Mistério da meia-noite

Secretaria de Saúde não esclarece circunstâncias do convênio com a Unimed-VR

Pollyanna Xavier

O prefeito Neto pode estar repetindo o mesmo erro do seu antecessor, Samuca Silva, no que diz respeito às medidas de enfrentamento à Covid-19. Pelo menos é o que tem ficado claro quando o assunto envolve o convênio da prefeitura de Volta Redonda com a Unimed-VR – que prevê a realização de testes de antígeno e a teleconsulta, destinados a pacientes infectados com o novo coronavírus. As informações da parceria, por exemplo, não estão disponíveis no site portalvr, muito menos no Portal da Transparência – onde, por lei, deveria constar os termos do acordo, se o mesmo for gratuito, ou as notas de empenho para pagamento, caso alguma remuneração tenha que ser feita à cooperativa ou aos médicos envolvidos. O que se sabe é apenas o número de testes já realizados até agora, mas o valor que cada um tem custado aos cofres públicos é segredo.
Segredo de Estado, como Samuca adotou quando da polêmica parceria entre a prefeitura de Volta Redonda e a UFRJ, em julho do ano passado, envolvendo as pesquisas do pediatra Edmilson Migowski. O médico ficou conhecido por defender o uso da Nitazoxanida – um antiparasitário popularmente conhecido como Annita, no tratamento da Covid-19. Na época, Migowski assinou um convênio com a prefeitura de Volta Redonda, destinado à telemedicina, mas essa atividade, que custaria cerca de R$ 500 mil aos cofres do Palácio 17 de Julho, não chegou a ser oferecida nas unidades de saúde. Em seu lugar, foram distribuídos comprimidos de Annita para pacientes com sintomas da Covid-19.
As circunstâncias do convênio firmado por Samuca com o médico da UFRJ só foram descobertas em janeiro deste ano, quando a secretária de Saúde, Conceição de Souza Rocha, revelou os detalhes financeiros do acordo. Ao assumir a pasta, Conceição pediu o cancelamento do convênio e a suspensão imediata do seu pagamento, sob a justificativa de se tratar de um “tratamento para a Covid sem qualquer comprovação científica”.
Pouco tempo depois, com o número de casos confirmados só aumentando e os óbitos disparando, a prefeitura anunciou a contratação de um novo tratamento: desta vez, com a Unimed-VR, para a testagem da população sintomática e a realização de teleconsultas por meio de uma plataforma digital, operada pela própria cooperativa médica.
O anúncio do novo convênio dizia, entre outras, que a Unimed-VR negociaria a compra dos testes com o laboratório de origem, mas o pagamento ficaria a cargo da prefeitura. Nenhum valor, porém, foi apresentado. No anúncio, a prefeitura não esclareceu de quem seria a responsabilidade pela análise das amostras coletadas nos testes, apenas disse que algumas unidades de saúde do município (UBS e USF) estariam aptas para a realização do teste.
O aQui chegou a enviar pedidos de informação à assessoria de Comunicação da prefeitura, solicitando mais detalhes do convênio, mas não obteve respostas. O mesmo foi feito à Unimed-VR, através de sua assessoria de imprensa, mas a cooperativa ignorou o pedido. E olha que o aQui esperou pelo menos três semana antes de veicular essa reportagem.
Antígenos
Os testes de antígenos são indicados para pacientes que apresentam sintomas da Covid, por serem capazes de detectar a proteína do vírus Sars-cov-2, com carga viral ativa. O método é eficaz e se difere do teste rápido porque possui menor tempo de resultado – entre uma ou duas horas no máximo –, além de possuir um custo menor em comparação aos demais. Apesar de ser mais barato, a prefeitura nunca divulgou quanto paga por cada teste realizado.
Além desses dois serviços – testes de antígenos e teleconsultas –, a prefeitura de Volta Redonda também estaria distribuindo remédios do chamado ‘protocolo covid’, através de parcerias com farmácias particulares. Segundo a prefeitura, até o final de abril, 330 medicamentos teriam sido distribuídos gratuitamente à população através destas parcerias. Questionada sobre os custos destes remédios para os cofres do município, a secretária de Saúde, Conceição Souza, se manteve em silêncio, limitando-se a divulgar que “os moradores recebem os remédios em casa ou os retiram nos postos de saúde”.
Na semana passada, em nota à imprensa, a prefeitura voltou a falar do convênio com a Unimed-VR, quando anunciou o lançamento da campanha ‘Acelerando contra o Vírus’. A campanha envolve algumas ações de enfrentamento da Covid, dentre elas a realização dos testes de antígenos, as teleconsultas e ainda o trabalho de fiscalização feito pela Guarda Municipal contra as atividades que resultam em aglomerações. Sobre os testes, citou apenas os pontos de atenção à saúde na cidade que estão aptos a realizarem os exames.
Já sobre as teleconsultas, a prefeitura ressaltou que o serviço está disponível através do link https://new.voltaredonda.rj.gov.br, e que o médico responsável pelo atendimento possui autonomia para prescrever o medicamento que achar necessário no tratamento dos sintomas do paciente. Se a medicação prescrita for da rede, ela será entregue ao paciente gratuitamente, seja em casa ou nos pontos de distribuição. Tudo por conta do convênio, cujas cláusulas financeiras a prefeitura de Volta Redonda prefere manter em segredo.

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