‘Esquerda volver’

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Como os petistas da terra de Flávio Bolsonaro explicam a preferência dos eleitores pela direita 

Walter Barros

Adélice Maria Modesto e Flávio Bolsonaro têm uma coisa em comum: ambos nasceram em Resende. No mais, o presidenciável de direita e a militante de esquerda podem ser comparados a água e óleo: ele, a água; ela, o óleo. Afinal, a vida da petista não é nada fácil, já que a cidade é tradicionalmente conservadora. Não por acaso, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) recebeu 44.732 votos (61,86%) no segundo turno das eleições de 2022, ante 27.584 votos (38,14%) conferidos ao presidente Lula (PT). Mas Adélice não está sozinha. Ela faz parte de um grupo que vai às ruas todos os dias para tentar virar o jogo.

“Ser mulher negra, periférica e militante de esquerda em uma cidade onde o conservadorismo ainda é forte é enfrentar barreiras gigantes todos os dias. É ocupar espaços onde muitas vezes somos vistas como ‘cota’, e não como mulheres capazes e preparadas. É sentir o peso do racismo e do preconceito político, mas também transformar resistência em voz. Estar na política é afirmar que lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive decidindo os rumos da nossa cidade e do nosso país. É também defender a democracia, os direitos conquistados e a participação popular, porque sem democracia não há justiça social nem liberdade para todas e todos”, desabafa.

A integrante do grupo ‘Mulheres Negras de Resende’ atribui o conservadorismo da cidade e da região das Agulhas Negras a fatores históricos, culturais, econômicos e à forte presença de instituições tradicionais. Uma delas é a Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), onde Jair Bolsonaro servia quando os filhos Flávio (1981), Carlos (1982) e Eduardo (1984) nasceram. Apesar disso, ela acredita que “a região está mudando, e o diálogo e a participação social são fundamentais para ampliar esse debate”.

Na linha de frente com Adélice está Cloves Alves, que assumiu a presidência do diretório do PT em Resende sabendo que não seria fácil ampliar o espaço do partido entre o eleitorado local, que, segundo ele, sofre forte influência dos grandes latifundiários, de famílias ricas e poderosas. “Eu sou um homem preto, periférico, financeiramente pobre, com consciência de classe. Enfrentar essas pseudoelites da sociedade e tentar construir uma Resende mais igualitária, mais saudável a todas as pessoas, é sempre um desafio”, explica o líder comunitário.

Bacharel em Direito, Cloves argumenta que as pessoas, em geral, não fazem ideia do que é ser conservador. “Eu pergunto se elas querem conservar a miséria, a desigualdade, o racismo, a misoginia. Todas são unânimes em dizer que não querem, então eu digo que elas não são conservadoras”, explica.

Ele vai além. Diz que também vê na esquerda um caminho para a conquista de representatividade. “Ser um líder comunitário e estar envolvido com movimentos sociais é minha paixão, minha razão de ser. É a gente poder lutar por algo que a gente acredita. Essas são as ferramentas que a gente tem, participando dos movimentos sociais, ser um presidente de associação de moradores, poder cobrar do poder público, seja o gestor de direita ou de esquerda”, acrescenta.

Derik Roberto é outro que enxerga na esquerda uma alternativa para ‘remar contra a maré’. “Sou filho de pedreiro e empregada doméstica, nascido e criado na Fazenda da Barra 3. Estudei a vida toda em escola pública e cheguei à faculdade de Direito da UFRRJ. Desde cedo, vi de perto como a pobreza pode humilhar e limitar as possibilidades de uma pessoa. Decidi militar porque acredito que a política é um dos principais caminhos para enfrentar a desigualdade social”, conta.

Derik, advogado, reconhece que ser petista em Resende não é fácil. “É desafiador ser de esquerda aqui, mas nunca foi fácil lutar contra a desigualdade e os privilégios. Ser de esquerda exige coragem. Meus antepassados tiveram essa coragem quando ela podia custar a própria vida. Graças à luta deles, hoje ela custa apenas alguns olhares atravessados. E, graças à nossa luta, espero que um dia possamos manifestar nossa ideologia sem qualquer receio”, desabafa o secretário de Organização do PT no município.

Hostilidade

Os petistas da terra dos Bolsonaros acreditam na melhora do desempenho de Lula nas urnas em Resende este ano, mas reconhecem a força da extrema direita no município. Comparando com campanhas anteriores, “quando as pessoas tinham medo de se mostrar de esquerda”, Adélice diz que a aceitação do PT e de Lula tem apresentando um aumento expressivo, embora a desaprovação bolsonarista ainda seja muito forte. “Na última semana uma senhora veio em nossa direção e, ao passar, falou para um amigo: se juntar mais alguns é formação de quadrilha; ao ser rebatida, fechou a cara e continuou sua caminhada. O diálogo quase nunca surte efeito, mas estamos rebatendo mostrando a verdade dos fatos, embora não aceitem”, conta a integrante do grupo de Jongo ‘Dona Aparecida’ e do grupo de capoeira ‘Raiz Negra’.

Cloves acrescenta que o diretório se mantém aberto durante a campanha, que a aceitação ao PT tem sido “maravilhosa” e que o perfil da sigla no município acaba de superar 7 mil seguidores. Mas ele não esconde a força da extrema direita na cidade. “Tem acontecido muita hostilidade comigo e com minha equipe. Por exemplo, uma senhora pensionista vitalícia de militar chegou a uma de nossas apoiadoras, na feira, xingando, agredindo, dizendo estar decepcionada, porque sempre gostou dela, mas que era um absurdo ela apoiar o Lula, gritando. A madame se achando no direito de chegar numa mulher preta, periférica, pobre, a ponto de querer obrigar a apoiar ou votar em quem ela quer”, dispara.

Derik Roberto, no entanto, protagonizou o caso mais emblemático enfrentado pela militância petista de Resende durante a campanha deste ano, através de um bate-boca acalorado com um vereador bolsonarista. A briga, que precisou ser contida pela Polícia Militar, viralizou nas redes sociais, já que o oponente do advogado também disse que foi provocado pelo petista. “Naquele dia, estávamos no Calçadão fazendo uma atividade de campanha, quando o vereador chegou e interrompeu a nossa banquinha. Eu respondi às provocações e cobrei questões trabalhistas relacionadas a ele. A partir daí, ele perdeu a compostura, e a situação precisou ser contida”, rebate Derik.

Escala global

Apesar das peculiaridades de Resende, o avanço da extrema direita é um fenômeno global. Foi o que explicou o professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo, Amâncio Jorge Silva, em entrevista recente ao Jornal da USP.

“A ascensão dos partidos de direita tem sido responsiva ou derivada principalmente de uma insatisfação com relação à sociedade reagindo ao que entende ser os efeitos da globalização, ou seja, o não atendimento a políticas públicas, políticas de bem-estar (…) começam a surgir esses partidos anti-globalização, anti-imigração, anti-estrangeiros, anti-integração regional, como acontece na Europa. Então, o significado desses partidos são crises de fato da democracia, do ponto de vista de representação, mas também de qualidade de vida”, observou.

Para o pesquisador, o avanço das tecnologias também facilitou o processo de integração social, cultural e econômica. O que, por outro lado, inflamou movimentos e ideias protecionistas e anti-migratórios, característica notável e muito presente em partidos de extrema direita.