É dose!

Desabastecimento deixa população de Volta Redonda sem vacina

Pollyanna Xavier

Volta Redonda é a cidade mais populosa da região e a que registrou o maior número de casos da Covid até hoje: mais de 25 mil. Lidera ainda a triste estatística de óbitos: já são mais de 700 mortos, o que corresponde a quase 12 mortes por semana desde o início da pandemia. Para piorar, a população está preocupada com a imunização. Não é para menos.  É a cidade mais atrasada no cronograma de vacinação.  Enquanto Barra Mansa, Resende, Piraí e até Porto Real estão indo bem na aplicação das vacinas dos grupos prioritários, a cidade do aço segue atrasadíssima. A passos de cágados.
Essa semana, alguns protestos isolados levaram o Palácio 17 de Julho a liberar uma nota técnica à população para justificar a falta das vacinas para quem aguarda a aplicação da segunda dose, e, para garantir que o atraso não provocará prejuízo para as pessoas. “O fim do prazo constante no cartão de vacinação não traz risco de perda dos efeitos da primeira dose em relação à segunda”, ressalta a nota, tentando justificar o fiasco de não ter vacina em estoque dizendo que “o prazo estipulado inicialmente para segunda dose previa condições que não se confirmaram na produção das vacinas no Brasil”.
Segundo a prefeitura, o atraso na chegada de insumos vindos do exterior para a produção das vacinas provocou o desabastecimento dos municípios. O que em parte é verdade. Porém, Barra Mansa e Porto Real, por exemplo, guardaram uma boa porcentagem dos frascos enviados pelo Estado para garantir a aplicação da segunda dose. “Volta Redonda não fez isto. Vacinaram tudo o que chegou, agora não tem como aplicar a segunda dose porque falta vacina”, contou uma fonte que pediu anonimato.
A fonte lembra que Volta Redonda tem justificado a questão afirmando que o quantitativo enviado de vacinas seria insuficiente para os grupos prioritários, e que o erro estaria no fato de o Estado se basear no Censo do IBGE 2010, para quantificar as doses necessárias da vacina. “De fato, o quantitativo não tem sido suficiente. Mas a culpa por isto é do próprio município que não cadastrou toda a sua população nos sistemas de informação do SUS.  O Estado não manda vacinas conforme a contagem da população pelo IBGE. Isto não existe mais. Hoje é tudo pelo e-SUS”, explicou.
Ela vai além. Diz que desde o ano passado, o SUS mudou a forma de financiamento dos municípios. O que antes era pago por procedimentos, passou a ser pago por população cadastrada, obrigando as secretarias de Saúde a informar, digitalmente, o número de pessoas usuárias do SUS no município. Esse trabalho ficou a cargo das equipes de saúde da família e com base nos dados cadastrados é que o Estado passou a enviar as vacinas, dentre outras coisas. “Se você informa ao SUS que tem x idosos numa determinada faixa etária, então, ele vai te enviar o número de doses suficientes para atender a esse grupo. Se você não informa, ele não tem como saber quantos idosos de fato o município tem, e então o SUS vai enviar um quantitativo defasado”, detalhou.
Outro dado importante é que o Estado teria se baseado na campanha de vacinação contra a Influenza 2019-2020, para definir a média do quantitativo de vacinas para a Covid-19. E mais uma vez a fonte ressalta que se Volta Redonda não teve uma cobertura acima da média para a Influenza, certamente será prejudicada no abastecimento dos imunizantes contra a Covid. “A lógica é simples. Se eu tenho uma cobertura de 100% ou pelo menos um percentual perto disto, para a vacina da Influenza, e declaro isto ao SUS através da alimentação do sistema, então as chances de eu receber um lote com doses suficientes para vacinar os grupos prioritários, na campanha da Covid, são muito altas”, explicou.
Para a fonte ouvida pelo jornal, a falha da prefeitura de Volta Redonda pode estar na falta de atualização dos sistemas de informação do SUS e também no fato de a secretaria de Saúde não ter guardado metade das vacinas para garantir a segunda dose da Coronavac.
O que fazer se perder a segunda dose?
Pelo que o aQui apurou, cerca de 5 mil pessoas aguardam a segunda dose da Coronavac em Volta Redonda. São idosos que já foram vacinados há cerca de um mês e não conseguiram concluir o esquema vacinal pelo desabastecimento do imunizante. E é justamente para esse grupo que a prefeitura liberou a nota técnica informando não haver problemas no atraso da segunda dose. E de fato, não há. O aQui ouviu especialistas no assunto e eles foram unanimes em dizer que o risco não está no atraso, mas em tomar antes do prazo estipulado pelos fabricantes e na aplicação de vacinas diferentes. “Perder o prazo da segunda dose não anula a eficácia da primeira dose. O máximo que vai acontecer é adiar a imunização total contra a doença”, explicou uma enfermeira que trabalha na Vigilância Epidemiológica do Estado.
Segundo ela, uma pessoa que tomou a AstraZeneca na primeira dose não poderá tomar a Coronavac na segunda, mesmo que o município só tenha, naquele momento, a Coronavac. “A recomendação do Ministério da Saúde é que se aplique a mesma vacina. Ainda não sabemos qual a reação do paciente ao receber vacinas diferentes. É algo que está em estudo, de qualquer forma é bom evitar”, disse. Outra questão pontuada pela especialista é que as vacinas têm intervalos diferentes uma da outra e que estes intervalos devem ser observados para evitar a aplicação antes do prazo. Isto significa que quem tomou a Coronavac na primeira dose, deverá tomar a segunda depois de 21 ou 28 dias, nunca antes disto. O mesmo se aplica à AstraZeneca, que tem prazo mínimo de 3 meses entre uma dose e outra.
O que a gente evidencia aqui é que não há riscos em tomar depois, mas não é recomendável a sua antecipação. Por outro lado, vale ressaltar que a proteção observada nos estudos científicos só é alcançada após a aplicação da segunda dose”, frisou. De acordo com a enfermeira, mesmo que a segunda dose atrase 15, 20 dias, o paciente nunca deve reiniciar o esquema vacinal. “Isto também não é recomendável. Mesmo que haja atraso, o ideal é continuar o esquema, nunca recomeçá-lo. O que as pessoas precisam entender é que a segunda dose conclui a imunização começada na primeira”, explicou.
No caso de Volta Redonda, o número de pessoas vacinadas até quinta, 22, era de 68 mil. Deste total, cerca de cinco mil aguardavam a segunda dose para o início de abril – o que ainda não aconteceu. Durante uma live na quarta, 21, o prefeito Neto disse que o município aguarda novas remessas das vacinas e que nove unidades de saúde estão aptas a aplicar a segunda dose do imunizante aos idosos de 65 anos ou mais.

O golpe da Vacina
A Polícia Federal e a Polícia Civil do estado do Rio parecem ter descoberto uma empresa que estaria oferecendo doses da AstraZeneca a pelo menos 20 prefeituras de todo o Brasil. Uma delas bem pertinho daqui: Barra do Piraí. Na quinta, 22, o prefeito Mario Esteves tornou o assunto público ao afirmar que ele foi procurado pela Montserrat Consultoria, com sede no Recife (PE), para oferecer doses do imunizante da Oxford. A empresa dizia ter um lote de meio bilhão de doses da vacina ao preço de US$ 7,90, cerca de R$ 45,00, cada uma.
Desconfiado, Mario Esteves comunicou a oferta às autoridades policiais e foi orientado a marcar um encontro com representantes da empresa para obter mais detalhes do esquema. A reunião aconteceu em Pernambuco e todo o diálogo foi gravado com a autorização da Justiça. A gravação já está em poder da Polícia.  Apesar do ocorrido, Mário Esteves disse que continua disposto a comprar vacinas de empresas idôneas, com recursos próprios do município, para ajudar a acelerar o Plano Nacional de Imunização (PNI).
Só que a intenção do prefeito pode azedar. É que o Instituto dos Advogados Brasileiro (IAB) vai entrar com uma representação na Justiça contra a Lei 14.125/21, por inconstitucionalidade. A norma autoriza a compra de vacinas por pessoas jurídicas de direito privado, desde que elas assumam os riscos referentes à responsabilidade civil pela aquisição.  ”Por melhores que possam ser as intenções das entidades de direito privado, não cabe a elas a atribuição de adquirir vacinas contra a Covid-19 para contribuir com a imunização da população”, avaliou Jorge Folena, da Comissão de Direito Constitucional do IAB, que acredita que o dispositivo foi sancionado para encobrir as omissões do Estado e os erros no enfrentamento da Covid.

 

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