quinta-feira, maio 26, 2022
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Novela da Rodovia do Contorno ganha novos capítulos, incluindo uma CPI

Roberto Marinho

A novela indigesta da Rodovia do Contorno, em Volta Redonda, vai ganhando novos capítulos. Depois de um fim de ano catastrófico, com vários acidentes, que provocaram três mortes, e culminaram com um bate-boca público entre o prefeito Neto e o empresário Mauro Campos Pereira – que construiu um trevo irregular no meio da via, como afirmam o Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), o governo municipal, atual e anterior –, a população agora descobriu que a estrada de R$ 104 milhões, que demorou 22 anos para ficar pronta, não tem “dono”.
Em resposta a um ofício de Neto, enviado em 29 de dezembro de 2021, como o aQui mostrou, o Dnit simplesmente afirmou que não sabe sob qual jurisdição está a Rodovia do Contorno. Só sabe que ele é quem tem que autorizar qualquer intervenção que a prefeitura de Volta Redonda queira fazer na estrada. Seja para pintar, sinalizar, tapar buracos ou instalar quebra-molas. Ou seja, a rodovia não tem dono, já que ninguém cuida, mas tem xerife, que diz quem pode meter o bedelho.
Criada para ligar duas das mais movimentadas estradas federais – a Via Dutra e a BR-393 – e desviar o trânsito pesado do centro de Volta Redonda, a Rodovia do Contorno se tornou uma dor de cabeça para todos. Na quarta, 12, mais um acidente por pouco não provocou novas vítimas, quando uma carreta derrapou na pista molhada, fez um L, foi parar em cima do ‘trevo’ construído irregularmente e deixou a certeza de que a rodovia precisa com urgência de uma intervenção, seja municipal, estadual, federal… Ou divina.
Os acidentes em série e a falta de uma definição sobre quem pode fazer o quê na via foram alguns dos motivos que levaram o vereador Rodrigo Furtado a propor a abertura de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) na Câmara de Volta Redonda para apurar as responsabilidades dos envolvidos. “A intenção da CPI é, primeiro, fazer com que as pessoas que devam prestar a manutenção na rodovia – a sinalização, a iluminação – façam isso. A prefeitura e o Dnit ficam assim: o Dnit tem que autorizar a fazer, a prefeitura não faz porque precisa de autorização, ou fala que não é competência dela. Agora ficou esse empurra-empurra com a questão do Mauro Campos no condomínio Jardim Mariana. Então, a gente tem que apurar e dar uma resposta”, disse Furtado, que completou: “Aquela rodovia não pode ficar sem pai. Está esburacada, desnivelada, sem sinalização e não se pode colocar um redutor de velocidade”, avaliou.
Aliás, em relação à briga entre Neto e Maurinho – a colocação de quebra-molas –, o parlamentar afirmou que é contra os obstáculos. Assim como o Dnit e a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), que classificam a Rodovia do Contorno como “serviço A”, ou seja, de fluxo livre, evitando qualquer interrupção que possa diminuir a velocidade média do tráfego. Furtado também não tirou a responsabilidade dos motoristas sobre os acidentes. “O trecho onde ocorreram as batidas fica no final de uma reta, em descida, propício ao excesso de velocidade”, comparou.
Ele foi além. “Eu sou contra redutor, mas quando a educação do trânsito não acontece, o motorista tem que ser contido, senão o carro vira uma arma na mão de algumas pessoas. Uma grande parte dos acidentes também é causada por imprudência, excesso de velocidade, veículo em condições inadequadas para circular”, avaliou o vereador, afirmando que o relatório final da CPI vai ser entregue ao Ministério Público. “Nós vamos fazer um relatório final para o MP, do que a gente apurou, para que eles deem resposta para a população, até judicializada, para fazer com que essa controvérsia da responsabilidade seja dirimida”, afirmou, acrescentando que pretende chamar o prefeito Neto e os ex-prefeitos Paulo Baltazar e Samuca Silva para falar na CPI.
“Vou tentar convidar o Neto, o prefeito Baltazar, que iniciou a obra, o Samuca também. Por terem feito parte como prefeitos, acho que eles têm o dever de responder às perguntas da Câmara. Vou convidar também o Mauro Campos, para falar sobre a questão das obras, como foi inaugurada, e órgãos como o Dnit, a ANTT, e também o setor de mobilidade urbana do município, de infraestrutura”, relatou. O vereador, que também é advogado, disse ainda que a cobrança de impostos por parte da prefeitura pressupõe que os serviços básicos têm que ser prestados de forma decente.
“Se a prefeitura recebe IPTU daquelas áreas e cobra iluminação pública na conta, no mínimo tem que ter iluminação, acesso seguro às residências e manutenção da via. Está incluso no IPTU. Infelizmente foi mal feito; se foi dada a possibilidade de a pessoa aprovar, construir e inaugurar a obra – inclusive financiada pela Caixa Econômica -, tem que garantir as condições básicas de moradia”, cobrou Furtado, que acredita que terá apoio dos companheiros do Legislativo para instalar a CPI.
“Não conversei ainda com os vereadores, mas acredito, por conhecer bem a Casa, que vou ser bem recebido com relação a isso. Não sei se alguém vai se habilitar a participar da CPI, vou perguntar para alguns que eu gostaria, para ser um trabalho resolutivo, já que estamos lidando com vidas”, pontuou o parlamentar, ressaltando que o Plano Diretor – que está sendo revisto pela Câmara – prevê a expansão de moradias e empresas na área que circunda a Rodovia do Contorno.
“Tem muita coisa prevista para aquele entorno. O polo metalmecânico, com todo o escoamento pela Rodovia do Contorno, está sendo discutido um novo Alphaville, e a rodovia não tem pai. São coisas que não entram na minha cabeça”, desabafou Furtado, que vai pedir um prazo de 90 dias para concluir os trabalhos. “Vou ter que mandar ofícios. O Dnit é um órgão federal, não tem informação rápida dele. Caso eu consiga terminar antes, eu antecipo o relatório”. Até lá, todo cuidado é pouco na Rodovia do Transtorno.

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