Casa Editorias Especial Parados na pista

Parados na pista

Impasses técnicos e políticos impedem decolagem dos aeroportos de Volta Redonda e Resende

0
2327

Em 2008, há 15 anos, com direito a uma festa, no estilo das de debutantes, nascia em Volta Redonda mais um projeto audacioso: o da construção de um Aeroporto Regional, batizado de Vale do Aço, que depois ganhou o nome de Aeroporto Luiz Albertassi Sobrinho, avô do então poderoso deputado estadual Edson Albertassi, hoje assessor do prefeito Neto no Palácio 17 de Julho. O terminal ocuparia uma área de 1,6 milhão de metros quadrados. Teria duas pistas de pouso e decolagem e seria erguido em uma área do Roma, na divisa entre Volta Redonda e Piraí.
Entre os motivos para a criação do aeroporto, estava a intenção tanto do governo Federal quanto do Estadual de desenvolver o turismo de negócios, envolvendo a CSN e a sua relação com clientes e fornecedores. E ainda o
transporte de cargas para que as empresas não tivessem mais os contratempos normais da Via Dutra, que existem até hoje, é bom que se diga.
Em 2009, a obra do Aeroporto Regional foi incluída na atualização do Plano Aeroviário do Estado do Rio de Janeiro, com validade até 2022, aprovado pela Aeronáutica. Dois anos depois, a União chegou a liberar R$ 8,6 milhões para que o então governador Sérgio Cabral desapropriasse o terreno e desse início a mais um de seus voos perdidos por território flu- minense. Passados 15 anos, nenhum avião aterrissou ou decolou do Aeroporto Luiz Alber- tassi. O próprio processo de desapropriação continua agarrado no Fórum de Piraí, aguardando conclusão. Os recursos da União, teoricamente, deveriam ter sido devolvidos por falta de uso. Até prova em contrário, não foram. Quanto ao Plano Aeroviário, aprovado pela Aeronáutica, ele venceu no ano passado e ninguém ficou sabendo.
Para piorar, o terminal aeroviário de Volta Redonda esbarrou em um impasse técnico, que pode impedir, de vez, a decolagem do projeto, se ele for retomado, como alguns políticos do Sul Fluminense passaram a defender, entre eles o prefeito Neto e Albertassi, seu influente assessor. É que a topografia do relevo do entorno do projetado aeroporto impede a operação por instrumentos, conforme as regras de voos por instrumentos (IFR), resul- taria em perda operacional, o que poderia gerar insegurança aérea.
Segundo consta no próprio Plano Aeroviário do Estado, o relevo acidentado da região Sul
Fluminense torna inviável a operação por instrumentos, obrigando o terminal a operar por VFR, que significa velocidade de mergulho demonstrada em voo. Nele, o voo é visual, e o piloto tem uma completa visualização do que está do lado de fora do avião, e se orienta por referências externas, como estradas, rios, praias, plantações etc. O impasse fica por conta da proibição de voos noturnos e do limite da altitude das aeronaves, que precisam voar mais baixo (até 3 mil metros de altitude), onde, em tese, existe uma boa visualização do solo. Jatos, nem pensar. Exceto se houver boa condição climática e um piloto com muitas horas de voo em VFR.
Em 2014, o então ministro da secretaria de Aviação Civil, Moreira Franco (ex-governador), anunciou a ‘conclusão’ da primeira fase de planejamento do projeto técnico do Aeroporto Vale do Aço (ops, Aeroporto Albertassi). Na época, ele chegou a detalhar o projeto, revelando que a unidade teria uma área de quase 700 metros quadrados para embarque e desembarque, teria um pátio de aeronaves com cerca de 20 mil m2, pista de taxiway (faixa em que a aeronave pode taxiar para outro local), e ainda uma pista principal com 2,2 mil metros quadrados por 30 m de largura (faixa com 8 linhas). Falou-se até na circulação de aeronaves com capacidade média de 120 a 150 passageiros, o que configura um avião de médio porte. Orçado em R$ 50 milhões, que em um passe de mágica subiu para R$ 65 milhões, o projeto previa uma pista principal (com 2,2 mil metros por 30 m), com uma área de giro nas duas cabeceiras, ambas com raio de 30 metros para manobra das aeronaves. Inicialmente, a ideia era que os municípios beneficiados com o terminal, como Barra Mansa e Piraí, por exemplo, custeassem a construção e a manutenção do aeroporto da cidade do aço, como ocorreu mais tarde com a construção do Hospital Regional, que foi parar nas mãos do Estado.
Em 2010, o governo do Estado chegou a assumir o projeto, publicou o decreto de desa- propriação e buscou regularizar o terminal junto à Anac. Não conseguiu. A homologação não foi possível, vejam só, porque a Anac só homologa obras prontas. E isso as autoridades fluminenses da época ‘não sabiam’.
Acerca do terreno no Roma, o aQui apurou que dos 1,9 milhão de metros quadrados, a maior parte (algo em torno de 1,2 milhão) pertence a Piraí. Deste total, 314 mil metros deveriam ser destinados à preservação de uma reserva biológica – uma exigência do Inea condicionada ao licenciamento ambiental. No decreto de desapropriação, publicado em 2011, o Estado autorizou a PGE a iniciar o processo de desapropriação e informou que, ao final, as obras deveriam ser iniciadas. O prazo de conclusão era de 10 meses.
O aQui teve acesso à cópia do documento do convênio entre a União e o Estado do Rio para a exploração do futuro aeroporto. O acordo é válido por 35 anos a contar de 26 junho de 2016. Quase sete anos já se passaram e, se bobear, o convênio acaba sem que o aeroporto saia do papel. Quem garante é uma fonte do aQui. “O aeroporto de Volta Redonda é total- mente inviável, primeiro pelo custo da construção, e segundo por causa também de um problema sério: como a cidade fica muito perto do Rio de Janeiro, os jatos não poderiam vir até aqui. Seria muito difícil descer na área do Roma”, disparou.

SEM COMENTÁRIOS

Seja bem vindo!
Enviar via WhatsApp