Escaldado

Governo do Estado se reúne com montadoras para evitar êxodo automotivo

Pollyanna Xavier

Desde que a Ford anunciou que iria deixar o Brasil, o governo do Estado do Rio ficou alerta. Não é pra menos. O Rio abriga o segundo maior polo automotivo brasileiro e ele está localizado no Sul Fluminense, mais precisamente na região das Agulhas Negras. São cinco montadoras, mais de 200 empresas prestadoras de serviços, que juntas empregam cerca de 10 mil operários, produzem milhares de veículos por ano e movimentam milhões na economia fluminense. Perder essas empresas pode significar o fim de 18,3% da atividade industrial do Estado e um impacto social dos grandes, já que com o fim das atividades automotivas no estado, o número de desempregados tende a triplicar.
“O governo do Estado resolveu se antecipar a qualquer movimento de montadoras de veículos com unidades no Rio de Janeiro e está agendando reuniões com todas elas”, anunciou o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Energia e Relações Internacionais, Leonardo Soares. Os encontros tiveram início há quase um mês e a primeira empresa a se ‘sentar’ com o Estado foi a Jaguar-Land Rover. Localizada em Itatiaia, a montadora de carros de luxo emprega 400 funcionários e tem capacidade instalada para produzir 24 mil carros/ano. “O objetivo é encontrar, por meio do diálogo, alternativas para a sustentabilidade dos negócios e a manutenção dos empregos no território fluminense”, pontuou o secretário.
Segundo Leonardo, executivos da Jaguar-Land Rover reafirmaram a permanência da montadora inglesa em Itatiaia e garantiram que o potencial de investimentos no estado pode chegar a R$ 19 milhões nos próximos cinco anos. “Vamos encontrar soluções comuns que atendam o estado e as montadoras. O fechamento de uma fábrica representa impactos sociais significativos, com a perda de empregos e queda na arrecadação, avaliou Leonardo Soares, sem dar detalhes do que foi discutido no encontro.
A segunda empresa a conversar com o estado foi a Peugeot Citroën. Localizada em Porto Real, a montadora francesa emprega 800 funcionários e não chegou a produzir nem 8 mil carros em 2020. Em 2019 anunciou que não produziria mais os modelos 208 e C4 Cactus em Porto Real, acendendo um sinal vermelho na pequena cidade. De fato, a Peugeot deixou de fabricar o modelo, mas ampliou o seu parque industrial para a nova família Citroën. Na reunião com o Estado, representantes da montadora reclamaram das altas cargas tributárias e pediram que o Estado reveja a questão. Para a Peugeot, a carga tributária brasileira afeta o processo logístico e a cadeia de produção.
O último encontro foi entre representantes do Estado e da Nissan. Desde o início da operação industrial no Rio de Janeiro, em 2014, foram investidos mais de R$ 3 bilhões no estado. Para além desses investimentos, em seis anos, a presença da Nissan injetou R$1 bilhão na economia fluminense, em termos de remuneração salarial, sem contar o recolhimento de impostos. “Em nossa conversa, a Nissan reafirmou o ‘compromisso com o estado do Rio’”, disse Leonardo Soares, acrescentando que a Nissan possui 1.700 empregos, dentre indiretos e fornecedores, indicando uma “operação de extrema importância para o Estado”.
Na reunião com a Nissan, foi alinhavada parceria para ampliar a visibilidade do InovaSan, programa de inovação e empreendedorismo realizado pela montadora japonesa junto a universidades e escolas técnicas do Sul Fluminense. Criado em 2019, o programa incentiva o desenvolvimento de soluções para problemas reais das cidades localizadas nos arredores do Complexo Industrial da Nissan em Resende.
MAN
Na última semana, quem desceu a serra para se encontrar com Leonardo Soares foram os representantes da MAN, Volkswagen Caminhões e Ônibus. No encontro, a MAN garantiu a manutenção dos investimentos planejados pela empresa no estado. “Vamos trabalhar para reforçar a base fornecedora de serviços da região em bases”, prometeu Leonardo Soares, citando a criação de um fórum que envolva o cluster automotivo. “Queremos promover a cadeia produtiva local com foco na indústria automotiva, com aumento da competitividade e da produtividade”, acrescentou.
Vale lembrar que no fim do ano passado, a MAN Caminhões e Ônibus anunciou o maior ciclo de investimentos de sua história no Rio de Janeiro, com aportes de R$ 2 bilhões no período de 2021 a 2025. Parte desses recursos será usada em novas tecnologias para a mobilidade sustentável, incluindo lançamentos de caminhões elétricos. Em dezembro, o grupo divulgou que o complexo fabril de Resende iniciou a contratação de 550 funcionários.
“De 1996 para cá, todo caminhão da Volkswagen que circula no mundo foi produzido em Resende. Continuamos acreditando no Brasil e no Rio de Janeiro. Não temos o menor arrependimento de termos montado a fábrica em Resende. Vamos continuar investindo no Rio de Janeiro”, prometeu o diretor de Relações Governamentais da Volkswagen Caminhões e Ônibus, Marco Saltini.
Os encontros com as montadoras têm aliviado a tensão do Estado. A ideia, segundo a secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, é manter um diálogo com as cinco montadoras de carros e veículos pesados instaladas na região, justamente para evitar a surpresa desagradável de um êxodo automotivo. Nem o Estado e muito menos a região das Agulhas Negras querem repetir o exemplo da Ford.

 

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