quarta-feira, dezembro 1, 2021

Melhor lavar

Vinicius de Oliveira

Desesperados para manter sob controle a proliferação do corona-vírus, prefeitos e governadores têm buscado alternativas nunca antes estabelecidas no país (pelo menos não com esse intuito, grifo nosso), como o fechamento das divisas municipais, fronteiras estaduais, aeroportos etc. Outra medida que tem ganhado popularidade entre os gestores, e que é motivo de polêmica, é a higienização de espaços públicos tipo calçadas, pontos de ônibus, hospitais, postos de saúde e outros.

Na região não é diferente. Vários prefeitos já adotaram a medida como alternativa para combater a Covid-19. Em Volta Redonda, por exemplo, a limpeza começou no sábado, 28, quando a cidade já contabilizava 28 casos confirmados, um óbito, 222 suspeitos e 67 descartados. Ou seja, de cara, fica a pergunta, por que demoraram tanto a sair lavando as ruas se a eficácia do serviço seria garantida?

De acordo com a secretaria de Comunicação do Palácio 17 de Julho, a prefeitura procurou higienizar as unidades de saúde e pontos de ônibus de grande aglomeração. “O trabalho faz parte das ações de enfrentamento ao novo coronavírus e deve durar cerca de 15 dias. A limpeza foi iniciada no Cais Conforto e Hospital Dr. Munir Rafful, no Retiro, e toda a cidade receberá a aplicação da solução”, explicou o órgão, em release aos jornais.

Ainda de acordo com a Secom, a higienização está sendo feita com água clorificada e um bactericida, ambos aplicados nas áreas externas e arredores das unidades mencionadas. “Estruturamos a higienização como uma das medidas de enfrentamento à Covid-19, o que mostra o nosso respeito e cuidado com quem não pode parar e ficar em casa. Essa ação vai minimizar a circulação do vírus na cidade”, avaliou o prefeito Samuca Silva a respeito da questão.

Depois de ‘lavar’ as unidades de saúde e alguns pontos de ônibus, a prefeitura de Volta Redonda intensificou a medida, estendendo-a para outros lugares como o Estádio Raulino de Oliveira e seus arredores, no Aterrado, onde funcionará o ‘hospital de campanha’ criado para atender os infectados pelo coronavírus. “Essa higienização é importante como uma das ferramentas de enfrentamento ao vírus. Hoje realizamos essa higienização no Raulino de Oliveira, onde estamos montando o hospital de campanha. Estamos preparando nossa rede de saúde e é importante que a população fique em casa, cumprindo as recomendações”, reiterou o prefeito.

Em Barra Mansa medidas parecidas foram adotadas pelo prefeito Rodrigo Drable. “O Saae-BM adotou como rotina as lavagens e desinfecção de locais, que, mesmo diante da pandemia do novo coronavírus, ainda mantêm um fluxo expressivo de pessoas, como é o caso dos pontos de ônibus”, informou a assessoria de imprensa do governo.

“Apesar do isolamento domiciliar, algumas categorias de serviços considerados essenciais, como de saúde, farmácia, supermercados e os próprios motoristas dos coletivos, continuam atuando profissionalmente, de maneira estratégica a fim de evitar a propagação do vírus. Assim, equipes da autarquia, em sistema de plantão, têm feito a higienização dessas áreas”, completou a assessoria, informando quais locais passaram pela limpeza. “No sábado (28), a limpeza ocorreu na Praça das Nações Unidas e na Ponte Ataulfo Pinto dos Reis, no bairro Ano Bom. Nesta última segunda (30), o procedimento foi realizado nos pontos de ônibus e na Praça da Vista Alegre, se estendendo na sequência para os terminais da Rua José Melchiades, na Vila Nova”.

O mesmo tem acontecido em outros municípios, como em Barra do Piraí e Resende. Nessa última, segundo o superintendente de Serviço Público Carlos Eduardo Torres Almeida, este tipo de serviço já era desenvolvido antes da atual crise provocada pela nova doença, mas foi intensificado como mais uma maneira da prefeitura ajudar a evitar a circulação do vírus em território municipal. “Os alvos são os locais de grande circulação, como pontos de ônibus, Bancos, Rodoviárias, postos de saúde e outras áreas solicitadas”, explicou Carlos Eduardo.

Ainda de acordo com o superintendente, a equipe usa cloro para desinfetar os locais em um trabalho feito de segunda a sábado, das 7 às 17 horas. “Em breve, no entanto, haverá um reforço para que mais locais recebam a limpeza simultaneamente. Neste domingo (22 de março), por exemplo, já foi feita a limpeza extraordinária das entradas do Hospital de Emergência”, detalhou o secretário, fazendo questão de frisar que a prefeitura vem agindo em diversas frentes para tentar conter e prevenir a circulação do coronavírus em Resende. “Além de uma campanha maciça de divulgação, o governo Municipal segue todas as recomendações e protocolos da Organização Mundial de Saúde no caso. Neste sentido, promover o distanciamento social tem sido uma das maiores preocupações. A Prefeitura já determinou o fechamento de parte do comércio, bem como proibiu a realização de eventos que reúnam muitas pessoas. O pedido é para que a população fique em casa o maior tempo possível”, finalizou.

Eficácia duvidosa

Gastar esforços com essas medidas disparou um alerta entre alguns profissionais da área. Caso de um empresário, que pede que seu nome não seja revelado. Para ele, embora a higienização dos locais públicos seja benéfica para a população, no fim das contas o efeito seria pouco prático no combate ao coronavírus. “Eu estou lendo vários artigos sobre o Coronavírus, inclusive artigos em Inglês. E aí, eu fiz um resumo e uma consideração sobre tudo o que li. Segundo uma pesquisa do Journal of Hospital Infection, o novo Coronavírus pode permanecer em superfícies por horas e até mesmo dias. Além disso, o coronavírus pode permanecer ativo em temperaturas superiores a 30 graus Celsius nas áreas desinfetadas”, observou.

“O coronavírus pode ser morto por produtos de limpeza desinfetantes de fácil acesso, como álcool 70%, água sanitária e até a combinação de água e sabão. Isso porque o vírus tem uma cápsula de gordura protetora e aí, ao utilizar esses materiais, é retirada a cápsula e ele morre. Lavar corrimão, maçanetas etc é realmente efetivo, mas isso teria que ser feito a todo instante porque não tem como saber quem está com o vírus, já que ele pode ficar no corpo da pessoa sem apresentar sintomas e ainda assim ser transmitido para outras pessoas. Segundo uma pesquisa da Universidade de Columbia nos EUA, ainda que a pessoa não tenha quaisquer sinto-mas da Covide-19, ela pode transmiti-lo”, continuou.

Para o empresário, cuja empresa é especializada em limpeza pesada, lavar ruas seria menos efetivo porque as pessoas não colocam as mãos na rua. “O que faz o vírus ser transmitido é você colocar as mãos em um objeto/pessoa contaminada e depois levar as mãos às mucosas do corpo. Lavar ruas não tem efetividade, porque ninguém coloca a mão na rua e depois leva as mãos à mucosa. Talvez a questão fosse o vírus ficar impregnado nos sapatos e depois estes serem levados para as residências. Entretanto, o melhor a se fazer e mais efetivo é conscientizar as pessoas a retirarem seus sapatos utilizados na rua ao entrarem em suas residências. De qualquer forma, lavar as ruas seria um gasto de dinheiro público desnecessário, sendo que o melhor a se fazer é conscientizar a população para tomar as medidas de precaução, além de não tossir ou espirrar ao ar livre, manter a distância de 2 metros, no mínimo, dentre outras”, opinou.

A bióloga Celi Lucas Moreira discorda do empresário no que diz respeito à eficácia da medida. “Sim, [a higienização de espaços públicos] tem muita eficácia. Esse procedimento é recomendado pela Anvisa e a substância utilizada é água sanitária e água, que é muito eficiente no combate a vírus e bactérias. O aconselhável é que sejam lavados os locais que têm mais circulação de pessoas, como hospitais, por exemplo. Essa foi uma medida adotada pela China que deu super certo. Cada vez que a higienização é realizada em um local, milhares de vírus são eliminados, o que diminui a chance de muitas pessoas se contaminarem”, avaliou a professora.

Ao ser confrontada com a teoria do empresário, a bióloga concordou que o melhor seria que a higienização fosse feita todos os dias, mas explicou que lavar os espaços públicos pode não salvar todos os transeuntes a todo tempo, mas evita que muitos se contaminem, aumentando a proliferação. “A higienização é momentânea. Quando a prefeitura lava aquele ambiente, mata uma quantidade importante de vírus e bactérias dali. É claro que o local não vai permanecer desinfectado por uma semana. Mas naquele momento, após a higienização, dezenas, centenas ou até milhares de pessoas dependendo do caso e do local, se livram da contaminação, naquele momento”, resumiu. “Se nem isso fosse feito, certamente o número de pessoas transportando o vírus para dentro de suas casas seria muito maior”, defende.

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