Descaso animal

Vinicius de Oliveira

Todos concordam: animais domésticos são como membros da família. Verdadeiros companheiros leais e donos de um amor que parece ser incondicional, eles têm o poder de transformar a realidade de seu dono. E essa relação quase que fraternal entre pets e pessoas acabou se intensificando durante o período da pandemia. Como não era possível se abraçar e nem se aproximar, toda essa carga emocional contida acabou sendo dividida com os peludos. Mas cuidar deles não é tarefa fácil. Principalmente quando não há na cidade políticas públicas de bem estar-animal vigente. Como é o caso de quase todo o Sul Fluminense. Mas Volta Redonda, por ser uma cidade modelo, acaba chamando atenção pelo descaso com os bichinhos.
Na cidade do aço é preciso ser, no mínimo, bem de vida para manter um pet vivo e saudável. Caso a população de baixa renda que seja dona de animais precise de serviços de veterinária gratuitos para intervenção medicamentosa ou para uma simples castração – um serviço básico que evita a reprodução descontrolada e até doenças – precisa procurar ajuda em municípios vizinhos, como Barra Mansa. Mesmo assim os serviços prestados por lá são bastante limitados, mas o suficiente para estar anos luz à frente de Volta Redonda.
Para se ter uma ideia, até mesmo cuidadores individuais que tentam velar pelo bem estar dos bichos, recolhendo-os na rua, estão encontrando dificuldades para manter a população animal controlada e livre das pragas. Para se ter uma ideia, o setor de Zoonoses da prefeitura de Volta Redonda, segundo denúncias reiteradas que chegam ao jornal, mudou a política de castração.
“Se as ongs menores quiserem levar os pets que estão sob seus cuidados para castrar precisam esperar meses na fila. Antes não era assim. As pequenas organizações tinham o direito de ‘furar’ fila na hora de pedir a castração. Desta forma elas mantinham a população animal controlada. Agora só as grandonas têm esse direito”, afirmou Jaqueline Assunnpção, que cuida de mais de 20 cães em sua própria casa. “Até ano passado, tínhamos preferência assim como ONGs maiores. Hoje, além de arcar sozinha com os custos e manutenção de 20 animais como ração, banho e outras miudezas, não consigo castrá-los com facilidade. Assim eles continuam se reproduzindo, o que é prejudicial para o próprio município”, completou.
A situação se complica ainda mais quando é caso de morte. Assim como os humanos, os animais de estimação também estão presos às limitações de tempo de vida. Mas se despedir de seu pet em Volta Redonda, além de doloroso é muito difícil. “A prefeitura não recolhe animais mortos. Uma vez vi um cãozinho agonizando na calçada da rua. Provavelmente fora envenenado por algum morador desalmado. Liguei para a Zoonoses e relatei o caso. Ninguém apareceu. O bichinho agonizou até a morte”, contou Jaqueline.
Ao ser questionada, a Zoonoses foi taxativa: disse que sua função não é cuidar de animais mortos e nem zelar pela saúde deles. “Zoonoses são doenças passíveis de transmissão entre seres humanos e animais. Então o foco do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) é voltado para o desenvolvimento de projetos e ações de combate a essas enfermidades, como as doenças vetoriais: dengue e febre amarela, por exemplo.
As principais doenças transmitidas pelos animais de pequeno porte aos seres humanos são a esporotricose e a leishmaniose. Então, em caso de suspeita, o morador pode ligar para o telefone: 3339-4555, onde é feito o diagnóstico e são passadas orientações sobre como proceder”, explicou o órgão através de nota.
“Também são promovidas ações de vigilância e de prevenção, não só dessas enfermi-dades, mas como o de outras doenças zoonóticas como: leptospirose e febre maculosa. O CCZ também realiza o monitoramento da circulação desses patógenos no município para ações ambientais visando à prevenção a essas doenças”. Continuou a nota da Zoonoses.
A respeito de recolher animais mortos, o órgão afirmou que o dono deve se virar para enterrá-lo e ainda incentiva o enterro no quintal de casa. Uma prática condenada por especialistas. “A responsabilidade é do tutor. Salvo em casos em que ele tenha morrido em decorrência de esporotricose. Nesta situação, a orientação é que o responsável entre em contato com o CCZ para que o recolhimento do animal seja feito. Em seguida, o corpo é incinerado, já que esses animais não podem ser enterrados. O tutor também pode solicitar o recolhimento através de serviços particulares, que são feitos por empresas e clínicas veterinárias. Com exceção da esporotricose, se for da vontade do tutor, não há impedimentos para que o corpo do animal seja enterrado no quintal de casa, por exemplo”.
Em 2014 o vereador Walmir Vitor bem que tentou mudar esse cenário quando criou a lei 5.210, determinando que a prefeitura oferecesse serviço gratuito de cremação de animais. A lei chegou a ser sancionada e em 2016, publicada no Volta Redonda em Destaque, órgão oficial do município. Contudo, até hoje não saiu do papel, impedindo que a cidade fosse pioneira nesse tipo de política pública. Enquanto isso, sem concorrência pública, os empresários nadam de braçada nesse ramo. Detalhe: todos são de fora do município. A mais perto, que atende não só a cidade do aço, mas todo o Sul Fluminense é a R.I.P. PET Crematório de Animais com um escritório em Resende.
A empresa, cuja matriz fica em Pindamonhangaba, São Paulo faz uma linda propaganda dos seus serviços, mas não perdoa na hora da cobrança. “Assim como o preventivo, o plano emergencial conta com todos os detalhes: remoção imediata, cerimônia de espedida e apoio psicológico. “Este plano é contratado logo após a perda do seu melhor amigo. Conte conosco nesse momento taÞo delicado e desafiador. Estamos aqui para dar suporte para os corac’oÞes que perderam seus fieis companheiros. Optar pela cremação é ter a certeza que tomou a melhor decisaÞo e que seu animalzinho teraì um destino digno e respeitoso. Hoje nós temos dois tipos de serviço. A cremação individual onde cremamos somente seu pet e devolvemos as cinzas em uma urna. E a coletiva onde cremamos três pets e espalhamos as cinzas em nosso jardim. Na individual está incluso o translado a cerimônia de despedida a urna e o certificado de cremação e o valor é 1200. E na coletiva está incluso o translado e o certificado de cremação e o valor é 700″, resume a instituição.
Outra funerária de pets que presta serviços na região é a Paraiso Animal. Fixada em Itaipuaçu, Niterói, a empresa também não alivia no preço na hora da prestação dos serviços. “Nós temos as cremações coletivas, individuais e sepultamento. Na nossa Coletiva o nosso colaborador vai até a residência do tutor recolhe o Pet e depois enviamos o atestado de óbito que chamamos de certificado. Na nossa individual o colaborador vai até a residência recolhe o Pet e o tutor tem a opção de acompanhar o procedimento. Caso não queira acompanhar nós fazemos uma pequena filmagem só pro tutor se certificar que realmente é o seu pet e levamos até sua residência as cinzas dentro de uma urna personalizada com uns dizeres de conforto e o atestado de óbito. No nosso Sepultamento o pet fica em nossa gaveta no prazo de 1 ano e 6 meses e depois o tutor tem a opção de exumar os ossos ou renovar o plano por mais um ano. Tudo isso feito em contrato e o tutor pode estar presente caso queira”, orçou.
Aquele que não quiser enterrar seu animalzinho no quintal de casa e não tiver dinheiro para investir num enterro personalizado, terá como opção ir até Barra do Piraí. Com um olhar a frente dos demais gestores públicos, o prefeito Mário Esteves saiu na frente levando a cidade ao posto de primeira do Rio de Janeiro a disponibilizar para sua população serviço de bem estar animal, incluindo crematório público. “Barra do Piraí foi o primeiro município do estado do Rio a contar com um caminhão como “Castramóvel” e, agora, será pioneiro novamente, com a instalação de um crematório público para animais. A licitação do forno aconteceu na quarta-feira, 8, e a expectativa é de que a inauguração ocorra no primeiro trimestre do ano que vem”, anunciou a superintendência do Bem-estar animal de Barra do Piraí.
Além do Castramóvel, que, hoje, já fez mais de 12 mil atendimentos, e dos três postos fixos de esterilização, a Superintendência do Bem-estar Animal abarca o Lar Temporário São Francisco de Assis, também construído pelo atual chefe do Executivo. Todo esse conjunto de ações voltadas à causa se somará ao crematório, que atenderá tanto os animais de pequeno quanto de grande porte. “Junto com o forno, teremos uma câmara fria, ambos adaptados para pets e para animais maiores, como cavalos. A ideia é atender gratuitamente às demandas da população barrense, e criar uma tarifa para moradores de outras cidades, de maneira que os recursos arrecadados sejam revertidos para os projetos que desenvolvemos no Bem-estar Animal. Estamos demonstrando que dá pra olhar com carinho também para os animais, e com pouco dinheiro. Se um município da estatura de Barra do Piraí está fazendo, qualquer outro pode fazer também”, avaliou o prefeito Mário Esteves.
Agentes da Secretaria de Obras já preparam um projeto de anexo ao Cemitério Municipal Santa Rosa, onde o crematório será colocado. Aliás, o prefeito adiantou que o local também passará por obras. “O cemitério municipal receberá um investimento, que contempla a reformulação da área, com a criação de um corredor para visitação, em que os familires terão mais conforto e dignidade para estar próximos das últimas lembranças de seus entes queridos”, finalizou o mandatário.
Vale ressaltar que o médico veterinário Fabrício Alves de Almeida, formado pela Medicina de Veterinária de Valença CESVA FAA, não recomenda o enterro de animais no quintal de casa, pois pode gerar contaminação. Segundo o especialista, o crematório seria a melhor opção. “Muitos donos, diante da morte dos seus animais, realizam o processo funerário enterrando-os em terrenos próprios, quintais, fazendas, entre outros locais. Porém, esse é um processo complicado, porque, normalmente, não são cumpridos os protocolos de segurança para evitar a contaminação do terreno. Afinal, o corpo do animal entrará em decomposição com o passar do tempo. Se ele faleceu por alguma doença contagiosa (como a cinomose), o agente contaminante poderá adentrar o lençol freático e, assim, levá-lo para a água da região. Outras doenças que podem ser propagadas assim são a toxoplasmose, raiva e leptospirose — todas elas afetam humanos e animais. Além disso, o próprio processo de decomposição causa contaminação local por meio de necrochorume. Isso pode gerar doenças como tétano e hepatite, caso chegue ao lençol freático. Em muitos casos, também pela realização do enterro de forma inadequada, pode-se gerar cheiros fortes e desagradáveis na região”, disse Fabrício.

 

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