Enterro de CNPJs

Comerciantes, após quebradeira geral, pedem socorro ao Poder Público, que insiste em manter os estabelecimentos fechados, mas sem contrapartida

Vinicius de Oliveira

Dizer que o comércio vem sofrendo diante da Covid-19 é chover no molhado. Contudo, o que antes era uma perspectiva funesta ou uma projeção de economistas, se tornou realidade. Já salta aos olhos que praticamente em cada esquina tem uma ou duas lojas com as portas fechadas. O clima é de terra arrasada. O abre e fecha é apontado como um dos principais motivos para a bancarrota que se espalha. Mesmo com a flexibilização, alguns setores do comércio continuam com a faca no pescoço, agonizando. É o caso dos donos de bares, restaurantes e artistas. Os recentes decretos de Volta Redonda e Barra Mansa acabaram desprivilegiando a categoria de negócios por não permitir que funcionem no único horário que mais fatura: a noite.
Dentre as vítimas na cidade do aço que não sucu

mbiram às penúrias trazidas pela pandemia, estão estabelecimentos até então consagrados como o Açougue Boizão, o Mister Pizza, o Rock Grill, a Casa da Picanha (no Monte Castelo), o Cantinho Nordestino, o simpático bar Submundo e até o tradicional Q-sabor. Quem sobreviveu, caso do empresário Marcelo Moreira, do Restaurante Luso Brasileiro, estabelecido há mais de quatro décadas na Vila, alega estar vivendo no limite da sanidade e das finanças, literalmente tirando de onde não tem para arcar com os custos empregatícios e pagar salários e fornecedores. “Os negócios precisam funcionar, existe um acúmulo de prejuízos ao longo de mais de um ano em alguns segmentos, que já causaram a falência de inúmeros negócios, gerando mais desemprego e uma ruptura nessa cadeia econômica. Quem sobreviveu, está no limite, contraiu empréstimos, e hoje deve impostos, aluguel, fornecedores e até colaboradores”, relatou Marcelo.

Outra reclamação do empresário, que já ocupou uma cadeira na Câmara de Volta Redonda, em 2020, é justamente a inércia do Poder Público. “Há uma necessidade de mantermos a economia funcionando, pois gera impostos, renda e empregos. Pediram tempo para preparar o sistema de saúde, e o que foi realmente feito nesse período de mais de 13 meses? Lembrando que, diferente de outros países, hoje não temos ajuda governamental de nenhuma esfera, nem federal, estadual ou municipal. Todos entendemos a gravidade do momento que vivemos, mas se ainda querem restringir ou fechar (o comércio) precisam nos ajudar a bancar os prejuízos”, desabafou.
Na opinião de Marcelo, o atual decreto, restringindo o funcionamento do comércio das 10 às 18 horas, não ajuda em praticamente nada, mesmo garantindo uma hora a mais de funcionamento para os estabelecimentos. “Entendo que precisa haver um isolamento social, que é muito diferente de ficar em casa. É preciso respeitar o distanciamento mínimo em filas, no transporte público e no comércio em geral. Muito melhor é estar com sua esposa num restaurante que respeita o protocolo de saúde do que estar em casa com festas e churrascos com pessoas que não moram nessa residência. Pesquisas apontam que no horário noturno tem apenas 10% da circulação de pessoas do horário diurno. E que os governos fazem? Limitam os horários à noite”, reclamou.
Em desespero, na sexta, 9, um grupo de músicos e trabalhadores de bares noturnos se reuniram para protestar e reivindicar que o comércio volte a funcionar a noite. O movimento, batizado de “SOS MÚSICA” alega que o decreto de Neto poderia provocar a extinção de ao menos 5.000 empregos diretos. “Tem um ano que o nosso setor vem sofrendo com as restrições e agora estamos fechados já 20 dias. Acreditamos na possibilidade de criar uma flexibilização de horários com responsabilidade e protocolos de prevenção a saúde de todos”, disse o dono de um bar no Aterrado, seguido por um garçom. “Temos a sensação que estamos sendo usados pra manter o comércio diurno aberto e mostrar pro MP que existe alguma restrição nos decretos. A constituição brasileira não pactua com essa diferença de tratamento”, argumenta.
Em resposta aos manifestantes, a prefeitura soltou uma nota dizendo “respeitar o direito de todos manifestarem suas insatisfações e anseios”. E lembrou do acordo firmado na Justiça para tentar “garantir o funcionamento de todos os setores da economia”. Depois, quando emitiu novas regras, permitiu que os bares e restaurantes passassem a funcionar até às 21 horas.
CNPJ
O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Volta Redonda (Sicomércio-VR), Jerônimo dos Santos, está preocupado com a mortandade de CNPJs e que ela continue desenfreada, afetando outros setores. “O momento da pandemia é delicado, mas o fechamento total das atividades econômicas traria complicações socioeconômicas, uma vez que o comércio é o principal gerador de empregos da cidade, sem contar que 80% das empresas são micro e pequenas, que dependem da venda do mês para sobreviver”, analisou.
Para Jerônimo, sem respaldo do Poder Público, manter as pessoas em casa enquanto se controla a infecção não é uma opção para os comerciantes. “A flexibilização ainda é a melhor saída, porque ajuda a preservar vidas e empregos. Muitas pessoas acham que o comércio é formado apenas por grandes empresas, mas a maioria é de comerciantes que dependem do que vendem para levar o sustento para casa, pagar despesas, trabalhadores e já vivem se equilibrando. Se houver mais um fechamento por tanto tempo, essas pequenas empresas não vão se reerguer. Os dados da Junta Comercial do Estado do Rio são uma mostra disso, quase 700 empresas encerraram as atividades no ano passado, a maioria por causa da pandemia”, detalha.
Segundo dados do CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), o saldo de empregabilidade na cidade do aço (média de contratação e rescisão), levando em consideração todos os setores, foi negativo: – 1242. Mesmo sendo o principal gerador de empregos, o setor de serviços (com índice positivo no final de 2020) demitiu junto com o comércio mais de 16 mil funcionários na cidade. Um impacto fulminante de 22,30% na economia de Volta Redonda, alega o vereador Mineirinho, dono da Controlplus Contabilidade e Consultoria.
Ainda de acordo com o Caged, a indústria teve, entre os setores, a maior queda em 2020. Foram 1.557 empregos a menos, se tornando o principal responsável pelo déficit de empregos. A boa notícia é que a indústria, contando os quatro primeiros meses de 2021, conseguiu apresentar leve melhora, garantindo 369 empregos a mais que o ano passado, respondendo por 46% do saldo positivo. Mas ainda assim, o futuro é incerto. “Todas as atividades tem sofrido muito. Eu trabalho com várias, inclusive a minha que acabou de ser considerada essencial e não para, mas as atividades dos meus clientes estão parando. Num período de 6 meses, 20% deles fecharam as portas. Todos os dias recebo mensagem pedindo ajuda”, lamentou o parlamentar, que criticou a falta de diálogo da prefeitura. “Temos representantes do comércio na Câmara. Seria necessária uma representatividade da Casa participando dos debates em torno dessa questão como era feito na gestão passada”, criticou.
Assim como Marcelo Moreira, Mineirinho também criticou a falta de expertise por parte do Poder público, em todas as esferas. “Esse feriadão (da Páscoa, grifo nosso) foi para punir os empresários. Tivemos que pagar 100% (de hora extra) ou então dar folga. Mas não estamos arrecadando. Como vamos pagar? É preciso diálogo com a Aciap e CDL e outras instituições que defendem o trabalhador, como os sindicatos”, comentou o vereador. Mas, ao que tudo indica, pelo menos nem a CDL e nem a Aciap parecem dispostas a participar do debate. Pelo menos nenhuma das duas quis conversar com o aQui. Perderam a oportunidade de apontar soluções e dizer ao leitor o que têm feito para minimizar o impacto da pandemia.
Para Alexandre Fonseca, escritor, ativista social e responsável pelo programa de Economia da ex-prefeitável Juliana Carvalho (do Psol), nem o Brasil e nem Volta Redonda são privilegiados pela pandemia e justamente por isso é preciso aprender com outros países e cidades as medidas mais eficazes para sobreviver ao inferno. “No país inteiro tivemos esse problema. Tirando a Nova Zelândia, que conseguiu controlar desde o início e que, mesmo assim, teve perdas com o turismo, o mundo todo sofreu com essa crise sanitária. Sabemos que a economia depende das pessoas circulando, principalmente no nosso caso em que ela se concentrou, principalmente, no setor de serviços. A diferença é que outros países entenderam que o Estado precisa se levantar e garantir que os seus entes federados e o cidadão sofram o menos possível”, alertou.
Ele foi além. “Por isso é tão importante que o Poder Público se mexa e garanta a sobrevivência de todos os setores. Uma saída mais do que provada como eficaz é o auxílio emergencial também em âmbito municipal. Se a prefeitura fizesse um acordo com os empresários, garantindo que não houvesse demissão e ainda que eles pagassem parte dos salários, a prefeitura complementaria com o restante, além de garantir o auxílio aos desempregados. Desta forma haveria certa segurança para o trabalhador”, sugeriu.
Outra medida, segundo ele, seria disponibilizar “linha de crédito emergencial para micros empresários, que terão dinheiro em caixa para se sustentar já que não estão arrecadando”, pontua, indo além: “Diminuir ou atrasar impostos é uma alternativa viável também. Já aconteceu no início da pandemia, quando o contribuinte não precisou pagar por dois meses a conta de luz e de água. Além disso, a prefeitura poderia isentar o contribuinte que gastasse um valor irrisório na luz e na água”, defende.
Ao ser perguntado como a prefeitura poderia garantir a subsistência dela própria e dos servidores públicos, Alexandre comentou que a resposta está na taxação dos mais ricos. “Por mais difícil que seja, o Estado não pode fugir dessa responsabilidade que é dele. Tá na Constituição. Ele deve não só garantir a saúde, mas proteger o cidadão de doenças e garantir as mínimas condições para a manutenção da vida como alimentação, por exemplo. Para começar, deve aumentar o IPTU de terrenos muito grandes. Isso ajudaria na arrecadação do município”, crê.
Veja a lista que corre nas redes sociais apontando, entre outros, os bares e restaurantes que teriam fechado com a Covid:

1.Boizão
2.Girafas
3.Suco e Bagaço
4.Mister Pizza
5.Rock Grill
6.Submundo Bar
7.Cantinho Gourmet
8.Tapiocaria – La Bodega
9.Lá Familia
10.Porto Brasileiro
11. Lugs
12.Padaria Flor de Minas – Retiro
13.Padaria (Retiro)
14.Signato (Park Sul)
15.Paganini (Park Sul)
16. Terrano Gril (Park Sul)
17. Sal e Alecrim (Park Sul)
18. Q Delicia (Park Sul)
19. Casa da Panqueca
20. Lá Bella Massa
21. Chicken House (Park Sul)
22. Hays Colina
23. Fajardo Belvedere
24. Café 33
25. Manuelita
26. Plaza Café
27. Quintal do Guedes
28. Bemfit
29. Caiena Gourmet
30. Reza a Lenda Bar
31. Casa da Picanha (Monte Castelo)
32. Nordestino
33 – Fajardo (Aterrado)
34 – Varandão Grill
35 – Q´sabor

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