uma edição especial de ‘O Diocesano’, uma revista para os católicos, de circulação nas 12 cidades que fazem parte do episcopa- do do Sul Fluminense. Com o Tema ‘Memória, Gratidão e Missão’, a publicação, dividida em duas partes, revive sob a ótica de oito bispos a história de uma das principais representantes do Vaticano no estado do Rio, começando em 1922 com Don Guilherme Müler – primeiro bispo da Diocese -, passando pelo extenso e marcante governo de D. Waldyr Calheiros, que se encerrou em 1999, até chegar aos dias atuais.
Don Luiz Henrique da Silva, atual bispo, explicou que a revista vai homenagear justamente esses agentes responsáveis pelo legado poderoso construído pela Cúria numa mescla de fé e política. “A revista procura valorizar quem fez parte dessa história, resgatando as contribuições sociais feitas pela Igreja ao longo do tempo”, disse, frisando que cada bispo deu à sociedade a resposta que o contexto social e político exigia. “O passado não será revivido, mas será escola para os atos futuros”, pontua.
Segundo relatos do Padre Daniel Cesar, membro da Comissão Histórica da Diocese, a Igreja, expulsa dos salões do rei, precisava expandir suas bases territoriais de forma a atingir com mais
eficácia seus fiéis espalhados pelo país que fazia parte dos domínios do reino católico de Portugal. Após mapearem o interior, em busca de uma sede perfeita, Barra do Piraí foi escolhida, e o principal motivo teria sido a ferrovia. “A presença da Igreja Católica ainda parecia um tanto atrasada. E como herança do regime do padroado (quando o rei é responsável por nomear bispos e ainda recolher dízimos, grifo nosso), o Brasil ainda contava com pouquíssimas Dioceses e bispos. Esse era o caso do Rio de Janeiro, que possuía uma sede episcopal própria. Contudo, todo o resto do estado estava submetido à Diocese de Niterói, com um só bispo. Nessa época, Barra do Piraí se conservava como um município de grande relevância. Basta relembrarmos que a grande parte da movimentação de pessoas e de produtos se dava por meio das ferrovias e a cidade barrense constituía o maior entroncamento ferroviário da América Latina, interligando ramais ferroviários entre Rio de Janeiro, São Paulo e Minas”, relatou.
Outra história que o Diocesano conta é de como Barra do Piraí deixou de ser sede para dividir espaço com Volta Redonda, em 1965. Padre Daniel relembra que, anos antes, os diretores da CSN, ainda estatizada, insistiram para que D. José Coimbra, bispo da época, levasse a Cúria para a cidade do aço, já que o município barrense
não era mais sinônimo de prosperidade. “Dom José não deu sinais de que levaria a proposta adiante sem a necessária prudência. Assim, D. Agnelo decidiu apresentar à Nunciatura Apostólica, em uma carta, a proposta da nova sede episcopal. Contudo, deveria ser pleiteada junto à Sé não a transferência da sede, mas sim sua extensão”, narrou.
Os fiéis que ainda se lembram de Dom Waldyr Calheiros de Novaes e o intitulam como o bispo mais importante da história da Diocese também podem matar saudade do religioso lendo o Diocesano. A publicação retrata de forma resumida o trabalho do líder católico que ajudou a estabelecer em todo o território fluminense uma diferenciada experiência de fé e vida ao ensinar a seus seguidores como fazer verdadeiramente preferência pelos mais pobres, marginalizados e explorados. Através das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), coordenadas por ele com a ajuda de padres devotos da Teologia da Libertação, uma nova fé católica tomava corpo. “Em nossa Diocese, a implementação e multiplicação das CEBs encontrou terreno fértil com o projeto Catequese Popular de D. Agnelo Rossi. O modelo dos antigos salões de catequese foi incrementado e com auxílio financeiro vindo da Alemanha, entre as décadas de 70 e 90, foram construídos centenas de salões comunitários ao redor de toda Diocese. Dessa maneira, cada periferia dos grandes centros urbanos, que cresciam assustadoramente, teria a presença da Igreja, onde se reuniriam para oração e reflexão da vida concreta”, escreve o Padre Daniel.
Resgate da base e diversidade
D. Luiz Henrique garante que durante o evento de lançamento da revista ‘O diocesano’ a Cúria não se afastou dos mais pobres. Garantiu que a fé Católica segue forte, mesmo diante do crescimento das igrejas neopentecostais, sobretudo nas comunidades mais carentes, tirando ,assim , o monopólio que fora dos católicos. “Pelo que vejo enquanto ando pela Diocese, a Igreja não está mal. Procuramos responder às demandas sociais com notas e reflexões, e os movimentos sociais continuam atuando na nossa Diocese, talvez com menos visibilidade. Mesmo que de forma discreta, estamos atuando junto aos sindicatos operários. Estamos atuando em questões ambientais, inclusive”, frisou.
Apesar de tudo, a Diocese criou um projeto que faz uma releitura do trabalho de D. Waldyr na periferia. A ideia é simples: nomear padres representantes do bispo para que estes atuem em seu nome entre os fiéis mais marginalizados e abandonados pelo Poder Público. “Estamos criando o vicariato episcopal que é representação direta do bispo, para que possa acompanhar as diversas demandas sociais”, resumiu D. Henrique, anunciando que em Volta Redonda seu escolhido foi o lendário Padre Juarez: educador, entusiasta da paz e talentoso seresteiro.
Ao aQui, Juarez explicou que sua atuação à frente vai ser inspirada no Papa Francisco. “No contexto mundial, o papa tem feito uma Igreja sem saída, pois percebe que ela está parada. Só pode sair quem está. O papa convocou o sínodo que significa andar juntos. Então, a Igreja precisa entender a importância do diálogo com a diversidade. Proponho uma aglutinação das forças sociais que defendem a vida. O vigário episcopal terá a função de buscar essas forças para sanar essas demandas que surgem. Uma das primeiras atuações foi buscar caminhos de entendimento com relação à violência nas escolas. Estamos buscando diálogonãosóparadentro, mas também para fora”, anunciou.

