Acostumado a repassar ao Ministério Público do Trabalho as denúncias que envolvem casos de assédio moral sofridas por trabalhadores da base, o Sindicato dos Metalúrgicos parece estar diante de uma situação complicada. É que desta vez o alvo da denúncia é o próprio órgão. Mais precisamente o assessor da presidência, o advogado Tarcísio Xavier. A vítima, vejam só, é uma funcionária antiga do Sindicato – também advogada –, Ana Paula Martins. “Venho sofrendo assédio desde a mudança de gestão”, desabafou Ana Paula ao aQui.
As denúncias de assédio moral foram feitas ao MPT há cerca de 15 dias e, desde então, as investigações estão avançando. Alguns depoimentos de funcionários do Sindicato já foram colhidos. Em entrevista, Ana Paula contou que vem sofrendo pressão e assédio desde dezembro, quando Edimar Miguel assumiu a direção. De lá para cá, seu volume de trabalho foi reduzido, processos que ela acompanhava há anos foram confiados a outros advogados, assuntos jurídicos relacionados à CSN também foram retirados de suas mãos e colegas próximos passaram a se distanciar. Para completar, numa reunião interna, teria sido chamada de “indigna” por Tarcísio.
A situação teria provocado na advogada um quadro de transtorno de ansiedade e, por este diagnóstico, ela precisou tirar uma semana de licença para tratamento. Ao retornar, teve a situação exposta para todos os funcionários do Sindicato pelo próprio presidente, Edimar Miguel. “Tivemos uma reunião com uma representante do Sintesi (Sindicato dos Trabalhadores das Entidades Sindicais) e nesta reunião o presidente disse que eu pretendia renunciar à garantia do meu emprego porque precisava cuidar do meu filho. Isto não era verdade. Meu filho fica em creche. Eu renunciaria por causa da pressão que estava sofrendo dentro do Sindicato”, contou Ana Paula.
Segundo ela, na mudança de gestão foi feito um acordo para garantir a empregabilidade dos funcionários do Sindicato por pelo menos um ano, a contar da posse do novo grupo. Neste período, nenhum trabalhador poderia ser demitido e, caso quisesse sair, teria de renunciar a garantia de emprego prevista no acordo. Para Ana Paula, que há 8 anos trabalha como advogada no Sindicato, a renúncia não estava em seus planos, mas se tornou realidade diante da pressão sofrida e da redução de trabalho. “Todos os inquéritos do MPT pelos quais eu era responsável foram tirados das minhas mãos. Não analiso mais acordos coletivos, hoje reduziram bastante o meu trabalho”, reclamou.
Ana atribui o problema a Tarcísio, com quem não conversa e não consegue ter uma relação de trabalho, devido à rigidez do assessor. “O Tarcísio tem problema pessoal comigo. Ele me vê como uma pessoa que o prejudicou. E o Edimar é omisso, não faz nada para defender os funcionários”, lamentou. “No discurso da posse, o Edimar disse que devia aquela vitória ao Tarcísio, mas não é verdade. O Tarcísio nem vota. O Edimar deve a vitória a todos os trabalhadores da base que votaram nele, não ao Tarcísio”, pontuou.
Acerca do assédio, Ana Paula contou que o MPT já chamou algumas pessoas do Sindicato para serem ouvidas. Dentre eles, o diretor jurídico Leandro Vaz, que lhe teria oferecido apoio. “O Leandro é muito ético e tem me dado apoio. Ele foi um dos que perceberam que eu não estava bem e me chamou para conversar. Ele entendeu que eu estava sofrendo um assédio moral. O Leandro é o diretor jurídico, então tudo deveria passar por ele, mas nem sempre é assim. Há coisas que passam por cima dele. Quando fizeram a reunião com o representante do Sintesi, o Leandro não participou, na verdade, nem ficou sabendo. Marcaram a reunião para uma hora em que ele estaria fora do Sindicato. Depois, eu soube que o Tarcísio e o Leandro tiveram uma discussão”, contou.
Parte desta discussão aconteceu porque, segundo Ana Paula, Tarcísio estaria invadindo competência e entrando em assuntos que não dizem respeito a ele. “Ele é um assessor da presidência. Leandro é o diretor jurídico, responsável pelo departamento jurídico do Sindicato. O Tarcísio não tem expertise para negociar acordos coletivos. Ele traz uma animosidade para o setor e tem essa questão pessoal comigo. Pra completar, me deram um encaminhamento para fazer exame periódico, que também pode ser usado como demissional. Eu questionei. Disseram que todos receberiam, porque o exame periódico de todos estava vencido. Mas só eu recebi o encaminhamento”, disse.
SUSPEIÇÃO
Na semana passada, o MPT marcou uma audiência de composição para tentar chegar a um acordo entre o Sindicato e Ana Paula. O próprio procurador Elsimar Bittencourt agendou a reunião e enviou o comunicado, por e-mail, para Ana Paula. “Eu não vi meus e-mails naquele dia e desci para comer alguma coisa, porque já era hora do almoço. Meu celular tocou, era o procurador me questionando se eu iria à audiência. Pedi que me esperassem e corri pra lá”, lembrou.
Ao chegar à audiência, Ana Paula teria agradecido a espera e disse que devia este favor ao procurador. “Quando eu falei que devia isto a ele, me referia ao fato dele ter me esperado, porque eu estava atrasada, não sabia da reunião por não ter visto meus e-mails, e ele poderia ter cancelado. Mas o advogado que acompanhava o Edimar naquela audiência, Jorge Bulcão, decidiu arguir suspeição contra o procurador, por achar que ele era suspeito em conduzir o procedimento. Houve discussão, e o procurador perguntou se a suspeição era exclusiva àquele processo ou se era para todos. O Dr. Bulcão disse que era apenas para aquele e o procurador se deu por suspeito, afastando-se das investigações”.
Para Ana Paula, a arguição de suspeição contra o procurador, que sempre esteve ao lado do Sindicato, foi uma decisão errada, que pode levar a entidade a uma bancarrota. “O Dr. Bulcão chegou a perguntar se caso o Sindicato aceitasse a minha renúncia de emprego, o procedimento investigatório seria arquivado. O procurador disse que não. Acho que isto pode ter motivado o pedido de suspeição”, acredita. A advogada contou ainda que teve acesso aos depoimentos já colhidos e que há pessoas que mentiram e omitiram informações importantes que provariam o assédio. “Eu vou protocolar minha manifestação, apresentar provas e derrubar as mentiras que foram contadas nos depoimentos”, prometeu.
Quanto ao cenário daqui para frente, Ana Paula reconhece ser incerto. “O MPT deve designar outro procurador para conduzir meu caso, e eu sigo no Sindicato. Se as coisas permanecerem em paz, eu concluo o meu período de estabilidade. Se não, vou ter de renunciar ao meu direito de ficar. Isto é bem complicado, porque o discurso do presidente para os trabalhadores lá foraéum,maso relacionamento com seus funcionários é outro”, concluiu.
NOTA DA REDAÇÃO: O aQui entrou em contato com o presidente do Sindicato, Edimar Miguel, via mensagem por WhatsApp. Ele recebeu, mas, até o fechamento desta edição, permaneceu em silêncio. O aQui também enviou mensagem ao advogado Tarcísio Xavier, pelo mesmo aplicativo. Mas ele não se pronunciou dentro do prazo estabelecido pela reportagem. Se o fizer antes da próxima edição, a matéria será atualizada nas redes sociais.



