Cobaias de aço

Em junho, cerca de três meses depois da loucura instaurada no país graças à disseminação da Covid-19, o prefeito Samuca Silva, entre outras medidas, anunciou que Volta Redonda seria o primeiro município do Brasil a oferecer tratamento com um remédio específico, diferente da hidroxicloroquina. À época, a prefeitura firmou uma parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e o médico infectologista Edimilson Migowski pôde, então, usar a Nitazoxanida para tratamento de casos leves.

Por conta da polêmica em torno da cloroquina, defendida pelo presidente Jair Bolsonaro como salvadora da pátria, mesmo sem comprovação científica, muita gente acabou não dando importância para a Annita (nome popular da Nitazoxanida). Contudo, Edmilson, que estuda o fármaco há mais de 10 anos, insistiu em tratar os voltarredondenses com o seu ‘remédio milagroso’. Afirmava, no entanto, que para o ‘milagre’ acontecer, os pacientes deveriam procurar obrigatoriamente o hospital nos três primeiros dias após o aparecimento dos sintomas.

Poucas semanas depois, a secretaria de Saúde chegou a divulgar que o protocolo apresentado pelo infectologista teria dado certo em cerca de 300 pacientes que teriam procurado atendimento. Os resultados mostraram ainda que o tratamento teria freado o agravamento da doença, evitando internações e óbitos. “Ninguém teve reações adversas, precisou de internação ou recebeu oxigênio”, alegou Migowski à imprensa em setembro.

Mas os números, embora animadores, ainda não eram suficientes para afastar quaisquer suspeitas e cravar que a Annita poderia ser adotada formalmente pelos médicos. Isso porque, segundo informações apresentadas pelo próprio infectologista, nem todos os pacientes tinham diagnóstico confirmado de Covid-19 quando chegaram até ele. Só entre 30 e 35% deles, segundo Migowski, testaram positivo para o Sars-CoV-2 com o exame de RT-PCR, considerado o mais eficaz para detectar a presença do vírus no organismo.

Além disso, vale dizer, não havia qualquer comparação do remédio com um placebo. Para isso, um grupo de pessoas deveria tomar um comprimido sem qualquer princípio ativo e, a partir de então, o médico deveria estabelecer métodos comparativos.

Mas ao que tudo indica, as dúvidas que ainda restavam em torno da Annita estão muito próximas de serem sanadas. Quem deu a notícia foi o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, em uma coletiva na terça, 20. Sem citar Volta Redonda, o ex-astronauta afirmou que um estudo realizado pela professora da UFRJ, a mesma de Migowski, Patrícia Rocco, teria confirmado o que o infectologista havia previsto na cidade do aço: que o medicamento era capaz de reduzir a carga viral em pacientes que foram tratados com Annita.

Talvez por causa da omissão do ministro com relação ao nome de Volta Redonda, a prefeitura não comemorou o fato com pompas e circunstâncias. Soltou apenas um release à imprensa reafirmando como se dá o protocolo. Explicou também que o tratamento com nita-zoxanida é priorizado para pessoas acima de 40 anos com comorbidades (doenças que podem agravar o quadro da Covid-19) e os pacientes que fazem parte do grupo de risco, principalmente idosos e pessoas com doenças crônicas.

A secretária de Saúde, Flávia Lipke, orienta os pacientes que fazem parte do grupo de risco para a doença, principalmente os idosos e pessoas com doenças crônicas, a procurarem um dos polos de atendimento mais próximo de casa. “Ao notar os primeiros sintomas indicativos da doença, a pessoa deve procurar a unidade mais próxima da sua casa. É importante ressaltar que o tratamento precisa ter início logo nos primeiros dias dos sintomas característicos da Covid-19. Caso haja indicação para o tratamento com a nitazoxanida, o paciente recebe a medicação”, disse.

O estudo da professora Patrícia contou com 1,5 mil voluntários e foi iniciado após a comprovação de que o remédio funcionava contra o Sars-CoV-2 em laboratório. O medicamento foi administrado três vezes ao dia durante cinco dias para pacientes com sintomas iniciais. Diferente do que Migo-wski fez em Volta Redonda, Patrícia adotou o modelo chamado “duplo cego”. Isso significa que nem os voluntários e nem os médicos que participaram sabiam qual substância foi administrada nos pacientes: se foi o placebo ou a nitazoxanida.

Mas ainda é cedo para elevar o medicamento à condição de salvador da pátria. Isso porque a pesquisadora não apresentou os dados completos do estudo como, por exemplo, quantos receberam o medicamento, qual foi o percentual de eficácia apresentado, qual a diferença encontrada em relação ao grupo de controle. De acordo com ela, a pesquisa precisa continuar inédita pois será apresentada, em primeira mão, a uma revista científica. Quer os louros dos especialistas.

Nota da redação: O convênio que a prefeitura de Volta Redonda teria firmado com a UFRJ para fazer os testes com os voltarredondenses até hoje não foi apresentado à reportagem do aQui, como prometeu o prefeito Samuca Silva quando o jornal mostrou que a própria Universidade Federal do Rio de Janeiro ignorava as ações desenvolvidas pelo professor Edimilson Migo-wski na cidade do aço.

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