Não relaxem!

Pollyanna Xavier

Os prefeitos da região deveriam pensar duas vezes antes de relaxarem as medidas de proteção contra a Covid-19. É que a secretaria estadual de Saúde acionou, na quarta, 18, a segunda etapa do Plano Estadual de Contingência para o Enfrentamento da Pandemia, acendendo um alerta vermelho nos 92 municípios fluminense. Na teoria, significa a adoção de medidas preventivas e corretivas para evitar que o sistema de saúde volte a colapsar e faltem leitos e oxigênio para quem precisar. Na prática, significa frear o relaxamento e voltar quase que à estaca zero.
Quase, porque a vacinação tem cumprido o seu papel no enfrentamento da Covid. As cidades estão avançando na imunização, mas ainda existe um gargalo que as secretarias de Saúde não conseguem resolver. Parte das pessoas que tomaram a primeira dose ainda não voltaram para tomar a segunda, deixando em aberto o esquema vacinal contra a doença. Segundo o aQui apurou junto à SES-RJ, isto tem acontecido com frequência em quase todas as cidades e coincide, infelizmente, com dois períodos cruciais: a circulação da variante Delta e o fato de o Ministério da Saúde admitir a necessidade de uma terceira dose.
A circulação da variante Delta, aliás, foi o que motivou o Estado a acionar, mais uma vez, o Plano de Contingência da Covid. Atualmente, 30 cidades, sendo 12 delas da região, registraram casos da nova variante. Conforme notas técnicas da SES e da Fiocruz, a Delta é tratada como uma cepa com maior transmissibilidade do que as outras, mas ainda não há informações precisas se ela é mais letal ou não. Na segunda, 16, a SES anunciou que fez o sequenciamento do genoma do vírus e o resultado preocupou as autoridades em saúde: cerca de 60% das amostras analisadas são de pessoas que se infectaram com a Delta.
A situação levou o Estado a adotar ações previstas na segunda etapa do Plano de Contingência. Dentre elas, um chamamento público para a contratação de novos leitos de UTI para o Hospital Regional de Volta Redonda e ainda a desmobilização da unidade, que em julho começou a atender pacientes não-Covid. Na quarta, 18, os municípios foram avisados e entraram em alerta para uma nova onda da doença. A situação, aliás, tem exigido que os prefeitos revejam seus planos de contingência e, principalmente, as decisões que liberaram tudo: comércio, shopping, igrejas, exposições etc.
A situação na região
O acionamento do Plano Estadual de Contingência para o Enfrentamento da Covid vai afetar os municípios. Primeiro, porque caberá aos prefeitos reverem seus decretos. Segundo, porque o Hospital Regional não será mais desmobilizado e não poderá promover atendimentos não-Covid. Isto significa que o município que tem um paciente que precise, por exemplo, de uma cirurgia que a rede de Saúde local não ofereça, ele não poderá ser transferido para o Regional. As pastas locais terão que buscar novos hospitais referenciados no Estado ou adiar o procedimento do paciente.
Em Volta Redonda a situação passa pelo registro de dois casos da nova variante. Em um universo de mais de 35 mil casos de outras variantes, pode até não ser nada, mas os casos da Delta não devem ser negligenciados, principalmente pela alta transmissibilidade da nova cepa. Outra questão é que Volta Redonda ainda não zerou os óbitos por Covid e toda semana, desde o primeiro registro em março de 2020, pacientes continuam morrendo em função da doença no município.
Na questão da vacinação, Volta Redonda aplicou quase 180 mil vacinas da 1ª dose e praticamente a metade (90.390) da segunda dose ou da chamada dose única (Janssen). Considerando o intervalo entre a primeira e a segunda dose, ainda existe um número significativo de pessoas que não completaram o esquema vacinal. Na quarta, 18, a secretaria de Saúde informou que “mais de 170 mil pessoas já tinham recebido ao menos uma dose da vacina, o que corresponde a 63% da população geral estimada”. O percentual, porém, não indica 63% de pessoas imunizadas, porque a imunização só se consuma quando o esquema vacinal é rigorosamente completado.
Em Barra Mansa, até o fechamento desta edição, a cidade ainda não tinha registrado nenhum caso da Delta e o município aposta no avanço da vacinação para conter a nova variante. Essa semana, o prefeito Rodrigo Drable usou as redes sociais para fazer um desabafo. Disse, entre outras, que não está disputando com outros municípios quem vacina mais, e deixou claro que o foco da vacinação em Barra Mansa não é baixar a faixa etária, mas é garantir que toda a população daquela faixa seja imunizada por completo.
“Na vacinação ouvi muito questionamento sobre cidades que estavam fazendo idades mais baixas, como se fosse uma corrida por baixar a idade. Não é. Quando você abre uma faixa etária, com um público definido, o intuito é fazer a vacina no maior número de indivíduos desse grupo. E foi isso que fizemos. Temos o maior percentual de pessoas vacinadas em cada faixa etária”, disse, acrescentando que Barra Mansa guardou vacinas para garantir a aplicação da segunda dose. A questão é fazer com que as pessoas tomem a segunda dose e completem o esquema vacinal.
Outro detalhe pontuado por Drable nas redes diz respeito às críticas das pessoas ao fato de a secretaria de Saúde de Barra Mansa ter escolhido o teatro para aplicação da Pfizer, e não o drive-thru. “Muita gente reclamou da fila da vacina no teatro, mas a vacina da Pfizer tem que ser ministrada em ambiente confinado e com controle de temperatura. Essa vacina não pode ser feita no sistema de drive-thru. O teatro era o melhor lugar para fazermos e termos controle”, garantiu. “Apesar de algumas dificuldades, estamos vacinando, verificando e oferecendo o controle de temperatura necessário para a eficácia da vacina. Seguimos os protocolos, enfrentaremos todos os obstáculos, e continuaremos avançando”, aposta.

Delta – Qual é o Risco?
A nova variante que tem ameaçado o fim da pandemia no estado do Rio é considerada a mais transmissível de todas as outras cepas do novo Coronavírus. Apesar de a vacina ser eficaz contra essa variante, no sentido de evitar agravamentos e mortes, estudos apontam que ela tem maior probabilidade de infectar justamente os vacinados. A constatação, porém, não significa que a pessoa deva desistir da vacina, pelo contrário; uma pessoa infectada e vacinada tem muito menos chances de internação do que quem se infectou e não se vacinou.
A Delta teve origem na Índia, e se espalhou pela Europa, respondendo por mais de 90% dos novos casos. No Brasil, ela já matou pelo menos 20 pessoas e infectou mais de 300. O Rio é o estado com o maior número de casos, seguido por São Paulo. Mas o que essa variante faz no organismo que as outras não fazem? Segundo o aQui apurou, a Delta invade o sistema imunológico e pode desencadear doenças mais graves em pessoas não vacinadas. Já em pessoas vacinadas, a nova variante tende a romper com mais facilidade a proteção oferecida pelos imunizantes, fazendo com que a pessoa adoeça, mas sem evolução do quadro. A boa notícia é que a probabilidade de pessoas vacinadas espalharem o vírus, se infectadas, é muito menor – rara até – em comparação a quem ainda não tomou a vacina.
Na região, a circulação da Delta já foi observada em Volta Redonda, Barra do Piraí, Itatiaia, Piraí, Porto Real, Quatis, Resende, Rio Claro e Valença. A exceção, por enquanto, é Pinheiral e Barra Mansa. Esse avanço é um termômetro que sinaliza aos gestores quanto à necessidade de reverem suas medidas de relaxamento. O alerta serve também para a população. Afinal, o fim da pandemia ainda não está perto, e todo cuidado é pouco.

 

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