sábado, maio 2, 2026
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Criança não consente: nova lei reforça proteção a menores de 14 anos

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Débora Veneral* 

Poucas coisas dizem tanto sobre uma sociedade quanto os argumentos que ela aceita ouvir para desculpar a violência contra suas meninas. As recentes decisões que relativizaram o estupro de vulnerável, flertando com teses de consentimento, experiência sexual anterior ou vínculo afetivo, mostraram que ainda há, entre nós, quem tente converter a linguagem da proteção em linguagem da exceção.  

A Lei 15.353/2026, sancionada em 8 de março, nasceu dessa fratura moral e jurídica: veio para inscrever no art. 217-A do Código Penal, de forma inequívoca, que a vulnerabilidade sexual de menores de 14 anos é absoluta e não admite relativização. 

Para quem não é do Direito, a expressão pode soar técnica, mas a ideia é simples. Presunção absoluta quer dizer que a lei não admite discussão em sentido contrário. Em português claro, se a vítima tem menos de 14 anos, não há argumento capaz de transformar violência em relação legítima. Não importa se alguém disser que a menina “quis”, que “já tinha vida sexual”, que “namorava” o agressor, que “parecia madura” ou que houve gravidez. A lei fecha a porta para esse tipo de desculpa. E faz isso porque sabe que infância não é lugar de consentimento sexual, mas de proteção.  

O mais inquietante, porém, não é apenas o teor da nova norma. É a necessidade dela. Quando o Estado se vê compelido a escrever com todas as letras que uma criança não pode ser tratada como parceira sexual de um adulto, o problema já não é apenas jurídico. A lei nasce como resposta a decisões e discursos que tentaram abrir frestas onde só deveria haver amparo integral. E toda vez que essas brechas se criam, o que atravessa não é uma leitura jurídica sofisticada, mas a velha complacência social com a violência contra meninas. 

Há, portanto, uma dimensão simbólica poderosa nessa alteração legislativa. Ela não apenas reforça a proteção penal, mas desautoriza, no próprio texto da lei, uma tradição de indulgência que por vezes rondou os tribunais e o imaginário social. A mensagem que emerge é direta ao deixar claro que não existe “exceção” capaz de descaracterizar a vulnerabilidade sexual de menores de 14 anos. A infância não pode ser reinterpretada ao sabor de narrativas morais, afetivas ou culturais.  

Mas nenhuma lei, por mais clara que seja, opera milagres sozinha. O texto legal pode vedar a relativização, mas, ainda assim, será preciso enfrentar a mentalidade que a alimentou. Será preciso repetir, com paciência e firmeza, que proteção integral não comporta atalhos hermenêuticos, que criança não seduz adulto, que miséria social não transforma abuso em união legítima e que consentimento infantil é uma impossibilidade jurídica e moral.  

Se a Lei 15.353/2026 precisou ser criada para reafirmar aquilo que deveria ser inquestionável, é porque, enquanto sociedade, permitimos que o óbvio se tornasse negligenciado, ou seja, falhamos em protegê-lo.  

Que essa norma represente não apenas um avanço jurídico, mas também um divisor de águas moral, um brado contra qualquer racionalização que silencie a violência ou afaste o amparo incondicional às nossas meninas. Enquanto houver quem precise de lei para reconhecer que uma criança jamais pode ser vista como cúmplice, mas sempre como vítima, será necessário, repetir, lutar e resistir.  

A proteção absoluta deve se enraizar em cada decisão, em cada discurso, e, principalmente, em nossa consciência coletiva. Não é apenas uma lei que precisa ser cumprida, é uma verdade que precisa ser assumida por toda a sociedade. 

*Débora Veneral é advogada criminalista, professora e diretora da Escola Superior de Gestão Pública, Política, Jurídica e de Segurança do Centro Universitário Internacional – Uninter.  

Cuidado com o que você comenta ou compartilha: Justiça já condena quem ajuda a expor menores na internet

Decisões judiciais mostram que não é apenas quem cria o post que pode ser responsabilizado; usuários que ampliam o alcance de conteúdos com crianças e adolescentes também podem responder no Judiciário

O ato de comentar, curtir ou compartilhar publicações nas redes sociais pode parecer inofensivo, mas tem gerado consequências jurídicas cada vez mais sérias quando envolve a exposição de crianças e adolescentes. A Justiça brasileira já reconhece que usuários que ajudam a difundir conteúdos que identificam menores, especialmente em contextos de violência, acusações ou linchamento virtua, podem ser responsabilizados, mesmo que não tenham criado a postagem original.

O entendimento se apoia no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que garante proteção integral à imagem, à dignidade, à honra e à vida privada de menores. Na prática, ao comentar ou compartilhar um post, o usuário contribui para ampliar o alcance da exposição e o potencial dano, o que pode caracterizar corresponsabilidade civil.

“Existe uma falsa sensação de que apenas quem publica o conteúdo original responde judicialmente. Isso não é verdade. Quando alguém comenta ou compartilha uma postagem que expõe uma criança ou adolescente, especialmente em situações sensíveis, essa pessoa passa a integrar a cadeia de disseminação do dano”, explica Marco Antonio Araujo Jr, advogado e presidente da Comissão Especial de Direito do Turismo, Mídia e Entretenimento do Conselho Federal da OAB.

Casos recentes de grande repercussão reforçam esse entendimento. A Justiça tem determinado a remoção de conteúdos, a exclusão de comentários e, em alguns casos, o pagamento de indenização por danos morais, reconhecendo que a viralização agrava a violação de direitos fundamentais dos menores envolvidos.

“O compartilhamento não é um ato neutro. Ele dá visibilidade, legitima o conteúdo e amplia o alcance da exposição. Do ponto de vista jurídico, isso pesa muito na análise do dano”, afirma o especialista. 

Outro ponto destacado é que a responsabilização independe da intenção do usuário. Mesmo comentários críticos, irônicos ou supostamente informativos podem ser considerados ilegais se contribuírem para a identificação do menor ou para a perpetuação do conteúdo ofensivo.

“A boa-fé não afasta automaticamente a responsabilidade. O critério central é o efeito da conduta: se ela amplia a exposição indevida de um menor, há risco jurídico real”, ressalta Marco Antonio.

Diante desse cenário, a orientação é clara: antes de comentar ou compartilhar qualquer conteúdo envolvendo crianças e adolescentes, é preciso avaliar se há identificação, julgamento público ou exploração da imagem. “O direito à proteção da infância deve prevalecer sobre a curiosidade, a indignação ou o impulso de comentar”, conclui Marco Antonio.

Marco Antonio Araujo Jr, advogado e presidente da Comissão Especial de Direito do Turismo, Mídia e Entretenimento do Conselho Federal da OAB

‘É aliada’

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CIDADE: Prefeitura reforça importância do ECA Digital

Se crianças e adolescentes precisam de proteção integral no ambiente presencial, eles precisam ainda mais de proteção no ambiente virtual. Esse é o objetivo da nova estrutura do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), chamado ECA Digital, que entrou em vigor na terça, 17. A nova legislação impõe novas regras para crianças e jovens em redes sociais, jogos e sites, além de proibir a adultização de crianças e adolescentes na internet, aplicativos ou plataformas.

As normas valem para todo produto ou serviço digital que possa ser acessado por crianças ou adolescentes, independentemente do setor ou modelo de negócio. O ECA Digital vem para proteger crianças e adolescentes no ambiente digital, com medidas voltadas à segurança on-line, proteção de dados, prevenção de riscos e responsabilização de plataformas por conteúdos ilícitos e práticas abusivas.

A subsecretária de Assistência Social de Volta Redonda, Larissa Garcez, entende que a nova lei dará mais ferramentas aos pais e responsáveis para controlar e acompanhar o uso da internet pelas crianças e adolescentes. “O ECA Digital é aliado, mas não substitui a supervisão de pais e responsáveis”, reforçou. Larissa acrescentou que o ECA Digital prevê que a proteção de crianças e adolescentes na internet seja uma responsabilidade das plataformas, mas compartilhada entre os pais e responsáveis, Poder Público e educadores.

“A política pública de proteção foi criada, obrigando as plataformas a aplicar ferramentas e mecanismos de segurança adequados. Já famílias e educadores têm o papel de acompanhar o uso da tecnologia e ensinar a usar os ambientes virtuais de forma segura”, avalia, indo além: “Os conteúdos perigosos devem ser identificados e restringidos com mais eficiência e os dados passam a ter mais proteção. Crianças e adolescentes não são conteúdo”, ressaltou Larissa, lembrando que essa é uma legislação que vem para aprimorar o Estatuto da Criança e do Adolescente, mas ela não substitui as ações de prevenção, que devem ser diárias com as famílias.

Principais pontos do ECA Digital

– Proíbe a autodeclaração de idade em sites e serviços digitais restritos a maiores de 18 anos;

– Exige que redes sociais ofereçam versões sem conteúdos proibidos ou publicidade direcionada;

– As contas de menores de 16 anos devem ser vinculadas às de seus responsáveis;

– Determina que marketplaces e aplicativos de entrega de bebidas alcoólicas, cigarros e produtos eróticos verifiquem a idade no cadastro ou no momento da compra e bloqueiem automaticamente o acesso de menores a itens proibidos;

– Impõe que plataformas de apostas impeçam o cadastro e o acesso de crianças e adolescentes;

– Obriga buscadores a ocultar ou sinalizar conteúdos sexualmente explícitos e a exigir verificação de idade para o desbloqueio;

– Exige que provedores de conteúdo pornográfico adotem verificação de idade, proíbam a autodeclaração e removam contas identificadas como pertencentes a menores;

– Determina que jogos eletrônicos com caixas de recompensa bloqueiem o acesso de menores ou ofereçam versões sem essa funcionalidade;

– Estabelece que serviços de streaming cumpram a classificação indicativa e disponibilizem perfis infantis, mecanismos de bloqueio e ferramentas de controle parental;

– Plataformas que têm mais de 1 milhão de crianças e adolescentes cadastrados devem enviar relatórios mostrando como apuraram denúncias e quais medidas de moderação de conteúdo foram adotadas.

Foto: Cris Oliveira 

 

Todo aluno conta

A Secretaria de Educação de Volta Redonda acaba de lançar a edição 2026 do Projeto Municipal de Prevenção à Infrequência Escolar, que passa a ser desenvolvido em toda a rede municipal de ensino com o lema ‘Volta Redonda Presente. Todo dia conta. Todo aluno importa’. A iniciativa tem o objetivo de fortalecer a permanência dos estudantes na escola e consolidar uma cultura de valorização da presença escolar no município.

Na Escola Municipal Fernando de Noronha, no Retiro, o trabalho de valorização da presença escolar ganhou força já no início do ano letivo, com o projeto interno ‘Aluno Presente’, alinhado à proposta da SME. Célia Romanini, diretora-adjunta da escola, afirmou que a mudança de abordagem foi essencial. “Percebemos, na nossa avaliação institucional, a necessidade de valorizar os alunos frequentes, e não apenas focar na ausência”, explicou.
Entre as estratégias adotadas pela escola estão a criação de mural de valorização dos alunos; um “mapa de presença”, onde os estudantes registram diariamente sua frequência; premiação mensal para as turmas com mais índice de frequência, com atividades recreativas como brincadeiras e interclasses; e apresentações culturais, como músicas e jograis criados pelos próprios alunos.

“Eu gosto de vir para a escola e não gosto de faltar. A escola ajuda a construir o nosso futuro”, disse Arthur Rodrigues, de 9 anos, aluno do 4º ano do ensino fundamental.

‘Volta Redonda Presente’
O Projeto ‘Volta Redonda Presente. Todo dia conta. Todo aluno importa’ amplia e estrutura ações que já vinham sendo desenvolvidas. Agora, o trabalho ganha um formato mais organizado e abrangente, tornando-se um projeto institucional que orienta, de forma sistemática, as estratégias de prevenção à infrequência em toda a rede municipal de ensino.

O projeto prevê ações de mobilização nas escolas para fortalecer a cultura da presença entre estudantes, famílias e profissionais; acompanhamento sistemático da frequência dos alunos; criação de painéis de acompanhamento da frequência das turmas nas escolas; ações de sensibilização com estudantes e responsáveis sobre a importância da presença diária; e reconhecimento de turmas com boa frequência.

A iniciativa tem caráter preventivo, atuando antes que a ausência recorrente se consolide. Para a implementadora da Orientação Educacional da SME, Luiná Silveira de Moraes, o enfrentamento da infrequência escolar em Volta Redonda se dá de forma integrada.
“A rede atua em duas frentes complementares: o Programa Todos na Escola, que organiza o fluxo de busca ativa e envolve toda a rede de proteção; e o projeto ‘Volta Redonda Presente’, que trabalha a prevenção, fortalecendo a cultura da presença antes que as ausências aconteçam. Nosso objetivo é reforçar o vínculo do aluno com a escola e reafirmar que não basta garantir o acesso: é preciso assegurar a permanência. A presença na escola é condição essencial para a garantia do direito à aprendizagem e para o cumprimento do papel protetivo da escola na vida de crianças e adolescentes”, disse Luiná.
“A presença do aluno é fundamental para a aprendizagem e para o seu desenvolvimento. Com o ‘Volta Redonda Presente’, estamos estruturando um trabalho integrado em toda a rede para mobilizar escolas, estudantes e famílias, garantindo que cada aluno esteja presente todos os dias e tenha seu direito de aprender assegurado”, declarou o secretário municipal de Educação, Osvaldir Denadai.

Foto: Secom/PMVR.

‘Mais Verde’

Jovens de 15 a 19 anos que morem em Volta Redonda e cidades vizinhas e que se inscreveram no Projeto Mais Verde, iniciativa de educação ambiental que irá mobilizar estudantes de escolas públicas em atividades voltadas à sustentabilidade e à recuperação ambiental vão receber uma bolsa mensal de R$ 300, com direito a formação com oficinas, atividades práticas e ações de mobilização ambiental nos territórios.
Em Volta Redonda, as atividades acontecerão no Colégio Estadual Guanabara, no Aterrado, com início previsto para o dia 7 de abril. As aulas serão realizadas às terças, das 13h30min às 16h30min. Ao todo, 23 jovens serão selecionados para participar do núcleo do projeto na cidade.

Durante o curso, os estudantes participarão de atividades voltadas ao estudo da biodiversidade da Mata Atlântica, oficinas de botânica e ações práticas de recuperação ambiental. Entre as atividades previstas estão ações em parceria com uma cooperativa de reciclagem, possibilidade de implantação de horta na escola, plantio de mudas nas margens do Rio Paraíba do Sul e uma trilha educativa no município de Pinheiral.
Além da formação ambiental, o projeto também busca estimular o protagonismo juvenil e fortalecer a participação de jovens em iniciativas comunitárias voltadas à sustentabilidade. O núcleo de Volta Redonda conta com parceria do Colégio Estadual Guanabara e do Coletivo Em Nossa Pele.

O Projeto Mais Verde é realizado pela organização Campus Avançado, com fomento do Governo Federal por meio do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, a partir de emenda parlamentar da deputada federal Talíria Petrone.

‘Não fecha’

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Especialista em siderurgia derruba tese de venda da Usina Presidente Vargas

Para analisar e derrubar a tese de que Benjamin Steinbruch estaria disposto a vender até a Usina Presidente Vargas e acabar com Volta Redonda, o aQui buscou um especialista em siderurgia. E ele não deixou por menos. “Ela continua sendo o coração do sistema”, disparou, referindo-se à UPV, onde trabalham atualmente cerca de 10 mil funcionários. “Esse desfazimento (termo usado por internautas que torcem pelo pior) não vai ocorrer”, avalia Maurício Prado Xavier, que escreveu um artigo especial para o aQui abordando a real situação do maior grupo siderúrgico brasileiro. Leia a seguir.

Por que não faz sentido imaginar a CSN sem a Usina Presidente Vargas
Nos últimos dias passaram a circular em publicações alternativas e, sobretudo, nas redes sociais, comentários e especulações sobre mudanças profundas na estrutura da Companhia Siderúrgica Nacional. Entre as hipóteses levantadas está a ideia de que a empresa poderia vender sua siderurgia ou até mesmo se desfazer da Usina Presidente Vargas, em Volta Redonda. Em algumas versões desses boatos, fala-se até em um suposto “desfazimento” da área de metalurgia isto é, o encerramento das etapas que vão da preparação do minério até a produção do aço bruto.

Para quem observa a companhia apenas pelos números da bolsa ou a partir de discussões superficiais na internet, esse tipo de comentário pode até soar plausível. Afinal, a mineração do grupo cresceu muito nos últimos anos e hoje é uma das principais fontes de receita da empresa. Mas quando se olha para a realidade industrial da CSN especialmente a partir da perspectiva de quem vive no Sul Fluminense , essas hipóteses rapidamente se mostram pouco razoáveis.

A razão é relativamente simples: a Usina Presidente Vargas não é apenas uma unidade produtiva dentro da empresa. Ela é o centro em torno do qual todo o sistema industrial da CSN foi estruturado ao longo de mais de oito décadas.

Desde a sua criação, na década de 1940, a companhia foi concebida como um projeto industrial integrado. A ideia nunca foi ter apenas uma siderúrgica isolada, mas construir uma cadeia produtiva completa, que começasse na mineração, passasse pela produção de aço e se conectasse a outras atividades industriais e logísticas.

É justamente esse encadeamento que explica por que a usina em Volta Redonda continua sendo estratégica.

O minério de ferro que alimenta os altos-fornos da usina vem das minas da própria empresa em Minas Gerais, operadas pela CSN Mineração. Esse minério é transformado em ferro e depois em aço dentro da Usina Presidente Vargas, que permanece como uma das maiores siderúrgicas integradas da América Latina.

Mas o aço não é o único resultado desse processo.

A siderurgia gera uma série de subprodutos industriais, e um dos mais importantes é a escória de alto-forno. Esse material, que antes era tratado apenas como resíduo, tornou-se uma matéria-prima valiosa para a produção de cimento. É justamente a escória produzida na usina que abastece boa parte da produção da fábrica de cimentos de Volta Redonda.
Ou seja: a siderurgia não apenas produz aço, ela também alimenta diretamente outra área estratégica.

A integração aparece também na relação com a mineração. É verdade que o minério produzido pela CSN é exportado para diversos países. No entanto, a própria Usina Presidente Vargas funciona como um grande consumidor interno desse minério. Isso dá à empresa uma vantagem importante: mesmo quando o mercado internacional oscila, existe um grande cliente dentro do próprio grupo.

Outro elemento que muitas vezes passa despercebido fora do setor é a logística. Ao longo de décadas, ferrovias, portos e sistemas de transporte foram estruturados para ligar minas, usinas e clientes. Grande parte dessa infraestrutura foi desenvolvida justamente para alimentar o funcionamento da siderúrgica em Volta Redonda.

Sem a usina, todo esse sistema teria que ser reorganizado.

É nesse ponto que os rumores sobre um suposto desfazimento” da metalurgia se tornam ainda mais improváveis. A etapa metalúrgica que inclui processos como sinterização, alto-forno e aciaria é justamente o que permite transformar minério em aço. Sem ela, a usina deixaria de ser uma siderúrgica integrada e se tornaria apenas uma grande laminadora, dependente da compra de placas de aço no mercado. E é justamente aí que aparecem as principais fragilidades dessa hipótese.

Hoje, a CSN possui uma integração que poucos grupos siderúrgicos no mundo ainda mantêm: minério próprio, produção de ferro-gusa, fabricação de placas e laminação final. Se a empresa abandonasse a metalurgia para comprar placas prontas no mercado, perderia o controle sobre a matéria-prima do aço.

Isso criaria dois riscos imediatos: volatilidade de preços e dependência de fornecedores externos. Em vez de produzir seu próprio aço bruto, a empresa passaria a aceitar o preço de mercado das placas, ficando exposta às oscilações internacionais.
Há também um efeito indireto pouco comentado fora do setor: a perda da escória de alto-forno. Sem os altos-fornos, a produção desse subproduto cairia drasticamente, afetando diretamente a cadeia do cimento. Como a escória é um componente importante para a fabricação de cimento, sua redução teria impacto sobre as operações com esse produto valioso.

Outro ponto relevante diz respeito à competitividade. Em ciclos favoráveis da siderurgia especialmente quando o minério está barato –, usinas integradas costumam ter vantagem de custo sobre laminadores que dependem de placas compradas no mercado. Produzir internamente permite capturar melhor esses momentos de mercado. Transformar a usina em uma grande laminadora significaria abrir mão dessa vantagem.

É verdade que, do ponto de vista estritamente financeiro, alguns analistas apontam possíveis benefícios em um modelo mais enxuto. Uma operação focada apenas em laminação exigiria menos investimento industrial, reduziria riscos operacionais e poderia gerar fluxo de caixa mais estável. Esse tipo de modelo é comum em empresas que priorizam retorno sobre capital e baixa alavancagem.

Mas a CSN nunca foi apenas um exercício financeiro.

Há também um componente político e industrial importante nessa discussão. A Usina Presidente Vargas é a maior siderúrgica integrada do Brasil e um dos símbolos da industrialização do país. Abandonar a metalurgia significaria reduzir significativamente o peso industrial da companhia e alterar profundamente o perfil histórico da empresa.
Seria, em muitos sentidos, uma decisão quase civilizacional para a CSN.

Por isso, quando se observam todos os elementos em conjunto, a conclusão é relativamente clara. É possível argumentar que um modelo mais leve reduziria investimentos e riscos no curto prazo. Mas, olhando a estratégia industrial de longo prazo, os custos seriam consideráveis.

A empresa perderia integração, passaria a depender de placas produzidas por terceiros e enfraqueceria parte do ecossistema industrial que construiu ao longo de décadas.
No fim das contas, transformar a Usina Presidente Vargas em uma grande laminadora poderia até melhorar alguns indicadores financeiros no curto prazo. Mas também significaria reduzir o poder industrial da CSN no longo prazo.

E é justamente por isso que os rumores sobre o abandono da metalurgia ou o desfazimento da siderurgia acabam soando, para quem conhece o setor, mais como especulação de redes sociais do que como um cenário realmente plausível.

A Usina Presidente Vargas continua sendo o ponto de convergência de todas as atividades do grupo. É ali que o minério vira aço, que surgem os subprodutos que alimentam outras áreas e que se organiza boa parte da estrutura industrial da companhia.
Em outras palavras, a siderurgia não é apenas mais uma divisão da CSN.
Ela continua sendo o coração do sistema.

Maurício Prado Xavier é especialista em siderurgia. Nasceu em Volta Redonda, conhece bem a Usina Presidente Vargas e morou no Japão por quase uma década, tendo trabalhado na Nippon Steel.   

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