Entidades da região refutam ‘bairrismo’ em campanha da Aciap-VR
Walter Barros
Focada no engajamento em torno apenas de candidatos da Cidade do Aço, e de olho no aumento da representatividade política do município nas esferas estadual e federal, a campanha ‘Vote por Volta Redonda’, da Aciap-VR, desagradou a várias instituições do Sul Fluminense. Para elas, a direção da Associação Comercial errou a mão e acabou promovendo uma iniciativa bairrista, na contramão da integração regional. Na mesma direção, representantes da política local entendem que a estratégia de sobrepor os interesses de Volta Redonda aos da região pode acabar atrapalhando candidaturas em ascensão regional.
Lançada em julho, a campanha, em tese, tem lá seus motivos, já que os ‘forasteiros’ abocanharam cerca de 60% dos quase 180 mil votos válidos de Volta Redonda nas eleições de 2022, ao sabor de boatos da distribuição de ‘caminhões de dinheiro’, o que, dizem, estaria se repetindo este ano, já que os eleitores volta-redondenses já chegaram a 222 mil, o que corresponde a cerca de 25% dos 900 mil eleitores do Sul Fluminense.
Ao justificar a campanha na imprensa, o presidente da Aciap-VR, Maycon Abrantes, lembrou que Volta Redonda não elege um deputado federal há duas eleições e ressaltou o objetivo da iniciativa: “Fazer com que a população entenda a importância de votar no candidato da nossa cidade, porque, com isso, a gente compromete muito os investimentos aqui na nossa cidade”, disse. O curioso é que Maycon, como mostra a foto, derreteu-se todo em sorrisos para Hugo Leal, deputado federal, forasteiro, em recente encontro na cidade.
Outros números de 2022 confirmam a ‘preocupação’ de Abrantes. Afinal, Volta Redonda ajudou a eleger ou reeleger nomes conhecidos do cenário nacional, como Lindbergh Farias (PT), Doutor Luizinho (PP), General Pazuello (PL), Benedita da Silva (PT) e Otoni de Paula (MDB), que levaram do município entre 2.000 e 3.700 votos cada um nas eleições passadas.
O curioso é que o pontapé inicial da campanha da Aciap-VR começou justamente com a presença de um ‘forasteiro’, o coronel da PM Luiz Henrique, candidato a deputado federal. Ele é carioca da gema, tendo morado em Volta Redonda entre 2009 e 2016, quando comandou a Guarda Municipal. É ligado ao prefeito Neto e tem apoio até de adversários (poucos) do Palácio 17 de Julho, como o ex-vereador Granato.
Ainda que possa ser considerada contraditória, a presença do PM Luiz Henrique no lançamento da campanha não é o pivô da discórdia de representantes de outras entidades regionais. É o que se conclui pelo posicionamento do presidente e fundador da CDL de Barra do Piraí, Beto Loureiro. Em entrevista ao aQui, ele observou que os municípios precisam de parceria para sobreviver e lembrou que a entidade comandada por ele possui associados de outras cidades.
Empresário e ex-secretário executivo da Secretaria de Trabalho de Barra do Piraí, Loureiro disse que a atribuição constitucional de deputados não é de legislar para determinada cidade. “Respeito o posicionamento da Aciap-VR, mas, enquanto entidade, discordo de uma campanha focada em candidaturas de um único município, porque isso enfraquece a região como um todo. Um exemplo de que a atuação dos municípios funciona melhor de maneira conjunta é o Hospital Regional, que não conseguiria existir somente com os recursos de um único município, e que acaba beneficiando todas as cidades consorciadas”, disparou.
Economista especialista em gestão de cidades pela FGV, Beto Loureiro também citou os consórcios intermunicipais que contemplam várias cidades nas áreas de saneamento básico e projetos de cunho ambiental. Entre eles, os aterros que atendem vários municípios, como o de Vassouras. “Sendo assim, a polarização local não contribui para o desenvolvimento da região. Não podemos criar ilhas de progresso nas cidades maiores em detrimento das menores do entorno”, concluiu.
O presidente da CDL Itatiaia e Resende, Adelmo Pazzini, entende que a iniciativa do ‘Vote por Volta Redonda’ seja legítima e importante para estimular a participação política e a representatividade dos municípios. “Cada cidade tem o direito de defender seus interesses e buscar maior representatividade para suas demandas. Respeitamos a iniciativa da Aciap Volta Redonda e entendemos a importância de fortalecer a representatividade do município. Entretanto, quando falamos em desenvolvimento econômico e político do Sul Fluminense, acreditamos que é fundamental também pensar de forma regional”, emendou.
Pazzini acredita que o Sul Fluminense pode perder oportunidades quando os interesses municipais são colocados acima das pautas que são comuns à região. “Não vemos como uma questão de ‘Volta Redonda contra os demais municípios’, mas como uma oportunidade de construir uma representação política que contemple as diferentes necessidades do Sul Fluminense. Quanto mais unidos estivermos em torno de pautas regionais, maior será nossa capacidade de reivindicar investimentos e políticas públicas para toda a região”, justificou.
O representante da CDL Itatiaia e Resende argumentou ainda que o desenvolvimento de uma cidade não precisa acontecer em detrimento das cidades vizinhas. “Uma região economicamente forte é aquela em que seus municípios conseguem crescer de maneira integrada. Nossa posição é pela união, pelo diálogo e pelo fortalecimento do Sul Fluminense como um todo, respeitando as particularidades e os interesses legítimos de cada município”, finalizou.
Quem está de acordo com os empresários acima é o ex-presidente da Câmara de Volta Redonda, Luis Soró. Veja o que ele escreveu em uma publicação do aQui nas redes sociais, referente ao apoio do prefeito Neto à candidatura para deputado federal do ex-prefeito de Resende, Diogo Balieiro (PL). “Já imaginou se os cidadãos de cidades vizinhas boicotarem o comércio de Volta Redonda?”, indagou, levantando uma boa tese para ser discutida pelos eleitores. “A melhor campanha é votar em candidato da região, e o melhor e com chances reais de conquistar a vaga nesse momento é o Diogo Balieiro. Temos que fazer uma campanha pelo voto útil, pelo Diogo Balieiro. Quem ganha com isso é a nossa região, que vai se fortalecer cada vez mais”, pontuou.
A presidente da Aciap de Barra Mansa, Fernanda Moysés, preferiu não opinar, alegando que a entidade é apartidária e que sua atuação é pautada pelo seu estatuto e pelos princípios institucionais da entidade. “A Aciap-BM está aberta ao diálogo com candidatos e pode receber aqueles que desejem apresentar e discutir seus projetos e propostas com o setor empresarial. Isso, entretanto, não significa apoio, posicionamento político ou participação da entidade em campanhas eleitorais”, declarou.
Indagada sobre a iniciativa da Aciap-VR, ela preferiu não polemizar. “A entidade respeita as iniciativas e as formas de atuação adotadas por outras instituições, entendendo que cada organização possui suas próprias características, normas e princípios”, concluiu.
Procurada pela reportagem, a Associação Comercial e Empresarial de Barra do Piraí (ACEBP) não havia se pronunciado até o fechamento desta edição. Já a CDL de Porto Real e Quatis preferiu não se posicionar. Maycon Abrantes, presidente da Aciap-VR, também não respondeu ao questionamento da reportagem sobre o direcionamento da campanha. O espaço, entretanto, continua aberto, à espera de um pronunciamento.

