IA e o (des)emprego

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Pequenas empresas começam a utilizar Inteligência Artificial 

Walter Barros

Larissa Costa, 29, começou a perceber que está com ‘a corda no pescoço’ há dois meses. Mais precisamente, desde quando os donos da pizzaria onde ela trabalha, em Volta Redonda, começaram a testar um aplicativo de IA (Inteligência Artificial) capaz de registrar os pedidos dos clientes de delivery, efetuar pagamentos e tomar outras decisões, tarefas que, por enquanto, ainda são exercidas por ela. “É uma sensação estranha, de estar ultrapassada, de não ser útil. O jeito é estudar, dominar a IA, se eu não quiser ficar para trás”, pontua.
Ela está certa. “A tendência é que a IA elimine tarefas repetitivas e transforme profissões, mas, também, impulsione o surgimento de novas funções, exigindo que empresas invistam em capacitação e que profissionais desenvolvam competências humanas e digitais para permanecerem competitivos”, avalia o professor Lacier Dias, um especialista em estratégia, tecnologia e transformação digital. 

Segundo ele, a IA não vai substituir a capacidade humana de decidir, negociar, criar estratégias e construir relacionamentos. “O que ela faz é automatizar atividades operacionais, liberando tempo para que as pessoas atuem em funções de maior valor agregado. O profissional que dominar essas ferramentas terá uma vantagem competitiva significativa no mercado”, dispara o CEO da plataforma de consultoria B4Data.

Estudos recentes também justificam a determinação de Larissa, funcionária da pizzaria de Volta Redonda, que iniciou um curso de IA on-line e gratuito. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da Pintec 2024, mostram que 41,9% das empresas industriais com 100 ou mais empregados utilizaram IA em 2024, um salto expressivo em relação aos 16,9% registrados em 2022. Paralelamente, a pesquisa TIC Empresas 2025 aponta que cerca de 93 mil empresas brasileiras já utilizam algum tipo de solução baseada em IA, evidenciando que a tecnologia está deixando de ser diferencial para se tornar parte da rotina corporativa.

Na avaliação de Lacier Dias, o maior risco para os trabalhadores não é a IA, mas permanecer alheio à transformação digital. “Historicamente, toda grande revolução tecnológica substituiu algumas atividades e criou outras. A diferença agora é a velocidade. Quem investir em aprendizado contínuo, pensamento crítico, criatividade e capacidade de trabalhar em conjunto com a IA terá espaço crescente nas organizações. A inteligência artificial não veio para substituir pessoas; ela tende a substituir profissionais que resistirem à evolução tecnológica”, concluiu.

O debate sobre o impacto da IA no mercado de trabalho, inclusive na região, ganhou força com a rápida popularização da IA generativa. Por outro lado, os principais estudos internacionais indicam que o cenário não é de substituição em massa da força de trabalho. O Fórum Econômico Mundial, no relatório Future of Jobs 2025, projeta que as transformações tecnológicas deverão eliminar cerca de 92 milhões de empregos até 2030, mas criar algo em torno de 170 milhões de novas vagas, resultando em um saldo positivo de 78 milhões de postos de trabalho. As maiores oportunidades estarão ligadas à tecnologia, análise de dados, inteligência artificial, segurança digital e, ao mesmo tempo, em ocupações que exigem criatividade, relacionamento humano, educação e cuidados pessoais.

Voltando à preocupação de Larissa, ela não está sozinha quando o assunto é o desbravamento da IA. Que o diga Júlio Murakawa, 45. Em agosto, o professor universitário decidiu aproveitar uma oportunidade de aprendizado gratuito em IA, através da abertura de 1,2 milhão de vagas pelo programa ‘Qualifica SP’, da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE) de São Paulo. “Já queria fazer um curso de inteligência artificial e, em uma conversa, comentaram sobre a oportunidade. O objetivo é ter mais noção de funcionamento da ferramenta para trabalhar com IA, porque atualmente só faço consultas. Tudo é muito novo”, relatou Júlio.

A iniciativa da SDE não é a única opção de qualificação gratuita em IA. Outro exemplo é o curso ‘IA para Todos’, da IBM, em parceria com a plataforma educacional StartSe, que disponibiliza um milhão de vagas on-line. As aulas são de até 30 minutos de duração, e a duração total do curso é de 4 horas. As aulas são ministradas por cinco professores. O primeiro módulo desmistifica a IA e pretende mostrar que qualquer pessoa pode utilizá-la. O segundo ensina como integrá-la no dia a dia, enquanto o terceiro trata de aplicações para transformar atividades cotidianas em processos mais produtivos. A última etapa foca na atualização e no uso de diferentes ferramentas.

IA não é modinha

Lacier acredita que a IA vai decepcionar aqueles que não a levam a sério. Para o professor, muitas organizações correm o risco de transformar a IA em um modismo caro ao priorizar aplicações superficiais em vez de mudanças capazes de gerar vantagem competitiva. Ele acredita que a tecnologia mudou a forma como as soluções digitais passam a surgir dentro das empresas. Ferramentas cada vez mais intuitivas permitem que colaboradores de diversas áreas desenvolvam aplicações por conta própria, sem a necessidade de conhecimentos aprofundados em programação. 

O alerta, porém, está no que fica invisível nesse processo. Questões como proteção de dados, capacidade de expansão, integração com os sistemas corporativos e sustentação da infraestrutura costumam ser deixadas em segundo plano quando o foco está apenas na rapidez da entrega. “É possível desenvolver um sistema em pouco tempo, com o apoio da IA. O difícil é garantir que ele seja robusto, seguro, preparado para crescer e efetivamente contribua para os objetivos da empresa. Essa etapa continua exigindo conhecimento técnico e planejamento”, explica.

Na avaliação do especialista, muitas empresas estão direcionando esforços para substituir processos já consolidados por ferramentas mais bonitas ou mais modernas, mas que pouco alteram indicadores estratégicos, produtividade ou resultados financeiros. “Existe um entusiasmo enorme para automatizar tarefas e criar interfaces inteligentes, mas pouca discussão sobre como a IA pode transformar processos críticos, apoiar decisões estratégicas ou gerar novas fontes de receita. Em muitos casos, a tecnologia está sendo utilizada para o ‘frufru’, e não para enfrentar os verdadeiros gargalos da organização”, observa.

Essa lógica, segundo Lacier, também produz um efeito financeiro frequentemente ignorado. Embora exista a percepção de que a IA reduz custos, diversos projetos acumulam despesas com assinaturas de plataformas, licenças, treinamento, hospedagem, manutenção e horas de profissionais especializados antes mesmo de comprovar qualquer retorno sobre o investimento. Em alguns casos, os aportes chegam à casa das centenas de milhares de reais, sem evidências concretas de ganho operacional.

Outro risco é que projetos desenvolvidos sem participação da área de tecnologia acabam retornando posteriormente para as equipes de TI praticamente do zero. Isso acontece porque aplicações criadas sem planejamento frequentemente apresentam falhas de segurança, limitações de desempenho, ausência de integração com os sistemas corporativos e dificuldades para atender um número maior de usuários. “A IA acelera o desenvolvimento, mas não substitui arquitetura, governança, nem engenharia de software. Ignorar isso significa apenas adiar um problema que será mais caro de resolver”, destaca.

Para o especialista, o debate sobre Inteligência Artificial nas empresas precisa evoluir. Em vez de se perguntar quais tarefas podem ser automatizadas, as organizações deveriam questionar quais problemas estratégicos precisam ser resolvidos e como a IA pode contribuir para isso. “A tecnologia não deveria ser medida pela quantidade de aplicações criadas, mas pela capacidade de aumentar produtividade, reduzir riscos, melhorar a tomada de decisão e fortalecer o negócio. O verdadeiro diferencial competitivo não estará em quem usa mais IA, mas em quem a utiliza para transformar aquilo que realmente importa”, concluiu. 

 

Cursos gratuitos envolvendo IA 

O Senac RJ está oferecendo 3.350 vagas gratuitas para cursos com uso de Inteligência Artificial, com início a partir de 11 de setembro. Os cursos ‘Como integrar IA no Excel’ e ‘Marketing Digital com IA’ terão 8 horas de aula, que serão realizadas no modo on-line e ao vivo. As inscrições devem ser realizadas pelo link https://cursos.rj.senac.br

 No ‘Como integrar IA no Excel’, os participantes irão aprender operações essenciais do Excel associadas ao uso estratégico de assistentes virtuais de inteligência artificial. Os alunos vão aprender a planejar, criar fórmulas e analisar dados de forma inteligente, tornando a utilização profissional mais rápida e eficiente. Para se inscrever, é necessário ter idade mínima de 14 anos e conhecimentos básicos de informática.

Já o ‘Marketing Digital com IA’ requer idade mínima de 16 anos e noções básicas de informática. É ideal para quem quer começar a criar conteúdos no ambiente digital e entender como usar o marketing e a inteligência artificial para divulgar produtos e aumentar vendas. Os participantes irão aprender a criar conteúdos de vídeos que engajam nas redes sociais, utilizando Inteligência Artificial, com foco em formatos como Reels no Instagram e TikTok.

Serviço
3350 vagas gratuitas em curso de Inteligência Artificial
Inscrições: https://cursos.rj.senac.br
Modo on-line e ao vivo
Gratuito