‘Conversa fiada’

Neto espera que medidas do governo do Estado sejam usadas com bom senso na liberação de leitos de UTI para tratamento da Covid-19

No início da semana, o governo do Estado anunciou uma parceria com a prefeitura do Rio de Janeiro e o Ministério Público para a criação de uma fila única para a regulação de leitos de Terapia Intensiva para todo o estado. A novidade, que será imposta por eles aos demais 91 municípios fluminenses, é uma nova medida adotada para o enfrentamento da Covid-19 e visa, creem, salvar vidas através da oferta de leitos ociosos em todas as cidades do Estado.
O detalhe é que os prefeitos, como Neto, ainda não sabem se a decisão imposta não foi tomada apenas para beneficiar a capital em detrimento do interior. Procurado para falar a respeito, Neto esquivou-se da polêmica, mas falou, mesmo que resumidamente, de como encontrou a Saúde ao assumir o Palácio 17 de Julho. Para ele, ela está no CTI.

aQui: Prefeito, o que o senhor pretende fazer para manter o combate à pandemia?
Antônio Francisco Neto: Baixamos novo decreto essa semana, com medidas importantes. A Guarda Municipal passou por um treinamento específico e criamos a “Patrulha pela Vida”, na qual eles orientam as pessoas sobre as regras do decreto e também a manterem as regras sociais. Distanciamento, uso de máscaras, etc.
Antes, os guardas ficavam nas chamadas barreiras sanitárias, que na verdade eram “peneiras sanitárias”. Todo mundo entrava na cidade do mesmo jeito. Hoje, os guardas vão para as ruas ajudar.
Também apostamos na classe empresarial e comercial como parceiros. A fiscalização parte também deles. Se a situação do vírus piorar, a cidade inteira perde. Se vencermos a Covid, todo mundo ganha. Então, estamos todos no mesmo barco.
Também estamos fazendo os novos leitos no anexo do Hospital do Retiro, que na verdade se tornará um novo hospital. Em um andar, serão 18 leitos de UTI e 12 de UI. Em outro andar, 35 leitos de clínica médica. Mais uma vez, temos a classe comercial como parceiros. Através da CDL, já conseguimos mais de R$ 300 mil para essa obra.
Volta Redonda passou a pandemia sem abrir leitos permanentes. Teve o Hospital de Campanha e mais nada. Fecharam o Hospital do Idoso, o Santa Margarida está em péssimas condições e jamais poderia abrigar pacientes graves. Era tudo conversa fiada. Muito dinheiro foi gasto e a rede só se deteriorou. Nunca vi nada tão vergonhoso.

aQui: Volta Redonda foi chamada a participar dos encontros sobre o que fazer diante da Covid, incluindo a vacinação, realizados entre o governador do Estado, o MP e o prefeito da cidade do Rio de Janeiro? Concorda que eles possam definir, apenas entre eles, o que os demais 91 municípios fluminenses terão que acatar em termos de Covid?
Neto: O Sul Fluminense, pela relevância que tem e por abrigar importantes hospitais nas redes municipais, bem como por sediar o Hospital Regional (que salvou o Estado de uma situação ainda mais caótica), precisa ser sempre escutado. Principalmente nossa cidade.

aQui: O senhor acha que a medida é vantajosa para os pacientes que precisam do leito de UTI em Volta Redonda ou ainda não tivemos uma fila para esse tipo de demanda?
Neto: Se essa pergunta me fosse feita cinco anos atrás, eu diria que não. Hoje, com a saúde como deixaram para gente, é um caso sério a se pensar. Tem gente nossa buscando atendimento básico nas cidades vizinhas. Coisa impensável nas nossas outras gestões. Acabaram com a saúde de Volta Redonda.

aQui: Existe alguma dificuldade de o município regular pacientes da Covid para o Hospital Regional?
Neto: Acho que as dificuldades normais para o momento. Cada dia é um dia nessa pandemia.

aQui: Com a fila única, pacientes de Volta Redonda correm o risco de serem regulados para alguma unidade longe daqui, como por exemplo no Norte Fluminense, ou a questão logística será levada em conta no momento da regulação?
Neto: Esperamos que seja assim, com bom senso caso ocorra.

aQui: A fila única de regulação parece resolver bem o problema da falta de leitos na capital, onde as unidades básicas acabam sofrendo com represamento de pacientes que aguardam uma vaga nas UTIs. Mas pode prejudicar o interior, cujo pilar ‘oferta e demanda’ de leitos ainda se mantém de pé. Como impedir que desmorone?
Neto: Como já disse, nossa saúde está arrasada. Vamos trabalhar primeiro para recuperar o que tínhamos.

aQui: Na prática, como essa central única de regulação vai funcionar? O paciente que for admitido, por exemplo, no HSJB e que precisar da terapia intensiva entrará na regulação mesmo que o hospital tenha essa vaga para oferecer a esse paciente? Se for dessa maneira, não burocratizou o acesso ao leito?
Neto: Seria bom ver isso com o governo do Estado.

aQui: O senhor já criou ou vai criar um grupo de notáveis para determinar o que fazer daqui em diante? Ou vai deixar tudo sob controle do seu tripé da Saúde, formado por Conceição, Faria e Márcia Cury?
Neto: A discussão é ampla dentro do governo, obviamente com peso grande nestas três pessoas. Também vamos sempre procurar escutar pessoas de fora do governo, que tenham o que acrescentar.

aQui: O senhor defende a utilização da regra de independência do governo municipal – determinada pelo STF – no trato do combate à Covid diante do governo do Estado, do MP e da Justiça local ou Estadual?
Neto: Vamos buscar sempre um consenso entre todas as partes.

aQui: na parte política de combate ao vírus, o senhor admite a adoção de lockdown? Vai manter o toque de recolher?
Neto: Nossas novas regras estão no decreto que editamos nesta semana, que pode ser alterado a qualquer instante dependendo do quadro.

aQui: Volta Redonda terminou o ano com 288 mortes de acordo com a secretaria municipal de Saúde, número que não bate com o balanço do governo do estado (298 óbitos), sem contar as mortes contabilizadas nos cartórios de registro civil ou da funerária municipal. Qual número é o mais próximo da realidade e qual o senhor vai usar daqui em diante?
Neto: Nossa secretaria busca divulgar diariamente os dados precisos e corretos. A transparência já pode ser sentida, principalmente por vocês da imprensa que acompanham os boletins.

aQui: Qual vacina o senhor pretende tomar? Vai obrigar sua equipe a tomar? E a população?
Neto: Vamos tomar a vacina que for salvar vidas. As regras de vacinação devem ser definidas pelo governo Federal ou pelo STF, ao que parece.

aQui: O senhor conhece o convênio que teria sido firmado entre a PMVR e a UFRJ de combate à Covid-19, oferecendo tratamento nos três primeiros dias de sintomas? Vai manter o programa? Quanto ele custa aos cofres municipais?
Neto: Tudo isso está sendo analisado pela equipe da Saúde. Tudo que for positivo e viável permanecerá.

aQui: O senhor vai manter o acordo de compra de 80 mil doses da Coronavac que o Samuca teria firmado com o Butantan?
Neto: A mesma coisa da resposta anterior.

aQui: O senhor não acha que essa compra é um contrassenso, já que o governo Federal diz que vai distribuir gratuitamente as vacinas para estados e municípios?
Neto: Se for, será apenas mais um do governo passado. O mesmo que passou a pandemia sem abrir novos leitos. Pelo contrário, fechou leitos. Um absurdo.

aQui: O senhor mantém a promessa de dar um jeito na Saúde em 3 meses?
Neto: Pretendo fazer isso. Não foi uma promessa, foi uma meta. Infelizmente, a situação é muito grave.

aQui: O que o senhor vai fazer, de imediato, para ‘arrumar a casa’ (leia-se Hospital do Retiro e Hospital São João Batista)?
Neto: Já estamos arrumando como podemos. O São João ainda permanece sob intervenção.

aQui: Como sua equipe encontrou as finanças da secretaria de Saúde? Estão em ordem? Devem às OSs (quanto?)?
Neto: O governo anterior não deixou nada em ordem. Foi sem dúvida o mais irresponsável da história de Volta Redonda.

aQui: Os salários da área da Saúde estão em dia? Em caso negativo, quanto deve e a que se refere?
Neto: O governo passado deixou salários atrasados em todos os setores. Não tenho aqui o levantamento por área, mas é uma fortuna.

aQui: O que o senhor vai fazer, de imediato, com o antigo Hospital Santa Margarida? Tem algum plano para o antigo Hospital São José?
Neto: Já fizemos um relatório da situação do Santa Margarida e vamos ver como aproveitá-lo. Como hospital propriamente dito, parece um sonho distante. É o retrato do governo passado: foi caro e não funciona.
Atualmente, o plano é colocar o que temos para atender a população com mais eficiência.

aQui: Manter em operação o antigo Hospital do Idoso foi um desperdício de recursos?
Neto: Da maneira como foi feito, sem dúvidas.

aQui: O senhor pretende contratar novos médicos? Contrataria o Baltazar e o Nelsinho, que são médicos?
Neto: Sempre que possível, vamos contratar novos médicos. Principalmente aqueles que tenham a profissão como ideal.

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