‘Hora da onça beber água’

Racha pode marcar convenção do PSD para eleições de 15 de novembro

Na quarta, 19, dois políticos de Volta Redonda estiveram no Rio de Janeiro para tornar público à direção da legenda, onde estão filiados, que são, sim, candidatos a pré-candidato a prefeito da cidade do aço. Foram no mesmo carro, contaram tudo aos caciques do partido e ganharam sinal verde para manter as esperanças. Receberam até um conselho: “preparam-se para disputar os votos dos integrantes do diretório municipal em convenção que deverá ocorrer no próximo dia 2 de setembro, em local e horário ainda incertos”.

 

Com dois pequenos grandes detalhes: a escolha do pré-candidato a prefeito de Volta Redonda, não importa o nome, terá que passar pelo crivo de um deputado federal, filiado ao partido, e ainda do diretório estadual. Tanto suspense faz sentido. Estamos falando do PSD, partido cujo diretório municipal é comandado pelo ex-deputado estadual Nelson Gonçalves, que é secretário de Governo do prefeito Samuca Silva, que é pré-candidato à reeleição.

 

Nelsinho, até então, figurava como um dos apoiadores de Samuca, que foi quem o tirou do ostracismo desde que não conseguiu se reeleger para a Alerj. Só que Nelson, filho do ex-prefeito Nelson dos Santos Gonçalves, e pai de Nelsinho, ex-vice-prefeito do ex-prefeito Neto, se aliou a Baltazar, ex-prefeito, ex-deputado federal, e ex-diretor da OS que comanda o Hospital do Retiro, cargo que lhe foi dado por Samuca.

 

Quando Samuca anunciou que desistiria de disputar a eleição, Nelsinho apressou-se em lançar o nome de Baltazar como seu pré-candidato. Sabe-se lá por que, lançou mais alguns postulantes ao cargo: o ex-secretário de Saúde, Alfredo Peixoto, apontado como um provável candidato do Palácio 17 de Julho; o vereador Maurício Pessôa, líder do governo na Câ-mara, e o vereador Luciano Mineirinho, ‘cumpadre de Samuca’.

 

Só que, como o aQui previu, Samuca desistiu de desistir, e o que fez Nelson? Bateu palmas para o seu chefe? Não. Muito pelo contrário. Pegou Baltazar pelo braço e correu ao encontro do senador Arolde de Oliveira, presidente da executiva estadual do PSD, e o apresentou como seu pré-candidato à sucessão de Samuca. Posaram para a posteridade ao lado do Senado, sem atentar para a reação que desencadeariam a seguir.

 

O primeiro a reagir foi Maurício Pessôa, líder do governo Samuca. “Não fui consultado sobre o lançamento do Baltazar. Se é assim, também sou pré-candidato a prefeito”, afirmou, reagindo ao anúncio feito por Nelsinho. Detalhe: Mauricinho, como é conhecido, já tinha desistido do sonho ao pedir a Samuca que desistisse de desistir.

 

O segundo foi Alfredo Peixoto, que não gostou nada, nadica de nada, de descobrir nas redes sociais que o PSD, legenda ao qual se filiou pelas mãos de Samuca, tinha lhe virado as costas. Que Nelsinho teria fechado com Baltazar, o abandonando sem emprego e sem a sonhada pré-candidatura que assumiu quando o atual prefeito lhe chamou e disse: “Chegou a sua vez”. Ele acreditou e dançou…

 

Irritado e não disposto a dançar mais uma vez, Alfredo conseguiu apoio de Maurício Pessôa para, juntos, se rebelarem contra Nelsinho. Há quem diga até que os dois teriam pressionado Samuca a demitir o ex-deputado estadual, o filho dele, o ex-vice de Neto e ainda uma penca de protegidos.

 

Estrategicamente, segundo uma fonte, Samuca ficou quieto e não reagiu. Chegou a posar ao lado do atual desafeto em uma cerimônia no Cais Aterrado, que foi credenciado pelo Ministério da Saúde como um hospital de verdade. O velho Cais Aterrado agora virou Hospital Dr. Nelson dos Santos Gonçalves, pai de Nelsinho e avô de Nelsinho, filho do ex-deputado.

 

Como Samuca teria optado por não transformar Nelsinho em vítima, Alfredo, com apoio do deputado federal Alexandre Serfiotis, do PSD de Porto Real, e Maurício Pessôa, com apoio de vários candidatos à Câmara, subiram a Serra das Araras. Já no Rio de Janeiro, bateram na porta do gabinete do senador Arolde de Oliveira. Deram as suas versões para o imbróglio e saíram sorridentes do encontro. Pena que não dê para ver o sorriso da dupla, já que todos estavam de máscara, como mostra a foto.

 

Já em Volta Redonda, o que eles fizeram? Correram às redes sociais e – assim como Nelsinho e Baltazar fizeram – postaram a foto em suas páginas no Facebook. “Estive hoje (quarta) no diretório regional do Partido Social Democrático (PSD), em reunião com o senador Arolde de Oliveira e reafirmei minha intenção de ser pré candidato a prefeito de Volta Redonda pelo PSD. #eleicoes2020 #prefeituradevr #pmvr #poramoravoltaredonda #vamosjuntos #precanditado”, escreveu Maurício Pessôa.

 

Usando a mesma foto, Alfredo Peixoto deu o seu recado aos internautas-eleitores. “Em reunião com o senador Arolde de Oliveira ( PSD), reafirmo minha pré-candidatura a prefeito de Volta Redonda pelo PSD”, postou.

Convenção

Baltazar, Maurício e Alfredo terão poucos dias pela frente – até o dia 2 de setembro – para agirem nos bastidores. O primeiro conta, é claro, com a indicação de Nelsinho, que domina o diretório local do PSB, formado por apenas 10 pessoas com direito a voto, além do líder da legenda na Câmara que, vejam só, passou a ser o vereador Maurício Pessôa.

 

O parlamentar, aliás, deve mesmo trabalhar nos bastidores para ser indicado pelo PSD para sair de vice na chapa de Samuca. Conta, segundo fontes, com o apoio de cinco ou seis vereadores da base do governo e, ao se filiar à legenda para disputar a reeleição, ajudou na montagem da nominata. “Se a pré-candidatura do Baltazar for abortada, o PSD deverá compor com o PSC de Samuca, e aí o Maurício Pessôa tem chance de vir a ser o vice da chapa”, pontua uma delas, pedindo anonimato.

 

Saúde, voltou ao batente para sobreviver. E ele está disposto a manter seu nome na disputa, “com Baltazar (na convenção) ou com Samuca (na eleição)”, disse, ao ser procurado pelo aQui para falar sobre o seu encontro com o senador Arolde de Oliveira. “Deixei claro que também sou candidato a pré-candidato a prefeito pelo PSD”, disparou, referindo-se à disputa que vai enfrentar para ter o nome homologado pela legenda na convenção de setembro. “Ninguém me perguntou se eu tinha desistido. Não desisti”, reiterou.

 

Vale lembrar que Alfredo também ficou insatisfeito com Samuca que, ao desistir de desistir, não lhe avisou nada. “Eu lembro que ele (Samuca) me disse: chegou a sua vez. Acho que chegou mesmo. Vamos disputar a indicação na convenção do PSD e, depois indicado, vamos à luta”, sentenciou Alfredo, que terá, nos dois casos, o apoio direto do deputado federal Alexandre Serfiotis.

 

A presença do parlamentar, eleito por Porto Real, terá influência direta no futuro da legenda nas eleições de 15 de novembro. Amigo pessoal de Alfredo e aliado a Samuca, o deputado, segundo conta uma fonte, deverá trabalhar para que o PSD caminhe ao lado do PSC, indicando um nome para sair como pré-candidato a vice-prefeito de Samuca. Ou seja, o de Alfredo. “Se o Samuca concordar com a aliança, a dobradinha tem tudo para dar certo”, crê a fonte, lembrando que o prefeito e o seu ex-secretário de Saúde formaram uma boa dupla no combate à Covid-19.

Democrático

O ex-deputado estadual Nelson Gonçalves, secretário de Governo de Samuca Silva, voltou a ser procurado pela reportagem do aQui para falar do presente e do futuro do PSD. Limitou-se, como sempre, a ser comedido nas suas palavras. Sobre o encontro de Alfredo e Mauricinho com o senador Arolde de Oliveira, defendeu a seguinte tese: “(É) Um direito de todo filiado do partido ter contato com o diretório regional”.

 

Indagado pela reportagem se não estaria vendo a viagem dos dois políticos como uma desfeita ao seu posicionamento pró-Baltazar, Nelsinho foi curto e grosso. “Não”, respondeu. Mas garantiu que tanto Maurício Pessôa quanto Alfredo Peixoto poderão disputar a indicação de pré-candidato à sucessão de Samuca Silva na convenção do PSD. “A disputa é democrática e salutar. Caberá ao diretório decidir o que é melhor para o partido”, pontuou.

 

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