Entre a tradição operária de esquerda e a virada eleitoral das últimas décadas
Mateus Gusmão
Volta Redonda nasceu para ser uma cidade operária. Virou berço de um sindicalismo historicamente combativo e foi palco de uma das greves mais emblemáticas da história recente do país. Acabou passando por uma verdadeira metamorfose política. Berço da CSN e de D. Waldyr Calheiros, o chamado “bispo vermelho”, que enfrentou os militares da ditadura, na época em que era considerada área de Segurança Nacional, e cuja história se entrelaça com a luta pela redemocratização.
A greve de 1988, que terminou com três operários mortos por soldados do Exército, ecoou nacionalmente e ocorreu no mesmo ano em que Luiza Erundina, do PT, foi eleita prefeita de São Paulo. Em 2010 e 2014, Volta Redonda deu mais votos à petista Dilma Rousseff do que aos adversários da direita. Em 2018 e 2022, porém, Jair Bolsonaro virou o jogo e conquistou a maioria dos votos da Cidade do Aço, tanto contra Fernando Haddad quanto contra Lula.
Uma mudança que não passa despercebida e que gera uma questão incômoda: a Cidade do Aço, que já foi referência de mobilização operária e resistência política, endireitou de vez? Ou a história construída nas ruas e nas fábricas já não encontra correspondência nas urnas? Afinal, entre a memória da greve de 88 e o voto de direita nas últimas eleições, o que aconteceu com Volta Redonda?
Para tentar entender o fenômeno, o aQui procurou o conselheiro do Movimento Ética na Política (MEP) e professor Raphael Lima, doutor em Sociologia. Entre as reflexões do pesquisador está a de que Volta Redonda não se tornaria necessariamente uma cidade de esquerda apenas por ser operária e ter um sindicalismo forte. É preciso, segundo ele, considerar os contextos históricos e locais.
“O fato de ser uma cidade industrial, operária, não faz necessariamente dela uma cidade de esquerda. Isso não muda o fato de estarmos em um estado conservador, em um país conservador. O Sul Fluminense tem a tradição antiga das fazendas de café e leite, o que carrega, de certo modo, um conservadorismo”, destacou o professor. “A partir da década de 80, tivemos, sim, influência de setores progressistas na sociedade, como segmentos da base da Igreja Católica, o sindicalismo, entre outros. Foi até eleito um prefeito de esquerda: Juarez Antunes”, comentou Raphael.
O professor também chama atenção para as transformações econômicas e políticas que atravessaram a cidade nas últimas décadas, como a privatização da CSN e a implantação de políticas neoliberais. “Depois vieram os governos Lula. Em 2010, Dilma venceu Serra na cidade com 61% dos votos. Já em 2014, contra Aécio Neves, a porcentagem caiu um pouco. Logo após veio o impeachment e o crescimento de uma direita”, comentou.
“Em 2018, veio a onda do bolsonarismo. Bolsonaro venceu Haddad com uma vantagem grande naquela eleição. Mas, em 2022, contra Lula, ele venceu, mas a vantagem diminuiu”, disse.
Doutor em Sociologia, Raphael vai além da relação entre a origem operária da cidade e o comportamento eleitoral. Para ele, não existe uma associação automática entre ser trabalhador e votar em partidos de esquerda. “Na literatura, a gente pode até ver essa ligação direta de um operário votar no PT, no PCdoB, entre outros. Mas não é isso. Temos operários que votam em todos os partidos, no centro, na direita”, acrescentou.
O professor observa ainda que Volta Redonda já está na quarta geração de trabalhadores da CSN e que parte dos filhos de metalúrgicos seguiu outras profissões. “A gente também costuma ver muitos profissionais liberais que são filhos de metalúrgicos na cidade. Os pais até poderiam votar na esquerda. Mas essas pessoas, como profissionais liberais, têm outras demandas e acabam optando pelo centro ou pela direita”, pondera.
Ao olhar para a eleição deste ano, Raphael avalia que a tendência é de Flávio Bolsonaro receber mais votos do que Lula em Volta Redonda. “O Rio de Janeiro, vale lembrar, é a base do bolsonarismo. Foi aqui que o bolsonarismo nasceu. As pesquisas apontam uma vitória do Flávio no Rio, mas com um percentual de votos menor do que o pai, Jair, teve em 2022”, prevê.
Movimento veio para ficar
Se, para o professor, a mudança passa por uma série de fatores históricos, sociais e econômicos, para o empresário Hermiton Moura, criador do movimento ‘Vem Pra Direita’, em 2015, a transformação também é resultado da organização política da direita na cidade. Ele acredita que a tendência de crescimento desse campo político veio para ficar. “Acredito que, em algum momento, a verdade venha à tona. Ninguém consegue enganar muita gente por muito tempo. A população passou a questionar uma doutrina que, na minha visão, promete uma sociedade ideal, mas não entrega os resultados anunciados. Esse processo começou antes de 2018. Em março de 2015, fundamos o movimento ‘Vem Pra Direita’ em Volta Redonda, quando ainda era difícil defender publicamente essas ideias. Fomos às ruas, promovemos manifestações e levamos informação para a população”, comentou.
Para Hermiton, a liderança política de Jair Bolsonaro já vinha fortalecendo a direita, mas 2018 foi o grande ponto de inflexão. “Sua eleição multiplicou uma onda que já estava em formação. Bolsonaro se tornou o maior líder que a direita já produziu na América Latina e mudou definitivamente o cenário político brasileiro. Volta Redonda acompanhou esse movimento, e o ‘Vem Pra Direita’ teve participação ativa nessa transformação”, acrescentou.
O empresário acredita que a direita chega à eleição deste ano mais organizada e consolidada. “A onda que começou em 2015 ganhou escala nacional com Bolsonaro em 2018 e se transformou em um movimento político permanente”, disse. Para ele, o eleitor está mais informado e atento ao histórico, às posições e às propostas de cada candidato.
“Hoje, a escolha política está menos condicionada à tradição e mais à convicção individual. Por isso, acredito que esse movimento continuará crescendo este ano e nos próximos. A onda começou em Volta Redonda, ganhou o Brasil e não parou”, opinou. Hermiton reconhece que Volta Redonda tem uma história política fortemente ligada à esquerda, especialmente pela trajetória da CSN, do movimento sindical e da classe trabalhadora. Mas, na avaliação dele, a cidade mudou, e o eleitor também.
“Quando fundamos o movimento ‘Vem Pra Direita’, em 2015, começamos a romper essa hegemonia, levando às ruas um debate que até então tinha pouco espaço. Bolsonaro já vinha fortalecendo a direita, e sua eleição, em 2018, foi o grande ponto de inflexão”, completou.
O empresário também atribui às redes sociais parte dessa transformação. “As redes sociais democratizaram o acesso à informação e permitiram que o cidadão conhecesse outras ideias, confrontasse discursos com resultados e formasse sua própria opinião”, pontuou. Na avaliação de Hermiton, essa mudança representa um processo de amadurecimento político. “O eleitor de Volta Redonda percebeu que não precisa votar como sempre votou. Pode escolher de acordo com suas convicções. O movimento que começamos em 2015 cresceu, se multiplicou em 2018 e continua avançando”, concluiu.

