Por Pollyanna Xavier
Exatos dois anos separam a morte de duas figuras importantes da Educação superior de Volta Redonda: Geraldo di Biasi Filho, reitor do Centro Universitário Geraldo Di Biase (UGB) e da Fundação Educacional Rosemar Pimentel (Ferp), morreu no último dia 7 de fevereiro, aos 73 anos. Ele sofreu um infarto durante a madrugada, em seu apartamento, no Rio. Dois anos antes, também na madrugada de 7 de fevereiro de 2021, morria Dauro Aragão, presidente da FOA, aos 89 anos, de falência múltipla de órgãos. Os dois deixaram um legado no ensino superior privado regional.
Geraldo de Biasi Filho assumiu a reitoria da Ferp/ UGB em setembro de 2011, após a morte do seu irmão, Mário di Biasi, vítima de um câncer. Médico com especialidade em Urologia, Geraldo nunca tinha trabalhado antes com Educação – apesar de ter crescido neste meio. Seu pai, Geraldo de Biasi, foi o fundador da Ferp, em Barra do Piraí, e do UGB, em Volta Redonda. Com a morte do pai, Mário assumiu a gestão das instituições, e com a morte de Mário, coube a Geraldo aceder ao ofício.
Em quase 12 anos de gestão, Geraldo de Biasi realizou melhorias de infraestrutura no UGB e tentou implantar a Medicina no campus de Barra do Piraí. O esforço, porém, não foi reconhecido pelo MEC, que negou o credenciamento do curso. “Ele era um homem elegante, tratava a todos com respeito, mas não era muito acessível aos funcionários. É preciso dizer que o Dr. Geraldo era a única pessoa da família disponível para assumir a reitoria após a morte do Mário, mas a sua área não era Educação. Era a Medicina, tanto que ele tentou levar este curso para Barra do Piraí”, lembrou um professor do UGB, que pediu anonimato.
A falta de experiência educacional fez com que Geraldo di Biasi trouxesse do Rio outro médico – Francisco Sampaio – professor e cientista da Uerj, que o ajudou na gestão acadêmica, tornando-se, inclusive, pró-reitor do UGB. A parceria permitiu que Geraldo di Biasi continuasse atendendo seus pacientes no Rio e vindo a Volta Redonda apenas duas vezes por semana, às terças e quintas, para reuniões de trabalho. Na terça, 7, o corpo gerencial da faculdade tomou um susto com a notícia da morte do reitor, com quem se reuniria naquela manhã.
Com os professores, Geraldo di Biasi era respeitoso, porém sucinto. Conversava pouco ou quase nada. Mas fazia questão de reuni-los no início de cada ano letivo, para dar-lhes as boas- vindas. “Ele nos encontrava nos seminários que são realizados no início dos anos, fazia um breve discurso, falava das metas e do balanço do ano anterior. O Dr. Geraldo não circulava pela faculdade como o irmão fazia. Não era um reitor acessível aos escalões mais baixos, mas nos momentos em que estava com a gente, era elegante e cordial. Seu papel era dizer sim ou não às ideias trazidas pela gestão acadêmica e administrativa. As honrarias devidas a ele são pela continuidade do legado do pai e do irmão, em manter a Ferp funcionando”, reconheceu.
A preocupação, agora, com o falecimento de Geraldo di Biasi é quanto
ao futuro da Ferp/UGB. A verdade é que a instituição estava com a saúde financeira debilitada, grande parte por culpa da pandemia, e nos últimos três anos só teria conseguido formar classes de Psicologia e Direito. Os demais cursos não estariam atrain- do uma quantidade razoável de estudantes que compensasse a formação de turmas. Pelo apurado, o UGB perdeu muitos alunos. O número dos que saíram seria muito maior do que o dos que entraram. “A conta não fecha. Quem será que vai querer assumir essa bomba?”, questionou a fonte.
No UGB, professores e funcionários são unânimes em dizer que, pelo menos por enquanto, não há na família Di Biase quem assuma a direção das instituições. “Os dois ir mãos ainda vivos moram no Rio e já sinalizaram, em situações anteriores, inclusive na morte do Mário, que não querem assumir a faculdade. O futuro da Ferp ainda é incerto, e as pessoas estão preocupadas. Não sabemos se algum filho do Mário ou do próprio Dr. Geraldo queira assumir. Mas será muito difícil manter a reitoria em família. Também é incerto se o Dr. Francisco irá assumir a reitoria”, comentou.
Além de lamentar a morte de Geraldo di Biasi, professores compararam-na ao falecimento recente de Marcos Capute – reitor da Faculdade Severino Sombra, em Vassouras. Capute morreu no dia 24 de dezembro do ano passado, aos 70 anos, vítima de um câncer. Quando descobriu a doença, dois anos antes, ele treinou um provável sucessor e deixou muita coisa pronta ou adiantada, como, por exemplo, as negociações com o prefeito de Barra Mansa, Rodrigo Drable, e com a Sobeu, para assumir a gestão do UBM – outra faculdade particular da região, cuja saúde financeira é delicadíssima.
“A diferença entre a Severino Sombra e a Ferp é que o reitor de Vassouras estava doente, já o Dr Geraldo morreu de repente, de infarto, no dia que viria a Volta Redonda para uma reunião no UGB. Ele não estava doente. Com certeza, nada ficou preparado ou adiantado. Foi uma coisa repentina, e ninguém pensou nesta sucessão. O Dr. Geraldo estava numa forma física plena, aos 73 anos, mas era uma pessoa extremamente ativa. E como um bom médico que era, se cuidava”, observou a fonte, acrescentando que no Conselho Administrativo da Ferp não há ninguém preparado para o lugar deixado por Geraldo di Biase.
Aliás, sobre o Conselho Administrativo, fontes ouvidas pelo aQui garantem que ele seria formado por amigos da família e teria sido instituído apenas para cumprir exigências estatutárias. “O Conselho não é ativo, os membros só assinavam as decisões tomadas. Não tem ninguém ali que participe efetivamente da Ferp. A pergunta que surge, diante da insegurança, é: como vai ser o futuro desta instituição?”, questionaram.
O aQui entrou em contato com o UGB, via correio eletrônico, para que a instituição comentasse o futuro da faculdade. Mas até o fechamento desta edição (sete dias após o envio do e-mail), não houve qualquer resposta
Nota da redação – No final da tarde de ontem, sexta, 17, o aQui recebeu a informação que Francisco Sampaio foi eleito pelo Conselho Administrativo da FERP/UGB, o novo reitor da faculdade..
O caso da Fusve, UBM e FOA
As mortes dos reitores Geraldo de Biasi, Marco Capute e, a mais antiga, de Dauro Aragão, além de grandes perdas para a comunidade acadêmica, representam experiências diferentes na história do ensino superior privado da região. Enquanto professores e funcionários do UGB vivem a incerteza do futuro da Ferp, o corpo docente e discente do UniFOA assiste ao avanço das negociações para a aquisição do Hospital Hinja, da família do ex-prefeito Gotardo Neto.
A unidade, que deverá ser transformada em hospital- escola para os acadêmicos de Medicina da FOA, é alvo de uma negociação que avança rapidamente. O processo está na fase de auditoria e deve ser concluído até o final de abril. A partir daí, a aquisição será apreciada pela Curadoria de Fundações e pelo Conselho Curador da FOA, que deverá aprová-la em assembleia. Os valores são guardados a sete chaves, mas o negócio representa um avanço no crescimento da FOA.
Quanto ao UBM, a instituição privada de ensino superior de Barra Mansa entrou no radar da Fundação Severino Sombra (Fusve) em meados de 2022, quando o prefeito Rodrigo Drable ajudou a mediar uma negociação entre as duas instituições. Na época, o então vice-presidente da Fusve, Gustavo Amaral, conduziu as conversas em nome de Marco Capute, morto em dezembro do ano passado. Em janeiro deste ano,
Gustavo foi eleito (por aclamação e unanimidade) presidente da instituição, porém ainda não teria retomado as negociações com o UBM.
Para uma pessoa próxima a Gustavo Amaral, ouvida pelo aQui, a retomada é só uma questão de tempo. “Ele não terá dificuldade nesta questão, justamente por ter iniciado as conversas. O Capute estava em tratamento médico e não podia participar das reuniões. Quem sempre esteve era o Dr. Gustavo. Retomar essa pauta não vai trazer qualquer dificuldade para ele”, avalia.
Ela vai além. Diz acreditar que as negociações esbarram em dois impasses, que podem atrasar o processo. O primeiro é que a ideia é implantar um curso de Medicina no UBM e, para isto, estão de olho no antigo Hospital Menino Jesus, para transformá-lo em hospital-escola. A unidade foi adquirida pela prefeitura de Barra Mansa em julho de 2022, com a intenção de torná-la um hospital municipal.
O segundo impasse tem a ver com a revogação, por parte do presidente Lula, de uma portaria publicada no governo de Bolsonaro que definia novas regras para abrir cursos de medicina no Brasil. A medida é temporária – vai até abril –, prazo pedido pela equipe do governo Federal para avaliar as mudanças praticadas no documento que autoriza, reconhece e renova os cursos superiores de Medicina no país. A conferir.



