A questão do Aeroporto de Resende passa por problemas semelhantes aos do Aeroporto Luiz Albertassi Sobrinho. A diferença é que o terminal já existe, mas está inativo. Pelo menos umas quatro empresas aéreas tentaram, sem sucesso, operá-lo. Entre os motivos, fora as questões técnicas, predominaram a falta de passageiros e o desinteresse das empresas da região em, apesar da Via Dutra, utilizar o aeroporto como terminal de cargas.
Em termos técnicos, a explicação é simples. “O primeiro problema técnico que surgiu no Aeroporto de Resende, lá atrás, foi com relação aos grandes jatos, que queriam que ele recebesse. Isso nunca foi possível. Primeiro, pela deficiência de instrumentos, e segundo pelo fato de que um jato, que levanta voo do Rio para São Paulo, demora apenas 10 minutos para chegar a Resende. O avião não teria tempo de voo suficiente para atingir uma altitude de cruzeiro. Saindo de Resende para São Paulo, seria a mesma coisa e vice-versa”, detalha a fonte, que estudou o caso específico de Resende.
Ela foi além. “A atitude de cruzeiro dos jatos comerciais gira em torno de 10 mil metros, e, segundo os técnicos, para um jato sair do Rio e chegar a Resende, ele teria que estar na casa de 3.800/4.000 metros, o que consome muito combustível, por isso a passagem seria cara. Eles optaram por aviões menores, tipo bandeirantes, Caravan, até o próprio
ATR (aeronave bimotora, pressurizada, de médio porte e propulsão turbo-élice, com asas altas). Sua capacidade de transporte é de até 72 passageiros em voos regionais, e é isso que ainda está se discutindo”, completou, citando os nomes das viações Itapemirim e Azul, que chegaram a apostar em viabilizar o aeroporto de Resende. E foram embora depois de acumular prejuízos na rota.
Outro problema é que, de acordo com o Plano Aeroviário, a utilização do espaço aéreo do Aeroporto de Resende está condicionada à presença da Academia Militar das Agulhas Negras, o que faz com que os voos que utilizem o aeroporto sejam, obrigatoriamente, restritos à operação visual. Uma fonte do aQui ligada ao Estado confirmou o impasse e deu detalhes sobre a proximidade de Resende com a base aérea de Santa Cruz, no Rio, e a de Guaratinguetá, em São Paulo. “Os aviões comerciais de Resende voariam muito próximos da altitude dos aviões de caça destas duas bases, e isto seria muito perigoso”,
ressaltou. “Os aviões de caça fazem exercícios na área”, disparou. “Às vezes ouvimos, em Volta Redonda e na região, uns estouros. É quando um caça voando pela região rompe a barreira do som. Atingem o ‘mach 2’, a marca de 2.450 km/h — ou seja, duas vezes a velocidade do som. Podem ser considerados supersônicos”, detalha. “Seria perigoso permitir voos comerciais na rota desses jatos de caça, mesmo em uma altitude um pouco diferente”, acrescentou.
A fonte garante que existem outras questões que tornam inviável a operação no aeroporto de Resende. Como, por exemplo, o fato de o governo Federal querer interiorizar as operações do Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio,
que pode voltar ao controle da União. Motivo: a HNA, de Cingapura, concessionária atual do aeroporto, alega não ter receitas suficientes para pagar a outorga anual de R$ 1,3 bilhão no final deste ano e quer, simplesmente, devolver a concessão. Se isso ocorrer, a solução será promover uma nova concorrência pública. E o que o governo quer é incluir, no pacote da terceirização, a operação do aeroporto de Resende.
“O que está acontecendo é que o ministro Márcio França quer promover uma nova licitação para o Galeão e incluir Resende no pacote. A vontade dele é interiorizar as operações aeroportuárias no Brasil, só que os técnicos do ministério não estão concordando com isso. Alegam que poderia afetar a segurança jurídica da concorrência feita (vencida pela Concessionária Rio Galeão, controlada pela Chinesa ‘HNA – Hainam HNA Infrastructure’”, afirmou, aproveitando para explicar melhor a posição. “Embora os chineses estejam querendo devolver o Galeão, os técnicos são contra licitar o aeroporto do Rio junto com o de Resende. Alegam que as empresas que participaram da licitação vão dizer: ‘se a HNA sair, eu assumo, pois fiquei em segundo lugar no certame. Se a segunda sair, eu, terceira colocada, assumo, e assim por diante. Cria-se uma briga jurídica terrível, entendeu?”, pontua.
Como o tema é complexo, a fonte tenta simplificar: “Se essa companhia (HNA) tentar entregar o Galeão, como ameaça fazer, a solução será fazer uma nova licitação, com ou sem Resende no pacote. Mas quem perdeu a licitação original pode querer assumir a outorga. Isso pode ocorrer com quem ficou em segundo, terceiro, quarto lugar… E eles podem alegar que só querem o Galeão, sem Resende, e podem entrar na justiça. Será terrível”, sentenciou. “Se parar na Justiça, o problema aumenta. Então, em linhas básicas, não dá para interiorizar o Galeão incluindo o terminal de Resende. Aliás, essa ideia é muito mais política do que técnica. Não vai pra frente”, concluiu.
Política
Por falar em questões políticas, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que pretende se reunir com o governador do Rio, Cláudio Castro, e com o prefeito Eduardo Paes, para tratar do destino do aeroporto do Galeão. E, como não poderia deixar de ser, vai dizer aos dois que não é o “culpado” pelo problema. Vai ressaltar que o esvaziamento do Galeão e a superlotação do Santos Dumont se agravaram no governo Jair Bolsonaro.
Segundo noticiário da grande imprensa, o governo Lula já admite a possibilidade de rever o pagamento da outorga e manter a concessão do Galeão com os chineses da HNA. Isso poderá ser decidido até o final do mês. O secretário nacional de Aviação Civil do Ministério dos Portos e Aeroportos, Juliano Noman, disse que a solução para o Rio de Janeiro está “próxima”. Enquanto isso, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, sugeriu ao governo Federal que limite os voos para o Santos Dumont aos vindos de Congonhas, São Paulo e Brasília. A limitação teria a função de melhorar a demanda para o Galeão, principalmente na área internacional. O presidente da Embratur, Marcelo Freixo, concorda que é preciso fazer algo. “Não há voo internacional para o Santos Dumont. Ou se recupera o Galeão, ou se planeja o Galeão para que tenha mais voo internacional para o Rio de Janeiro”, disse.
Voos rápidos
Enquanto Volta Redonda e Resende vivem à espera dos aviões de pequeno porte, com no máximo 70 passageiros, a cidade de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, com cerca de 400 mil habitantes, passou a contar com os modernos Boeings 737 da GOL Linhas Aéreas em voos para o aeroporto de Congonhas e vice-versa, em viagem que dura apenas uma hora. A primeira viagem ocorreu na terça, 9, e a aeronave de última geração – um Boeing 737 MAX com capacidade para 186 passageiros – partiu de Congonhas às 13h10min e aterrissou no aeroporto de São José do Rio Preto às 14h25min. É claro que o fato reuniu dezenas de convidados, autoridades locais e imprensa. “A partir de Congonhas, a GOL tem o mais completo portfólio de destinos nacionais àqueles que se deslocam à capital paulista, e as novas operações em cidades do interior de São Paulo reforçam o compromisso da Companhia em oferecer uma rede de voos completa ao público paulistano”, afirma Matheus Motta, consultor de Planejamento e Infraestrutura Aeroportuária da GOL. Pena que não tenha falado nada das intenções da GOL de pegar um avião para o Aeroporto Luiz Albertassi ou Sobrinho ou para o Aeroporto de Resende.

