‘Caso de cadeia’

Pacientes com Covid do Hospital do Retiro chegaram a ter problemas com a falta de oxigênio; alguns foram transferidos para o Hospital Regional

A situação dramática, apresentada de forma exclusiva pelo aQui na edição passada, sobre o fato de a secretaria de Saúde ter mandado reduzir as internações de pacientes com a Covid nos hospitais da rede municipal de Saúde de Volta Redonda foi pior, muito pior do que todos imaginam. Conceição Souza, titular da pasta, teria, inclusive, em cima de dados fornecidos por uma equipe do Hospital do Retiro, a limitar o fornecimento de oxigênio a pacientes internados. Tem mais. Teria transferido alguns deles, como alternativa para mantê-los vivo, para o Hospital São João Batista e ainda para o Hospital Regional.
“Tinha uma mini Manaus no Retiro”, avaliou uma fonte da área de Saúde, pedindo que seu nome não fosse revelado. Segundo ela, o Hospital Munir Rafful enfrentou sérios problemas de oxigênio entre dezembro e janeiro, o que a levou a comparar a situação vivida por quem mora em Volta Redonda com Manaus, cidade onde milhares morreram por falta de oxigênio. “É caso de polícia”, desabafou, esperando que a secretária de Saúde, Conceição Souza, denuncie o caso junto ao Ministério Público.
De acordo com a fonte, os problemas no Hospital do Retiro começaram quando a unidade era administrada por uma OS que decidiu, “sabe-se lá por quê”, diz, trocar o modo de fornecimento de oxigênio aos leitos do hospital. “O Retiro tinha um supertanque para armazenar oxigênio e nunca houve problemas de fornecimento… Mas eles decidiram instalar uma usina de oxigênio e desativar o tanque. Não deu certo”, denuncia, lamentando que tudo tenha sido abafado quando os problemas começaram a surgir.
Márcia Cury, nomeada por Neto para comandar o Hospital do Retiro, foi procurada pelo aQui, mas preferiu não comentar, alegando que estava afastada para tratar da Covid-19 (ver matéria na página 14). Só que a fonte do aQui confirmou que ao reassumir o cargo, Márcia Cury teria tomado ciência do fato, levando-o imediatamente ao prefeito Neto e à secretária de Saúde, Conceição Souza. “Ela (Márcia) ficou supernervosa, irritada, e logo mandou transferir pacientes com a Covid para o Hospital Regional. Alegou que não iria correr riscos de ver pacientes morrendo por falta de oxigênio”, contou a fonte, insistindo para que seu nome não fosse revelado.
Procurado para falar sobre o caso, o prefeito Neto passou as perguntas sobre a crise do oxigênio e da vacina contra a Covid-19 para a sua secretária de Saúde responder. Conceição, através da secretaria de Comunicação (Secom), não quis entrar em detalhes. Limitou-se a dizer que “é um caso tão delicado quanto grave”. E deu a entender que a falta de oxigênio no Hospital do Retiro “será alvo de uma denúncia”.
Veja abaixo a entrevista exclusiva de Conceição Souza sobre alguns dos problemas da Saúde em Volta Redonda:

aQui: O cadastramento dos idosos a partir de 60 anos, divulgada pelo site oficial da PMVR, acabou sendo um tiro no pé. Criou muita expectativa e gerou uma insatisfação muito maior. Como explicar a decisão de fazer o chamamento se não tinha vacina para todo mundo?
Conceição Souza: O cadastro vai servir para que tenhamos um quadro mais claro nas cobranças frequentes que fazemos por mais vacinas. Da mesma forma, teremos mais condições de preparar e organizar a vacina desse público alvo – bem maior do que os atuais – assim que as vacinas chegarem de fato.
Havia uma expectativa de receber mais vacinas e acabou que a frustração foi geral pela escassez. Um problema nacional, mas que nos aflige. De todo jeito, pedimos desculpas a todos por qualquer inconveniente. Ou por todos os inconvenientes que foram causados neste processo.

aQui: Quantas doses a secretaria de Saúde esperava receber antes e durante o Carnaval para iniciar a vacinação dos idosos de 60 anos em diante nos dias e lugares escolhidos por eles?
Conceição: Ficamos sabendo das quantidades de doses quase no dia de receber. Os municípios são totalmente dependentes do que é determinado e enviado pelo Ministério da Saúde. Em seguida, entra o Governo do Estado. As cidades são a última ponta neste processo todo e justamente a ponta mais importante. A expectativa era receber o suficiente para iniciar essa vacinação, mas parece que o Brasil de uma maneira geral não conseguiu dar andamento no processo de vacinação.

aQui: E por que Volta Redonda só recebeu 2.100 doses?
Conceição: Volta Redonda foi a cidade da região que mais recebeu doses de vacina, após ser prejudicada na primeira distribuição por falhas na alimentação do sistema federal. A partir da entrada de nossa equipe em campo, esses erros foram reparados e a partir daí recebemos mais vacinas.

aQui: A secretária de Saúde reconhece que foi infeliz em criar tanta expectativa junto aos idosos que sonham em ser vacinados?
Conceição: Em meu nome, mais uma vez, pedimos desculpas por todo o inconveniente causado pela escassez de vacinas.

aQui: Como o prefeito Neto avalia a frustração dos idosos por não terem sido vacinados conforme promessa feita pela secretaria de Saúde?
Conceição: Pedimos desculpas por todo inconveniente. Quem me conhece sabe bem como priorizo os idosos em tudo que posso.

aQui: Quando será iniciada realmente a vacinação dos idosos a partir dos 60 em diante?
Conceição: Assim que nos liberarem as novas doses de vacinas. Faremos um trabalho rápido e eficiente. Queremos vacinar todo mundo.

aQui: Em janeiro, Volta Redonda contabilizou mais de 100 mortes pela Covid; em fevereiro, a média gira em torno de 3 mortes por dia. O que está acontecendo na cidade do aço?
Conceição: Já mostramos que essa relação de mortes em janeiro merece um cuidado maior ao ser analisada. Muitas aconteceram no ano passado. Das 100 mortes citadas, 52 delas ocorreram efetivamente dentro do mês de janeiro e outras 48 são relacionadas ao ano passado. Os dados oficiais, já atualizados no Ministério da Saúde, mostram que 48 mortes foram encontradas represadas no sistema. Destas, 41 ocorreram em dezembro e outras sete em meses anteriores. As mortes em dezembro e janeiro aconteceram em consequência principalmente das festas de fim de ano. Não é comum uma pessoa adoecer e morrer de Covid-19 no mesmo mês.
O que temos de ter em mente é que são cidadãos de Volta Redonda e lamentamos muito todas as perdas. O quadro é acompanhado diariamente e estamos passando pela pandemia com todos os cuidados necessários. A fiscalização e a conscientização são constantes. Dependemos, no entanto, que todos façam sua parte.

aQui: O prefeito Neto não vai tomar medidas enérgicas para evitar o aumento dos óbitos pela Covid, não? Por quê?
Conceição: É uma decisão Colegiada. Se for necessário, vamos tomar toda e qualquer ação.

aQui: É verdade que o Hospital do Retiro chegou a ficar sem oxigênio suficiente para atender os leitos da unidade? O que houve?
Conceição: Esse assunto remete a possíveis erros da administração anterior. Será alvo de uma denúncia e vamos evitar falar disso até a apuração dos fatos. É um caso tão delicado quanto grave.

aQui: Algum paciente com a Covid chegou a morrer por falta de oxigênio no Hospital do Retiro?
Conceição: Esse assunto remete a possíveis erros da administração anterior. Será alvo de uma denúncia e vamos evitar falar disso até a apuração dos fatos. É um caso tão delicado quanto grave.

aQui: É verdade que os novos leitos do Hospital do Retiro só serão usados quando a unidade resolver o problema de oxigênio criado quando trocaram o tanque de armazenamento do produto por uma usina de gás? Ela já está ou será desativada e o oxigênio já voltou ou voltará a ser estocado em tanque?
Conceição: Vamos abrir os leitos com toda segurança.

aQui: Tecnicamente, a troca do tanque por uma usina se justificou? Qual foi o investimento?
Conceição: Isso tudo está sendo apurado.

aQui: Daqui a 14 dias, em média, teremos o resultado prático do resultado da Covid-19 no Carnaval. Neto espera pelo pior? O governo está atento e preparado para enfrentar as novas cepas da Covid? Como?
Conceição: O governo está se preparando para todo quadro. Abrindo leitos, conscientizando, vacinando.

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