Desabastecimento de seringas de insulina pode comprometer tratamento de pacientes diabéticos
A semana começou com a Secretaria de Saúde de Barra Mansa acionando um plano de contingência para enfrentar o desabastecimento de seringas de insulina na cidade, e terminou com o Governo do Estado reunindo representantes dos 92 municípios fluminenses para discutir os efeitos do El Niño na saúde da população. Assuntos diferentes, semana densa e um alerta na saúde pública: os gestores municipais precisam estar preparados para lidar com problemas que, muitas vezes, começam longe deles, mas acabam batendo à porta da rede municipal. E o detalhe ruim é que muitas vezes esses problemas levam a saúde pública para a sala vermelha.
A questão do desabastecimento de seringas de insulina em Barra Mansa é, no mínimo, controversa. É que o município confirmou o desabastecimento, emitiu nota informando o problema à imprensa e acionou um plano de contingência para não prejudicar pacientes diabéticos que, diariamente, precisam do insumo e da medicação. O problema é que, enquanto Barra Mansa afirma que a falta “é reflexo de um cenário mais amplo” e que até municípios vizinhos também enfrentam as mesmas dificuldades, Volta Redonda garante que não há desabastecimento e mantém o fornecimento normalmente. “As insulinas em Volta Redonda não estão em falta”, garantiu Márcia Cury, secretária de Saúde.
Segundo ela, a última remessa chegou no dia 13 de agosto, enviada pelo Ministério da Saúde. O material foi entregue na Farmácia Municipal, onde ocorre a dispensação de forma descentralizada. Tanto os pacientes com receita médica quanto as unidades de saúde recebem o insumo, cuja distribuição estaria normal. Já em relação à falta de insulina, Márcia garantiu que a “assistência farmacêutica disponibiliza um elenco de medicamentos com mais de 200 itens, e o monitoramento do estoque ocorre diariamente”. Ainda de acordo com a secretária, “todas as rupturas são solucionadas da forma mais rápida possível”, afirmou, mostrando que a Cidade do Aço não atravessa o mesmo problema de Barra Mansa.
E parece que Porto Real e Quatis também não. Conforme apurado pelo aQui, a distribuição de insulinas e seringas nestes dois municípios estaria normal. “Não há sobras, mas também não está faltando. Recebemos um quantitativo de acordo com a demanda do município”, informou um funcionário da Farmácia de Porto Real, que pediu para não ser identificado. Em Quatis também está tudo normal. O aQui não conseguiu confirmar com a Prefeitura de Resende, mas uma fonte do jornal informou que, quando há problemas como este, de forma generalizada, o próprio Ministério da Saúde e a Secretaria de Estado de Saúde emitem notas técnicas alertando do problema.
O que existe, a que o aQui teve acesso, é uma Nota Técnica do Ministério da Saúde (COPAFB/CGAFB/DAF/SCTIE/MS nº 26/2026), emitida em março, que reconhece um “cenário de restrição global das insulinas humanas NPH e regular”. O documento, porém, não trata de desabastecimento de seringas, mas de insulinas, e informa que o Ministério precisou recorrer a empresas estrangeiras diante da dificuldade de o mercado nacional atender sozinho à demanda. Mais adiante, a nota afirma que, apesar do cenário internacional, “as aquisições realizadas pelo Ministério garantiram o fornecimento ininterrupto das insulinas humanas” aos estados e, posteriormente, aos municípios. A distribuição da NPH, segundo o documento, continua ocorrendo normalmente.
Na quinta, 20, a assessoria de Comunicação da Prefeitura de Barra Mansa reafirmou ao aQui a nota emitida à imprensa. Disse que “o abastecimento de seringas destinadas à aplicação de insulina vem sendo impactado por dificuldades na cadeia de produção e distribuição do insumo em âmbito nacional, tratando-se, portanto, de circunstância que ultrapassa os limites e a capacidade de atuação exclusiva do Município”. Ela foi além. Informou que, por esse motivo, “a secretaria de Saúde adotou um plano de contingência, com o objetivo de minimizar os impactos decorrentes do desabastecimento e assegurar, na medida do possível, a continuidade da assistência à população”.
O Plano de Contingência é um documento interno, usado em casos de emergência em saúde, com o objetivo de criar medidas para o enfrentamento do problema. A partir dele, os estoques passaram a ser acompanhados diariamente e o material disponível está sendo remanejado entre as unidades de saúde, com prioridade para pacientes considerados mais vulneráveis. Ainda de acordo com o Plano, a Secretaria busca fornecedores alternativos para tentar recompor o estoque e acredita que, até o dia 30 de agosto, previsão apresentada pela empresa fornecedora no município, a situação estará regularizada e o abastecimento, retomado gradualmente.
Uma hipótese para o que está acontecendo em Barra Mansa é um desabastecimento por parte de fornecedores privados, em compras realizadas por licitação. Isso porque a distribuição gratuita de insulinas pelo Ministério da Saúde e pela Secretaria de Estado de Saúde, apesar do cenário de restrição global, segue normalmente.
Calor
Outra situação que acendeu um alerta vermelho nas secretarias de saúde foi a dos possíveis impactos do El Niño no clima e no ambiente. Na quinta, 20, o governo do Rio reuniu representantes das 92 cidades fluminenses, no auditório da Uerj, para criar estratégias para o enfrentamento do problema. Dentre elas, haverá treinamento para equipes das prefeituras, aquisição de novos sistemas de monitoramento e alerta e ainda outras ferramentas que vão ajudar a identificar com antecedência as áreas e as populações mais vulneráveis a eventos como ondas de calor, chuvas intensas, enchentes, estiagem e queimadas. Os treinamentos começam na próxima segunda, 24.
Na Saúde, os municípios deverão monitorar alguns indicadores para garantir que os impactos do fenômeno sejam minimizados. Além disso, a Secretaria de Estado de Saúde estará preparada para classificar o nível de risco de calor das cidades e emitir alertas com antecedência. A estrutura inclui a implantação de pontos de hidratação nas UPAs, reforço de veículos de intervenção rápida e motolâncias, além do suporte de aeronaves para salvamento e transporte de insumos.
O arcabouço que está sendo montado pelo Estado não é exagero. Os alertas do Ministério da Saúde em relação ao El Niño mostram que o fenômeno pode aumentar a ocorrência de eventos climáticos extremos e pressionar ainda mais a rede de saúde, especialmente diante de ondas de calor, chuva torrenciais e até do risco de aumento dos casos de dengue. E é justamente aí que entra outra preocupação: municípios que já enfrentam dificuldades para garantir insumos básicos, como Barra Mansa, que admite problemas no fornecimento de seringas para aplicação de insulina, terão que estar ainda mais preparados para uma eventual sobrecarga da rede. É que na saúde pública, quando o atendimento básico não dá conta, toda a rede pode acabar na sala vermelha, ou, na pior das hipóteses, na UTI. Fica o alerta!

